{"id":43,"date":"2008-05-18T19:25:00","date_gmt":"2008-05-18T19:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=43"},"modified":"2008-05-18T19:25:00","modified_gmt":"2008-05-18T19:25:00","slug":"melhor-que-gratis-kevin-kelly","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=43","title":{"rendered":"Melhor que gratis &#8211; Kevin Kelly"},"content":{"rendered":"<p>O texto abaixo \u00e9 do ex-editor da revista wired, Kevin Kelly, e eu peguei no <a href=\"http:\/\/www.diginois.com.br\/\">Diginois<\/a> do Lucas Santana que por sua vez havia copiado do <a href=\"http:\/\/www.gardenal.org\/trabalhosujo\/\">Trabalho Sujo<\/a> do Alexandre Matias.<\/p>\n<p>Ele foi traduzido para o portugu\u00eas pelo Miguel Caetano no seu site <a href=\"http:\/\/remixtures.com\/\">Remixtures<\/a>.<br \/><span style=\"font-weight:bold;\"><br \/>Melhor que gratis- Kevin Kelly<\/span><br \/>A internet \u00e9 uma copiadora. Ao seu n\u00edvel mais b\u00e1sico, ela copia cada ac\u00e7\u00e3o, cada caracter, cada pensamento que temos enquanto navegamos por ela. De modo a enviar uma mensagem de um canto da Internet para outro, os protocolos de comunica\u00e7\u00e3o exigem que a mensagem inteira seja copiada por diversas vezes ao longo do percursos.<\/p>\n<p>As empresas de Tecnologias da Informa\u00e7\u00e3o ganham montes de dinheiro vendendo equipamento que facilita esta c\u00f3pia incess\u00e1vel. Cada bit de dados jamais produzido em qualquer computador acaba sempre por ser copiado em algum lado. Neste sentido, a economia digital navega por entre um rio de c\u00f3pias. Ao contr\u00e1rio das reprodu\u00e7\u00f5es fabricadas em massa datadas da era das m\u00e1quinas, estas c\u00f3pias n\u00e3o s\u00e3o apenas baratas, s\u00e3o gr\u00e1tis.<\/p>\n<p>A nossa rede de comunica\u00e7\u00e3o digital foi concebida de forma a que as c\u00f3pias se difundam com o m\u00ednimo de fric\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. De facto, as c\u00f3pias propagam-se de uma forma t\u00e3o livre que podemos at\u00e9 conceber a internet como um sistema de superdistribui\u00e7\u00e3o em que a partir do momento em que uma c\u00f3pia \u00e9 introduzida ela ir\u00e1 continuar a difundir-se eternamente pela rede, muito \u00e0 semelhan\u00e7a da electricidade num fio supercondutor.<\/p>\n<p>Podemos constatar isto na vida real. A partir do momento em que qualquer coisa que pode ser copiada entra em contacto com a Internet ela \u00e9 copiada e essas c\u00f3pias nunca podem ser eliminadas. Mesmo um c\u00e3o sabe que n\u00e3o podemos apagar algo a partir do momento em que esse algo \u00e9 distribu\u00eddo atrav\u00e9s da Internet.<\/p>\n<p>Este sistema de superdistribui\u00e7\u00e3o tornou-se o pilar da nossa economia e riqueza. A reprodu\u00e7\u00e3o imediata de dados, ideias e media sust\u00e9m todos os principais sectores econ\u00f3micos da nossa economia, em especial aqueles relacionados com as exporta\u00e7\u00f5es &#8211; isto \u00e9, aquelas ind\u00fastrias onde os EUA possuem uma vantagem competitiva. A nossa riqueza assenta num enorme dispositivo que est\u00e1 constantemente a copiar de uma forma promiscua.<\/p>\n<p>Contudo, a era anterior de riqueza da nossa economia baseou-se na venda de c\u00f3pias preciosas pelo que o livre fluxo de c\u00f3pias gr\u00e1tis tende a p\u00f4r em causa a ordem estabelecida. Se as reprodu\u00e7\u00f5es dos nossos melhores esfor\u00e7os s\u00e3o gr\u00e1tis, como \u00e9 que podemos continuar como at\u00e9 aqui? Simplificando, como \u00e9 que ganhamos dinheiro com a venda de c\u00f3pias gr\u00e1tis?