{"id":49,"date":"2008-06-03T09:32:00","date_gmt":"2008-06-03T09:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=49"},"modified":"2008-06-03T09:32:00","modified_gmt":"2008-06-03T09:32:00","slug":"entrevista-com-ivo-mesquita-na-bravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=49","title":{"rendered":"Entrevista com Ivo Mesquita na Bravo!"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight:bold;\">O pequeno \u00e9 bonito<\/span><br \/>Com a id\u00e9ia de deixar vazio um andar da pr\u00f3xima Bienal de S\u00e3o Paulo, o curador Ivo Mesquita quer promover o debate sobre a crise das grandes exposi\u00e7\u00f5es na era do excesso de feiras<br \/>* por Marcelo Rezende<\/p>\n<p>Ivo Mesquita tem uma longa trajet\u00f3ria no circuito da arte no Brasil, iniciada no fim dos anos 60. Desde o fim de 2007, seu nome est\u00e1 associado a uma id\u00e9ia: o vazio. Mesquita \u00e9 o curador da 28a Bienal, que acontece entre outubro e dezembro deste ano.<\/p>\n<p>Ele prop\u00f5e, para o evento, discutir abertamente a crise pela qual passam as grandes exposi\u00e7\u00f5es, sobretudo a de S\u00e3o Paulo, onde a Funda\u00e7\u00e3o Bienal enfrenta acusa\u00e7\u00f5es de desmandos administrativos e procura redefinir seu papel e fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para representar esse gesto, ele deixar\u00e1 vazio um dos andares do pr\u00e9dio projetado por Oscar Niemeyer. Mesquita pretende recriar o modelo da Bienal, a fim de que o p\u00fablico n\u00e3o tenha apenas um percurso (passear por obras reunidas por afinidades tem\u00e1ticas em um pavilh\u00e3o), mas um circuito \u2014 composto de publica\u00e7\u00f5es, debates ou a\u00e7\u00f5es envolvendo a cidade e seus habitantes, entre elas duas festas no parque do Ibirapuera.<\/p>\n<p>Essa seria uma das estrat\u00e9gias poss\u00edveis para repensar o papel do artista \u2014 e do curador \u2014 em um ambiente de feiras de arte e do discurso dominante do mercado. Para ele, a atual atmosfera de excesso, velocidade e grandeza desmedida deve ser contida. Como escreveu o artista franc\u00eas Yves Klein (1928-1962), que fez do imaterial toda uma quest\u00e3o para a arte, \u00e9 preciso &#8220;manipular as for\u00e7as do vazio&#8221;. A 28a Bienal se prepara para o desafio, disse Ivo Mesquita.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">BRAVO!: Hoje, as feiras de arte se multiplicam, mostrando a for\u00e7a e o vigor do mercado, e ao mesmo tempo reivindicam ser ainda um espa\u00e7o para o debate. H\u00e1 competi\u00e7\u00e3o com as bienais?<\/span><\/p>\n<p>Ivo Mesquita: A cada semana h\u00e1 uma feira abrindo. H\u00e1 o mesmo tipo de multiplica\u00e7\u00e3o das bienais. Em um dado momento, a partir dos anos 80, as bienais v\u00e3o precisando cada vez mais do apoio das galerias para produzir projetos para essas mesmas bienais \u2014 um financiamento. Isso j\u00e1 havia desde os anos 50 e 60, durante a Guerra Fria, com a cria\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios no circuito de bienais, e havia uma press\u00e3o das galerias por esses pr\u00eamios. O que houve nos \u00faltimos tempos \u00e9 que as galerias se deram conta de que era melhor fazerem diretamente tudo, com as feiras. Por isso, proponho que as bienais sejam mais enxutas, com menos artistas, mais cr\u00edticas e mais reflexivas. Na verdade, antes dessa explos\u00e3o, at\u00e9 os anos 80, os museus n\u00e3o se ocupavam muito de arte contempor\u00e2nea; isso era uma coisa de bienais. As bienais tinham o papel de certa organiza\u00e7\u00e3o, revela\u00e7\u00e3o da arte contempor\u00e2nea. \u00c0 medida que isso passa para dentro dos museus, estes come\u00e7am a ocupar esse lugar, e esse mercado, o da arte contempor\u00e2nea, vai se tornando muito poderoso tamb\u00e9m \u2014 e n\u00e3o era assim antes. <\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">Esse contexto deixa voc\u00ea mais livre ou mais pressionado para preparar uma Bienal?<\/span><br \/>Mais livre. Porque h\u00e1 v\u00e1rios segmentos que est\u00e3o muito bem supridos, representados e ouvidos. As bienais t\u00eam que ter uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica sobre os modos de produ\u00e7\u00e3o de hoje. Acredito muito nos programas de resid\u00eancia de artistas, mas n\u00e3o aquela coisa que j\u00e1 se institucionalizou. O artista trabalhando por tr\u00eas semanas ou tr\u00eas meses. Tem que ir para uma cidade, ter uma casa, ter uma vida, aprender a l\u00edngua, ver as escolas de arte que existem naquele lugar. E isso pode durar um ano e meio, dois anos, com o acompanhamento de um curador. Acho importante essa experi\u00eancia, a possibilidade de desacelerar o tempo para a produ\u00e7\u00e3o da obra, criar um contraponto a esse tempo digital, acelerado. Nesse sentido, as bienais deveriam ser menores, o que abre a possibilidade de criar novos formatos que n\u00e3o o da pr\u00f3pria exibi\u00e7\u00e3o de objetos em um pavilh\u00e3o. Por que n\u00e3o uma Bienal que aconte\u00e7a na internet? Por que algo que n\u00e3o esteja dentro do pr\u00e9dio?