{"id":57,"date":"2008-06-20T18:58:00","date_gmt":"2008-06-20T18:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=57"},"modified":"2008-06-20T18:58:00","modified_gmt":"2008-06-20T18:58:00","slug":"httpblogdeblindness-blogspot-com","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=57","title":{"rendered":"http:\/\/blogdeblindness.blogspot.com\/"},"content":{"rendered":"<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SFv-txA3z4I\/AAAAAAAAAeo\/I5QkG2fdUnA\/s1600-h\/blindness.JPG\"><img style=\"cursor:pointer; cursor:hand;\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SFv-txA3z4I\/AAAAAAAAAeo\/I5QkG2fdUnA\/s400\/blindness.JPG\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5214041055816044418\" \/><\/a><br \/>Vale conferir o <a href=\"http:\/\/\">blog do filme Blindness<\/a> que Fernando Meirelles colocou no ar no dia 24 de agosto do ano passado (dia que o Get\u00falio se matou).<br \/>Tem muita coisa boa!<br \/>Esse post a\u00ed embaixo peguei ao acaso. L\u00e1 vai:<\/p>\n<p>Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007<br \/>Sobre bobeira, gincanas e posi\u00e7\u00f5es de c\u00e2mera.<\/p>\n<p>J\u00e1 eram 4h37 da madrugada e os pardais come\u00e7aram a piar sem gra\u00e7a. Ouvir passarinho cantando antes de ir dormir, em geral, me deixa deprimido. Comecei a rir de bobeira, arranquei o fone do ouvido, desliguei o walkie-talkie e desisti. Est\u00e1vamos em 10 pessoas no c\u00e2mera-car do Stanley, rodando pelo centro de S\u00e3o Paulo, sonados, depois de 14 horas de filmagem na rua. Eu olhava para os quatro monitores que transmitiam o sinal das duas c\u00e2meras que estavam na pick-up, e de outras duas escondidas dentro do carro que o Don Mc\u2019Kellar dirigia, e torcia por oito segundos de alguma imagem que completasse a cena em que o Ladr\u00e3o fica cego, mas sempre alguma coisa atrapalhava. Atr\u00e1s do carro do Don\/Ladr\u00e3o vinha um comboio com uma limusine branca enorme, um t\u00e1xi destes amarelos e outros carros simulando uma rua movimentada em alguma cidade do mundo. O Don tinha que seguir o c\u00e2mera-car mantendo a mesma velocidade e uma dist\u00e2ncia fixa, tarefa complicada nas ruas de S. Paulo, cheias de far\u00f3is, mais complicada ainda pelo fato dele n\u00e3o dirigir regularmente e nunca ter guiado um carro com marchas. Isso j\u00e1 seria um bom desafio, mas havia um agravante, o Don \u00e9 m\u00edope mas seu personagem n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o tinha que fazer tudo isso sem \u00f3culos e para completar, a cada 10 segundos, o Serj\u00e3o, eletricista, o ofuscava direcionando um refletor para seus olhos simulando far\u00f3is de outros carros. A cerejinha neste bolo de convite-ao-acidente \u00e9 que ele dirigia um carro prot\u00f3tipo da Fiat, movido a benzina, e cada vez que parava num sinal o carro morria e n\u00e3o pegava mais. Quando ouvi o primeiro pardal, olhei o rel\u00f3gio e me dei conta que est\u00e1vamos parados h\u00e1 quatro minutos esperando o Fiat se mover. Cansados, sem rea\u00e7\u00e3o, apenas olh\u00e1vamos para o carro l\u00e1, parad\u00e3o. Cont\u00e1vamos s\u00f3 com a ajuda da Analia, operadora de c\u00e2mera que estava escondida no banco de tr\u00e1s do Fiat com o Don e poderia ajud\u00e1-lo. Ent\u00e3o, o C\u00e9sar anunciou que, al\u00e9m de n\u00e3o falar ingl\u00eas, a An\u00e1lia n\u00e3o sabia dirigir. Nosso bote salva-vidas naufragou. \u201cXeque-mate\u201d, pensei. E joguei a toalha.