<\/p>\n<p>Eu tenho uma resposta. A maneira mais simples que eu tenho de a explicar \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p>Quando as c\u00f3pias s\u00e3o superabundantes, elas perdem todo o seu valor. Quando as c\u00f3pias s\u00e3o superabundantes, aquilo que n\u00e3o pode ser copiado torna-se escasso e valioso. Quando as c\u00f3pias s\u00e3o gr\u00e1tis, precisamos de vender aquilo que n\u00e3o pode ser copiado.<\/p>\n<p>Bem, ent\u00e3o o que \u00e9 que n\u00e3o pode ser copiado?<\/p>\n<p>Existem uma s\u00e9rie de qualidades que n\u00e3o podem ser copiadas.<br \/>A \u201cConfian\u00e7a\u201d, por exemplo. A confian\u00e7a n\u00e3o pode ser copiada. N\u00e3o se pode compr\u00e1-la. Precisa de ser conquistada ao longo do tempo. N\u00e3o pode ser descarregada. Ou falsificada. Ou contrafacturada (pelo menos por enquanto). Se tudo o resto vale o mesmo, iremos sempre preferir lidar com algu\u00e9m em quem possamos confiar. Da\u00ed que a confian\u00e7a seja um bem intang\u00edvel que possui um valor crescente num mundo abundante de c\u00f3pias.<\/p>\n<p>H\u00e1 um n\u00famero de outras qualidades semelhantes \u00e0 confian\u00e7a que s\u00e3o d\u00edf\u00edceis de copiar, tornando-se por isso valiosas neste economia em rede. Penso que a melhor forma de analis\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 a partir do ponto de vista do produtor, fabricante ou criador, mas sim do utilizador. Podemos come\u00e7ar por colocar uma quest\u00e3o simples ao utilizador:<\/p>\n<p>porque \u00e9 que pagar\u00edamos por algo que podemos obter de gra\u00e7a? Quando algu\u00e9m compra uma vers\u00e3o de algo que poderia obter de gra\u00e7a, o que \u00e9 que est\u00e1 a adquirir?<\/p>\n<p>Partindo da minha an\u00e1lise da economia em rede, identifico oito categorias de valor intang\u00edvel que adquirimos quando pagamos por algo que poderia ser gr\u00e1tis.<\/p>\n<p>Estas oito coisas s\u00e3o, de uma forma bem real, melhores do que aquilo que \u00e9 gr\u00e1tis. Eu dei-lhe o nome de \u201cgerativos\u201d. Um valor gerativo \u00e9 uma qualidade ou atributo que deve ser gerado, desenvolvido, cultivado, sustentado. Uma coisa gerativa n\u00e3o pode ser copiada, clonada, falsificada, replicada, contrafacturada ou reproduzida. Ela \u00e9 gerada de um modo \u00fanico, num determinado local, ao longo do tempo. No sector digital, as qualidades gerativas acrescentam valor \u00e0s c\u00f3pias gr\u00e1tis, sendo por isso algo que pode ser vendido.<\/p>\n<p>Oito gerativos melhores que gr\u00e1tis<\/p>\n<p>Imediatez &#8211; Mais tarde ou mais cedo iremos acabar por encontrar uma c\u00f3pia gr\u00e1tis do quer que pretendamos, mas receber uma c\u00f3pia na nossa caixa de novas mensagens imediatamente logo no momento em que ela \u00e9 lan\u00e7ada &#8211; ou ainda melhor, produzida &#8211; pelos seus criadores \u00e9 um bem gerativo. Muitas pessoas v\u00e3o ao cinema ver filmes na noite de estreia, apesar de terem que pagar um pre\u00e7o substancial por um filme que ir\u00e1 estar posteriormente dispon\u00edvel de gra\u00e7a, ou quase de gra\u00e7a, para aluguer ou download.<br \/>Os livros de capa dura custam mais devido \u00e0 sua imediatez, sob o disfarce da capa dura. Se queremos ser os primeiros a ser atendidos temos que pagar mais pelo mesmo produto. Enquanto qualidade comerci\u00e1vel, a imediatez possui v\u00e1rios n\u00edvel, incluindo o acesso a vers\u00f5es beta.<br \/>Os f\u00e3s s\u00e3o deste modo incorporados no pr\u00f3prio processo gerativo. As vers\u00f5es beta s\u00e3o frequentemente desvalorizadas porque s\u00e3o incompletas, mas elas tamb\u00e9m possuem qualidades gerativas que podem ser comercializadas.