<\/p>\n<p>Nos circuitos das bienais, h\u00e1 um crescente discurso pol\u00edtico nas obras \u2014 em teoria, projetos que n\u00e3o podem ser comprados \u2014 e nos temas, o que seria uma estrat\u00e9gia para se opor ao mercado. Mas tudo isso acontece sob os olhos do mercado de arte.<br \/>Mas n\u00e3o \u00e9 isso o que se v\u00ea nas feiras de arte? Os artistas vendendo seus trabalhos, seus arquivos, aquelas pesquisas que eles fazem. Tudo est\u00e1 l\u00e1 para vender. Custa 15 mil euros, 50 mil euros, dependendo do artista. O colecionador compra. Mas por qu\u00ea? Ele vai ler todas aquelas figurinhas? Talvez. Mas n\u00e3o \u00e9 um trabalho que caiba no espa\u00e7o da casa; isso n\u00e3o faz sentido. E se n\u00e3o s\u00e3o obras para o espa\u00e7o da casa, ent\u00e3o talvez n\u00e3o seja o espa\u00e7o para esse mercado, e as institui\u00e7\u00f5es devem pensar sobre isso. Nesse sentido, o que precisa ser readaptado talvez seja a economia que permite que esse artista trabalhe. E isso seria veiculado \u00e0s bienais. Esse espa\u00e7o que antes era de projetos foi apropriado pelo mercado. N\u00e3o sei se a gente consegue desfazer isso, mas ao menos temos que deixar claro como a coisa acontece.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">Ent\u00e3o a 28a Bienal come\u00e7a com a vontade de desfazer?<\/span><br \/>O economista alem\u00e3o Ernst Friedrich Schumacher dizia que o pequeno \u00e9 bonito. Quando todos propunham as grandes corpora\u00e7\u00f5es, na d\u00e9cada de 1970, ele vinha com a id\u00e9ia do pequeno neg\u00f3cio, que permitia emprego, era fundamental. No lugar das grandes f\u00e1bricas, o pequeno neg\u00f3cio. Eu concordo com ele. Temos essa rela\u00e7\u00e3o com o grande, mas n\u00e3o encaramos alguns fatos. Desde 1951, a Bienal de S\u00e3o Paulo \u00e9 visitada por 10% da popula\u00e7\u00e3o da cidade. Com as d\u00e9cadas, a cidade cresceu, criou-se uma infra-estrutura cultural enorme, mas continuam sendo os mesmos 10 % que visitam a Bienal. Por que isso ocorre? O que significa? Quando voc\u00ea pensa que a Bienal pode custar R$ 20 milh\u00f5es, e voc\u00ea pensa nesses 10%&#8230; Sei que n\u00e3o se medem as quest\u00f5es da cultura por meio desses valores, mas eles n\u00e3o deixam de ser significativos. Precisamos ent\u00e3o parar e refletir, pensar que alternativas temos, que possibilidades se apresentam, hoje, para um outro tipo de modelo.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">E o novo modelo pode ser iniciado com um sal\u00e3o vazio? <\/span><br \/>O tema da Bienal n\u00e3o \u00e9 o vazio. Haver\u00e1 por volta de 40 artistas participantes, publica\u00e7\u00f5es, performances, debates, diferentes a\u00e7\u00f5es. O vazio \u00e9 um gesto simb\u00f3lico. A psican\u00e1lise \u00e9 algo muito presente para mim, um instrumento. Acredito na id\u00e9ia de um corte na fala, na interrup\u00e7\u00e3o da conversa, no fim da sess\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1, falando, e o psicanalista diz que acabou a sess\u00e3o e voc\u00ea fica com a palavra no ar, e isso descortina um vazio para voc\u00ea, que \u00e9 quando voc\u00ea tem a chance de se ver, de buscar respostas. Para mim, as pessoas t\u00eam medo do vazio. O que estaria por tr\u00e1s desse medo? Mais uma vez, algo psicanal\u00edtico. Talvez estejamos percebendo que a arte j\u00e1 n\u00e3o nos assegura, n\u00e3o tem mais a capacidade de mitigar a nossa ang\u00fastia diante do vazio de nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. Ser\u00e1 que a arte perdeu essa capacidade ao falar de coisas imediatas, do mundo, das ra\u00e7as? N\u00e3o basta apenas afirmar que h\u00e1 crise; \u00e9 preciso se colocar e debat\u00ea-.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=49\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pequeno \u00e9 bonitoCom a id\u00e9ia de deixar vazio um andar da pr\u00f3xima Bienal de S\u00e3o Paulo, o curador Ivo Mesquita quer promover o debate sobre a crise das grandes exposi\u00e7\u00f5es na era do excesso de feiras* por Marcelo Rezende Ivo Mesquita tem uma longa trajet\u00f3ria no circuito da arte no Brasil, iniciada no fim &hellip;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=49\" class=\"more-link\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}