<\/p>\n<p>Minha disposi\u00e7\u00e3o para este tipo de gincana j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a que era. Madrugadas, movimentos de grua complicados, muitos figurantes, cen\u00e1rios enormes, cenas com muitas situa\u00e7\u00f5es paralelas a serem mostradas me d\u00e3o uma certa pregui\u00e7a. Filmar com muitas c\u00e2meras tamb\u00e9m complica bem. O Gui, som direto, que o diga. Ele vive sinucado sem ter por onde entrar com seu microfone. \u201cTem c\u00e2mera por todo lado\u201d. Reclama. \u201cD\u00e1 seu jeito!\u201d, respondo. E ele vai dando.<\/p>\n<p>Rodar com muitas c\u00e2meras \u00e9 bom por n\u00e3o termos que repetir a mesma cena 40 vezes para conseguir diversos \u00e2ngulos, e \u00e9 \u00f3timo pois d\u00e1 muita cobertura para o montador; mas, durante a filmagem, muitos \u00e2ngulos simult\u00e2neos pode ser dispersivo. Neste filme, o C\u00e9sar Charlone e eu aprimoramos uma boa maneira de trabalharmos com quatro c\u00e2meras, pode at\u00e9 ser chamado de m\u00e9todo, tem uma certa l\u00f3gica, contrariando o que pensam os assistentes de dire\u00e7\u00e3o e parte da equipe. Eis o \u201cm\u00e9todo\u201d (que obviamente n\u00e3o \u00e9 sempre seguido com o rigor que descrevo aqui):<\/p>\n<p>Para planos gerais da cidade, ou imagens com muitos detalhes, estamos usando uma c\u00e2mera chamada Vista Vision. Ela roda em 64mm, gera uma imagem bem definida e est\u00e1vel. Em geral, esta c\u00e2mera s\u00f3 trabalha em algumas externas, onde \u00e9 usada apenas para um ou dois \u00e2ngulos pr\u00e9-determinados e depois descansa o resto do dia. Ela consome negativo como um Dodge Dart consumia gasolina \u2013 ou, para quem n\u00e3o sabe o que \u00e9 um Dodge Dart, como um deputado consome verba de representa\u00e7\u00e3o. Vorazmente.<\/p>\n<p>Depois, temos a c\u00e2mera A, uma 35mm que conta a hist\u00f3ria. Quando \u00e9 poss\u00edvel criar uma imagem instigante e narrativa ao mesmo tempo, \u00f3timo. Se n\u00e3o for poss\u00edvel, esta c\u00e2mera tem que priorizar a clareza da hist\u00f3ria, ou seja, mostrar o lugar onde est\u00e3o os atores, cobrir os di\u00e1logos e as rea\u00e7\u00f5es dos personagens deixando claras as inten\u00e7\u00f5es da cena. \u00c9 meio convencional \u00e0s vezes, mas resolve.<\/p>\n<p>Rodando ao mesmo tempo, temos sempre uma c\u00e2mera B, que tenta contar a mesma hist\u00f3ria de forma mais indireta. Cobre a cena atrav\u00e9s de reflexos, pelas costas dos atores, faz os closes, busca enquadramentos menos \u00f3bvios. Mostra a nuca em vez do rosto, uma sombra em vez do corpo do ator. Sugere a hist\u00f3ria mais do que a mostra. Se a c\u00e2mera A \u00e9 prosa, a c\u00e2mera B \u00e9 poesia. Desta c\u00e2mera dever\u00e3o sair \u201cos melhores momentos\u201d do filme, mas como no futebol, sabemos que s\u00f3 a jogada de efeito n\u00e3o funciona. \u00c9 preciso ter uma c\u00e2mera \u201cA\u201d levantando para esta \u201cB\u201d cortar.<\/p>\n<p>Finalmente, h\u00e1 uma c\u00e2mera 16mm que entregamos ao acaso, ou para Deus, como diz o C\u00e9sar. Usamos basicamente para desperdi\u00e7ar negativo. Ela em geral fica amarrada com fita crepe num canto e quase sempre roda sem operador, \u00e9 acionada por quem estiver mais perto. O aproveitamento das imagens desta c\u00e2mera-do-acaso \u00e9 baixo. \u00c9 como lan\u00e7ar uma rede sem grandes expectativas para eventualmente puxarmos imagens inesperadas. E acontece. Curioso que sempre chamamos esta atitude de buscar imagens ao acaso de \u201cpescaria\u201d, achei que n\u00f3s tiv\u00e9ssemos inventado esta express\u00e3o, mas descobri agora, com o canadenses , que eles tamb\u00e9m usam a mesma express\u00e3o: \u201cFishing\u201d.