<br \/>A imediatez \u00e9 um termo relativo e \u00e9 por isso que ela \u00e9 um gerativo. Tem que se adequar ao produto e \u00e0 audi\u00eancia. Um blog possui uma no\u00e7\u00e3o diferente de tempo da de um filme ou de um carro. Mas a imediatez pode ser encontrada em qualquer suporte.<\/p>\n<p>Personaliza\u00e7\u00e3o &#8211; Uma vers\u00e3o gen\u00e9rica de uma grava\u00e7\u00e3o de um concerto pode ser gr\u00e1tis mas se pretendemos uma c\u00f3pia que foi ajustada de modo a soar perfeitamente na nossa sala de estar &#8211; como se a banda tivesse a actuar na nossa sala &#8211; poderemos estar dispostos a pagar uma enormidade.<br \/>Uma edi\u00e7\u00e3o da c\u00f3pia gr\u00e1tis de um livro pode ser personalizada pelos editores de modo a ter em linha de conta os teus h\u00e1bitos de leitura. Podemos pagar por um filme gr\u00e1tis se ele for montado tendo em conta a classifica\u00e7\u00e3o et\u00e1ria que pretendamos (sem cenas de viol\u00eancia mas inclus\u00e3o de linguagem obscena).<br \/>A aspirina \u00e9 gr\u00e1tis, mas a aspirina concebida \u00e0 medida do nosso ADN \u00e9 muito cara. Como muitos j\u00e1 fizeram quest\u00e3o de salientar, a personaliza\u00e7\u00e3o exige um di\u00e1logo permanente entre o criador e o consumidor, artista e f\u00e3, produtor e utilizador. \u00c9 bastante gerativa porque \u00e9 bastante repetitiva e exige tempo. N\u00e3o se pode copiar a personaliza\u00e7\u00e3o que uma rela\u00e7\u00e3o representa.<br \/>Os marketers chamam a isso de \u201cstickyness\u201d &#8211; qualidade daquilo que \u00e9 sticky, isto \u00e9, pegajoso &#8211; porque significa que ambos os lados da rela\u00e7\u00e3o est\u00e3o colados (participam) neste bem gerativo e n\u00e3o aceitar\u00e3o de bom grado qualquer mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o que os obrigue a come\u00e7ar de novo.<\/p>\n<p>Interpreta\u00e7\u00e3o &#8211; Existe uma velha piada que diz: \u201co software \u00e9 gr\u00e1tis. O manual custa 10 mil d\u00f3lares.\u201d S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 piada nenhuma. Algumas grandes empresas como Red Hat, Apache e outras ganham dinheiro a fazer exactamente isso. Elas prestam suporte a software gr\u00e1tis mediante pagamento.<br \/>A c\u00f3pia do c\u00f3digo \u00e9 gr\u00e1tis, uma vez que se trata de um mero conjunto de bits que apenas se tornam valiosos para n\u00f3s com o suporte e a orienta\u00e7\u00e3o de outrem. Suspeito que muita da informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica acabe por seguir este mesmo caminho. Neste momento \u00e9 demasiado caro obter uma c\u00f3pia do nosso ADN mas dentro em breve deixar\u00e1 de o ser. Ali\u00e1s, dentro em breve as companhias farmac\u00eauticas ir\u00e3o PAGAR-NOS para ter acesso \u00e0 nossa sequ\u00eancia de genes. Deste modo, a c\u00f3pia da nossa sequ\u00eancia ser\u00e1 gr\u00e1tis, mas a interpreta\u00e7\u00e3o daquilo que ela significa, o que podemos fazer com ela e como a podemos usar &#8211; o manual dos nosso genes, por assim dizer &#8211; ser\u00e1 cara.<\/p>\n<p>Autenticidade &#8211; Poderemos ter acesso gr\u00e1tis a uma aplica\u00e7\u00e3o de software essencial, mas mesmo que n\u00e3o precisemos de um manual, poderemos querer saber se ela n\u00e3o cont\u00e9m bugs, \u00e9 robusta e possui garantia. Iremos pagar pela autenticidade.<br \/>Existe um n\u00famero quase infinito de varia\u00e7\u00f5es de improvisa\u00e7\u00f5es dos Grateful Dead em circula\u00e7\u00e3o; mas se comprarmos uma vers\u00e3o autenticada \u00e0 pr\u00f3pria banda iremos ter a certeza de que estamos a receber aquela que quer\u00edamos. Ou que foi de facto interpretada pelos Grateful Dead.