{"id":486,"date":"2009-10-13T01:33:00","date_gmt":"2009-10-13T01:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=486"},"modified":"2009-10-13T01:33:00","modified_gmt":"2009-10-13T01:33:00","slug":"economia-da-cultura-um-desafio-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=486","title":{"rendered":"Economia da Cultura, um desafio para o Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista com Leandro Valiati no <a href=\"http:\/\/www.blogacesso.com.br\/?p=1638\">Blog Acesso<\/a><\/p>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/StPY1O8r6nI\/AAAAAAAACVc\/ZkUvkm76XCA\/s1600-h\/Imagem1.png\" imageanchor=\"1\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img border=\"0\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/StPY1O8r6nI\/AAAAAAAACVc\/ZkUvkm76XCA\/s400\/Imagem1.png\" \/><\/a><\/div>\n<p>A Economia da Cultura \u00e9 um tema que demorou a pegar no Pa\u00eds. Um dos motivos que podem explicar esse atraso, segundo Leandro Valiati, \u00e9 o pr\u00f3prio conservadorismo dos economistas brasileiros. Apesar de ainda caminhar a passos lentos, este ramo da economia tem tudo para ser um dos que mais evoluir\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos em territ\u00f3rio nacional. <\/p>\n<p>Valiati, que \u00e9 graduado em Economia, mestre em Planejamento Urbano e doutorando em Economia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ajudou a criar e a implementar o curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Economia da Cultura na mesma universidade. Hoje, al\u00e9m de lecionar na \u00e1rea, ele tem se ocupado em desenvolver indicadores de avalia\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica de projetos sociais e culturais.<\/p>\n<p>Durante a entrevista que concedeu ao blog Acesso, Valiati explica a import\u00e2ncia da Economia da Cultura para o desenvolvimento de a\u00e7\u00f5es mais sustent\u00e1veis no cen\u00e1rio cultural brasileiro. De acordo com o economista, este \u00e9 o momento para o Minist\u00e9rio da Cultura \u201carticular iniciativas e recursos para um grande mapeamento de impacto e da cadeia produtiva da cultura nacional\u201d. Confira estas e outras informa\u00e7\u00f5es esclarecedoras sobre o assunto na entrevista a seguir.<\/p>\n<p><b>Blog Acesso \u2013 Por que voc\u00ea acha que a Economia da Cultura \u00e9 uma \u00e1rea que demorou a ser valorizada e reconhecida no Brasil?<\/b><br \/>Leandro Valiati \u2013 Foram dois motivos fundamentais: por um lado, os economistas e a ci\u00eancia econ\u00f4mica s\u00e3o conservadores, o que implica em dificuldades para reconhecer um novo campo de estudo; por outro lado, a cultura \u00e9 elemento de dif\u00edcil apreens\u00e3o, o que determina uma grande dificuldade em se posicionar disciplinarmente para estud\u00e1-la. Na pr\u00e1tica, antes de formalizar a Economia da Cultura, \u00e9 necess\u00e1rio perguntar: o que \u00e9 Economia da Cultura? E, antes disso, o que \u00e9 Economia?<\/p>\n<p><b>BA \u2013 Mas &#8220;o que \u00e9 Economia?&#8221; os economistas j\u00e1 devem se perguntar faz tempo, n\u00e3o?<\/b><br \/>LV \u2013 A vida inteira e toda a eternidade. E incorporar um novo elemento a ser objeto da aplica\u00e7\u00e3o do instrumental te\u00f3rico da economia faz repensar toda a ci\u00eancia econ\u00f4mica. Isso \u00e9 bem legal, \u00e9 autoconhecimento. Traduzindo: a economia, nos manuais, \u00e9 a ci\u00eancia que estuda a melhor aloca\u00e7\u00e3o de recursos escassos em um ambiente de necessidades ilimitadas, mas, para mim esse conceito \u00e9 reducionista. A Economia estuda o bem-estar e isso \u00e9 muito amplo. Logo, definindo a Economia como a ci\u00eancia que estuda o bem-estar (individual) e os caminhos para atingi-lo, constru\u00edmos espa\u00e7o para entender a Economia da Cultura n\u00e3o s\u00f3 como o estudo e organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de bens culturais e seus efeitos multiplicadores (emprego e renda) como tamb\u00e9m o estudo da forma\u00e7\u00e3o de valor individual e social (mat\u00e9ria prima do bem-estar) e nisso entra forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos de consumo, valores identit\u00e1rios, valor cultural, bens p\u00fablicos, etc. \u00c9 a\u00ed que, na minha opini\u00e3o, come\u00e7a a verdadeira Economia da Cultura.