<\/p>\n<p>O uso de c\u00e2meras simult\u00e2neas n\u00e3o \u00e9 muito habitual no Brasil, pois aparentemente encarece um filme. \u00c9 preciso mais equipe de c\u00e2mera, gasta-se mais com aluguel de equipamento ou com negativo. Mas se computarmos a redu\u00e7\u00e3o do numero de di\u00e1rias que isso gera, acho que a conta se fecha a favor. Neste caso t\u00ednhamos or\u00e7ado 57 dias de filmagem mas devemos terminar o filme em 50. Essa semana economizada est\u00e1 diretamente relacionada ao monte de c\u00e2meras e (talvez) esta economia compense os custos extras mencionados. Mas, mesmo que n\u00e3o haja vantagens econ\u00f4micas, essa maneira de filmar vale a pena. Ela nos permite quase nunca repetirmos um mesmo enquadramento em duas horas de filme e libera o ator que, nem que queira, consegue interpretar para a c\u00e2mera, j\u00e1 que est\u00e1 cercado. Tamb\u00e9m me livra do chato (e \u00e0s vezes in\u00fatil) trabalho de decupar o filme. O que fazemos \u00e9 montar a cena como se fosse teatro, sem pensar em c\u00e2meras e depois cobrimos o m\u00e1ximo poss\u00edvel. A decupagem acontece na sala de montagem, o que \u00e9 uma vantagem, como tenho constatado, pois muitas vezes entre a imagem bem enquadrada da c\u00e2mera A, que foi previamente planejada, ou a mesma cena meio encoberta da c\u00e2mera B temos usado a segunda op\u00e7\u00e3o na montagem. Neste filme, que \u00e9 sobre olhar, mas n\u00e3o ver, esconder um pouco o que se passa ajuda a colocar o espectador no mundo dos personagens cegos, quero crer. De qualquer maneira, eu dificilmente planejaria um enquadramento onde um ator cobre o outro intencionalmente. Esses momentos acontecem por sorte e \u00e0s vezes s\u00e3o \u00f3timos.<\/p>\n<p>O C\u00e9sar, em geral, defende que a hist\u00f3ria seja contada mais pelas imagens e sons e reclama da quantidade de palavras do roteiro. Certamente o Marco Antonio Guimar\u00e3es, que vai fazer a trilha, apoiar\u00e1 esta vis\u00e3o. Atores e roteirista gostam de di\u00e1logos e \u00e0s vezes n\u00e3o entendem o exagero de posi\u00e7\u00f5es de c\u00e2mera que usamos. Eu tento ter o m\u00e1ximo dos dois mundos. Apoio sempre sugest\u00f5es de novos pontos de vista que n\u00e3o haviam me ocorrido e incentivo os atores a aumentar seus textos para ajud\u00e1-los a entrar na hist\u00f3ria. Fa\u00e7o isso mesmo sabendo que cortarei o excesso de palavras na montagem, ou que dificilmente usarei um determinado \u00e2ngulo que est\u00e1 sendo rodado. Mas nunca se sabe, ent\u00e3o arrisco. O tempero entre a narrativa das palavras e das imagens vai ser encontrado na montagem, que \u00e9 quando realmente o filme toma forma. J\u00e1 aprendi que numa sala fechada, tranq\u00fcila e concentrada, nem sempre a decis\u00e3o que me pareceu mais acertada no set prevalecer\u00e1, ent\u00e3o, na d\u00favida entre uma op\u00e7\u00e3o ou outra, rodo as duas.<\/p>\n<p>Admiro a capacidade de abstra\u00e7\u00e3o de diretores que conseguem pensar seus filmes de ponta a ponta com anteced\u00eancia, diretores que desenham storyboards e depois cumprem \u00e0 risca o que planejaram. J\u00e1 tentei fazer isso, mas fico t\u00e3o focado em fazer o que planejei que acabo n\u00e3o vendo as id\u00e9ias vivas que acontecem no set. J\u00e1 filmei muito como um clarinetista que toca seguindo uma partitura, hoje acho que filmo mais como jazz. Voc\u00ea me entende.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=57\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vale conferir o blog do filme Blindness que Fernando Meirelles colocou no ar no dia 24 de agosto do ano passado (dia que o Get\u00falio se matou).Tem muita coisa boa!Esse post a\u00ed embaixo peguei ao acaso. L\u00e1 vai: Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007Sobre bobeira, gincanas e posi\u00e7\u00f5es de c\u00e2mera. 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