<br \/>Os artistas lidam com este problema desde h\u00e1 muito. Reprodu\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas como fotografias ou litografias v\u00eaem frequentemente com o selo de autenticidade do artista &#8211; uma assinatura &#8211; de forma a aumentar o pre\u00e7o da c\u00f3pia. As marcas de \u00e1gua digitais e outras tecnologias de certifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o ir\u00e3o funcionar como esquemas de protec\u00e7\u00e3o contra a c\u00f3pia (uma vez que as c\u00f3pias s\u00e3o l\u00edquidos supercondutores) mas podem conceder uma qualidade gerativa de autenticidade \u00e0queles que se importam com isso.<\/p>\n<p>Acessibilidade &#8211; Em muitas ocasi\u00f5es a propriedade pode ser um defeito. Obriga-nos a manter as coisas arrumadas, actualizadas e, no caso de material digital, guardadas num local seguro. E neste mundo em movimento, somos obrigados a transport\u00e1-la connosco. Muitas pessoas, eu inclusive, v\u00e3o ficar muito aliviadas quando surgirem empresas especializadas na manuten\u00e7\u00e3o dos nossos \u201cpertences\u201d atrav\u00e9s de um sistema de subscri\u00e7\u00e3o. Iremos pagar ao Armaz\u00e9m Digital Acme para que ele nos forne\u00e7a qualquer m\u00fasica do mundo, quando e onde a quisermos, bem como qualquer filme, fotografia (tirada por n\u00f3s ou por outros fot\u00f3grafos). O mesmo para livros e blogs. O Acme ir\u00e1 guardar tudo num local seguro e pagar\u00e1 aos criadores, entregando-nos no final os nossos pedidos. N\u00f3s vamos poder receber os conte\u00fados nos nossos telem\u00f3veis, PDAs, laptops, desktops ou onde quer quer que seja. Uma vez que grande parte deste material ir\u00e1 estar dispon\u00edvel de gra\u00e7a, \u00e0 medida que o tempo for passando ser\u00e1 cada vez menos sedutor ter que o tratar, guardar, actualizar e organizar.<\/p>\n<p>Corporalidade &#8211; Na sua ess\u00eancia, a c\u00f3pia digital \u00e9 incorp\u00f3rea. Podemos agarrar numa c\u00f3pia gr\u00e1tis de uma obra e pass\u00e1-la para um ecr\u00e3. Mas talvez queiramos visualiz\u00e1-la em alta resolu\u00e7\u00e3o num ecr\u00e3 de grandes dimens\u00f5es. Ou talvez estejamos interessados em v\u00ea-la a tr\u00eas dimens\u00f5es. Os PDFs s\u00e3o servem, mas por vezes \u00e9 absolutamente fascinante ver as mesmas palavras impressas num papel branco suave e brilhante, com encaderna\u00e7\u00e3o em pele. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel. E que tal explorarmos o nosso jogo favorito (gr\u00e1tis) juntamente com outros 35 na mesma sala? N\u00e3o existem limites a uma maior corporalidade. \u00c9 \u00f3bvio que a alta defini\u00e7\u00e3o dos dias de hoje &#8211; que atrai muitas pessoas \u00e0s maiores salas de cinema &#8211; poder\u00e1 chegar ao nosso home theater j\u00e1 amanh\u00e3, mas haver\u00e1 sempre uma s\u00e9rie de tecnologias de imagem a que os consumidores n\u00e3o ter\u00e3o acesso. Projec\u00e7\u00e3o a laser, monitores hologr\u00e1ficos, o pr\u00f3prio holodeck! E nada se torna t\u00e3o corp\u00f3reo quanto a m\u00fasica durante uma actua\u00e7\u00e3o ao vivo, com corpos reais. A m\u00fasica \u00e9 gr\u00e1tis &#8211; o concerto f\u00edsico dispendioso. Esta f\u00f3rmula est\u00e1 a ser adoptada por um n\u00famero cada vez maior n\u00e3o s\u00f3 de m\u00fasicos, como de autores. O livro \u00e9 gr\u00e1tis. A comunica\u00e7\u00e3o corporal \u00e9 dispendiosa.