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 Ent\u00e3o a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do valor individual e social, do bem-estar, apesar de voc\u00ea ter relacionado aqui \u00e0 &#8220;verdadeira Economia da Cultura&#8221;, na verdade vale para qualquer \u00e1rea da economia?<\/b><br \/>LV \u2013 \u00d3tima pergunta. A Economia \u00e9 uma ci\u00eancia bastante dividida. Na abordagem ortodoxa, estuda-se a economia positiva, que leva em conta &#8220;as coisas como elas s\u00e3o&#8221;, ou seja, com o arranjo de distribui\u00e7\u00e3o estabelecido, qual a melhor maneira de produzir. Nesse sentido, o espa\u00e7o para pensar em coisas para al\u00e9m dos efeitos multiplicadores \u00e9 muito pequeno. De outro modo, na leitura heterodoxa, que v\u00ea as coisas &#8220;como elas poderiam ser&#8221;, h\u00e1 espa\u00e7o para incorporar outros elementos do tipo: como melhor distribuir o produto? Quais os valores que existem para al\u00e9m da demanda de mercado? Como alcan\u00e7ar desenvolvimento, o qual, em alguns casos, pode estar inclusive descolado do crescimento? Nesse sentido, gosto muito do que Amartya Sen, Pr\u00eamio Nobel de economia, defende sobre capacita\u00e7\u00f5es sociais: para ele, desenvolvimento econ\u00f4mico significa bens dispon\u00edveis, pessoas (agentes) capacitados a discernir e escolher entre os bens dispon\u00edveis e renda para isso. Ou seja, que venha a Ivete Sangalo e o teatr\u00e3o para elite, mas que tamb\u00e9m tenhamos Gerswhin em aulas escolas prim\u00e1rias e cinemas em bairros de periferia.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 A Economia da Cultura ent\u00e3o vem para que a cultura seja mais democr\u00e1tica?<\/b><br \/>LV \u2013 Talvez.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 Depende da forma como ela \u00e9 usada e aplicada?<\/b><br \/>LV \u2013 S\u00e3o duas etapas: a primeira \u00e9 a da efici\u00eancia. Os recursos p\u00fablicos s\u00e3o muito escassos, portanto \u00e9 urgente repensar os sistemas de incentivo \u00e0 cultura em termos do resultado ineficiente que eles t\u00eam apresentado. Al\u00e9m disso, temos que criar instrumentos de gest\u00e3o tais como indicadores para que possamos compreender a realidade sobre a qual operamos no setor cultural (e social tamb\u00e9m). Passada essa etapa, chegamos \u00e0 da distribui\u00e7\u00e3o, na qual, utilizando os instrumentos criados na primeira etapa, \u00e9 poss\u00edvel distribuir socialmente o produto &#8220;cultura&#8221; de forma, ampla e democr\u00e1tica. Enfim, a economia tem instrumentos para isso.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 At\u00e9 o Minist\u00e9rio da Cultura demorou a usar a economia para planejar e criar a\u00e7\u00f5es e programas. N\u00e3o \u00e9 estranho detectar que o \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo da Cultura no Pa\u00eds trabalhava at\u00e9 pouco tempo sem saber dados b\u00e1sicos como o n\u00famero de brasileiros que vai ao cinema regularmente?<\/b><br \/>LV \u2013 Al\u00e9m de estranho \u00e9 preocupante que ainda hoje n\u00e3o tenhamos dados consolidados e nenhuma iniciativa integrada nesse sentido. Existe o Suplemento de Cultura feito em parceria com o IBGE, mas \u00e9 algo isolado que olha fundamentalmente para a infra-estrutura. Acho que seria fundamental o Minc articular iniciativas e recursos para um grande mapeamento de impacto e da cadeia produtiva da cultura nacional. Isso atrairia investidores externos e internos, p\u00fablicos e privados, e daria instrumentos efetivos para uma atua\u00e7\u00e3o cir\u00fargica dos instrumentos de gest\u00e3o p\u00fablica. Esse \u00e9 o caminho para a sustentabilidade do setor, o que seria revertido em bens culturais dispon\u00edveis, o que \u00e9 bem-estar.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 E como isso deve ser feito?<\/b><br \/>LV \u2013 Penso que para um estudo desse tipo ser viabilizado \u00e9 necess\u00e1rio um amplo debate com as universidades, setor privado e p\u00fablico atuante na cultura, realizadores, para que o m\u00e9todo seja apropriado e os resultados fact\u00edveis. N\u00e3o vejo isso ocorrendo, apesar de toda a boa inten\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio. Nesse sentido, participei de dois projetos que acho relevantes para ilustrar.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 Quais s\u00e3o?<\/b><br \/>LV \u2013 Um deles, com o governo de Pernambuco, foi para criar um indicador de efetividade da pol\u00edtica cultural do Estado. Pesquisamos todos os ciclos anuais de eventos como o carnaval e a Paix\u00e3o de Cristo, por exemplo, a fim de mapear os dados de impacto s\u00f3cio-econ\u00f4mico dos mesmos, al\u00e9m de criar um indicador qualitativo e quantitativo para avaliar os resultados de cada a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, compreendendo assim os dados de emprego e renda, mas com o pano de fundo de compreender os aspectos qualitativos associados \u00e0 sustentabilidade.<br \/>O outro projeto, que veio antes do de Pernambuco, foi para criar um \u00edndice para sele\u00e7\u00e3o e acompanhamento de projetos da secretaria de justi\u00e7a e seguran\u00e7a social do Rio Grande do Sul. O fato inovador nesses dois projetos \u00e9 que eles geraram um instrumento de gest\u00e3o que permite (se alimentado em termos de dados), por exemplo, que daqui a vinte anos se tenha uma an\u00e1lise da evolu\u00e7\u00e3o das vari\u00e1veis levadas em conta para perceber se o programa superou dificuldades identificadas e se os investimentos foram feitos adequadamente onde deveriam.<br \/>A partir disso, conclu\u00edmos que duas coisas s\u00e3o importantes. A primeira \u00e9 conhecer a realidade e os resultados principalmente em um mundo onde o filantrocapitalismo est\u00e1 a\u00ed como valor. N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel que n\u00e3o saibamos os resultados de um investimento (p\u00fablico ou privado) social ou cultural. A segunda volta \u00e0 quest\u00e3o da necessidade de integra\u00e7\u00e3o dos esfor\u00e7os: essas duas iniciativas, por exemplo, que s\u00e3o modernas e inovadoras em \u00e2mbito mundial, muito provavelmente n\u00e3o s\u00e3o conhecidas pelo minist\u00e9rio ou pelo terceiro setor. \u00c9 poss\u00edvel que outras iniciativas estejam isoladas por a\u00ed. Precisamos formar massa cr\u00edtica e isso se faz integrando a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>BA \u2013 Ser\u00e1 que s\u00f3 mesmo com o tempo a nascente Economia da Cultura do Brasil vai come\u00e7ar a mostrar, por meio de resultados, como ela \u00e9 fundamental para que todos os brasileiros tenham acesso \u00e0 cultura?<\/b><br \/>LV \u2013 Olha, acho que j\u00e1 \u00e9 tempo de transformarmos o pensamento existente sobre o tema em tecnologias, tais como as dos instrumentos de gest\u00e3o por indicadores sociais e culturais de que tratamos. J\u00e1 \u00e9 hora do pr\u00f3ximo passo, dado o avan\u00e7o que j\u00e1 existe no pa\u00eds sobre o tema.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=486\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Leandro Valiati no Blog Acesso A Economia da Cultura \u00e9 um tema que demorou a pegar no Pa\u00eds. Um dos motivos que podem explicar esse atraso, segundo Leandro Valiati, \u00e9 o pr\u00f3prio conservadorismo dos economistas brasileiros. 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