<\/p>\n<p>Mecenato &#8211; Acredito sinceramente que as audi\u00eancias QUEREM pagar aos criadores. Os f\u00e3s gostam de recompensar os artistas, m\u00fasicos e autores com algo que representa o apre\u00e7o pelo seu trabalho, porque isso lhes permite estabelecer rela\u00e7\u00f5es com eles. Mas eles apenas ir\u00e3o pagar se for muito f\u00e1cil de o fazer, se se tratar de uma quantia razo\u00e1vel e se eles se sentirem seguros de que o dinheiro ir\u00e1 beneficiar directamente os criadores. A experi\u00eancia recente dos Radiohead em permitir que os f\u00e3s pagassem a quantia que desejassem por uma c\u00f3pia gr\u00e1tis \u00e9 um exemplo excelente do poder do patroc\u00ednio. A rela\u00e7\u00e3o intang\u00edvel e esquiva que flui entre os f\u00e3s e o artista vale algo. No caso dos Radiohead, foi cerca de cinco d\u00f3lares por download. Existem muitos outros exemplos em que a audi\u00eancia paga apenas porque lhe faz sentir bem.<\/p>\n<p>Encontrabilidade &#8211; Se as qualidades gerativas anteriores se encontram dentro das pr\u00f3prias obras criativas digitais, a encontrabilidade \u00e9 um bem que ocorre a um n\u00edvel mais elevado, no valor agregado de muitas obras. Um custo zero n\u00e3o ajuda a canalizar a aten\u00e7\u00e3o para uma obra e pode na verdade acabar por fazer desvi\u00e1-la. Mas n\u00e3o obstante o seu pre\u00e7o, uma obra n\u00e3o possui valor se n\u00e3o \u00e9 vista; as obras primas que n\u00e3o foram encontradas n\u00e3o valem nada. Quando existem milh\u00f5es de livros, milh\u00f5es de m\u00fasicas, milh\u00f5es de filmes, milh\u00f5es de aplica\u00e7\u00f5es, milh\u00f5es de tudo e mais alguma coisa que exige a nossa aten\u00e7\u00e3o &#8211; sendo a maioria gr\u00e1tis &#8211; a capacidade de ser encontrado \u00e9 valiosa.<br \/>Enormes agregadores como a Amazon e a Netflix ganham parte do seu dinheiro ajudando a audi\u00eancia a encontrar as obras que ela aprecia. Eles s\u00e3o o melhor exemplo do fen\u00f3meno da \u201ccauda longa\u201d que, como todos sabemos, aproxima as audi\u00eancias de nicho das produ\u00e7\u00f5es de nicho.<br \/>Mas infelizmente a cauda longa beneficia apenas os maiores agregadores e os agregadores de m\u00e9dia dimens\u00e3o como as editoras de livros, est\u00fadios de cinema e companhias discogr\u00e1ficas. A \u201ccauda longa\u201d n\u00e3o serve de muito para os pr\u00f3prios criadores.<br \/>Mas os criadores precisam de agregadores, dado que a encontrabilidade apenas pode de facto ocorrer ao n\u00edvel dos sistemas. \u00c9 por isso que as editoras de livros, est\u00fadios de cinema e companhias discogr\u00e1ficas (PSL &#8211; publishers, studios and labels) nunca ir\u00e3o desaparecer. Eles n\u00e3o s\u00e3o precisos para a distribui\u00e7\u00e3o das c\u00f3pias (a maquinaria da internet faz isso) mas sim para a distribui\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o dos utilizadores por entre as obras. Os PSL encontram, sustentam e rev\u00eam o trabalho dos criadores que eles consideram ser mais capazes de dizer algo com que os f\u00e3s se possam relacionar. Outros intermedi\u00e1rios &#8211; os cr\u00edticos. por exemplo &#8211; tamb\u00e9m canalizam aten\u00e7\u00e3o.<br \/>Os f\u00e3s dependem deste dispositivo de encontrabilidade composto por v\u00e1rios n\u00edveis para descobrirem as obras que valem a pena a partir daquele n\u00famero infind\u00e1vel das que s\u00e3o produzidas. H\u00e1 dinheiro a ganhar (em termos indirectos para os criativos) com a descoberta de talento. Durante muitos anos a publica\u00e7\u00e3o impressa TV Guide gerou mais dinheiro do que todas as tr\u00eas grandes cadeias de televisi\u00e3o juntas e cuja programa\u00e7\u00e3o editava. A revista orientava os telespectadores e apontava-lhes os programas interessantes que iriam passar naquela semana na televis\u00e3o. Programas que, vale a pena salientar, eram gr\u00e1tis para os telespectadores. N\u00e3o existem grandes d\u00favidas de que no mundo do gr\u00e1tis tanto os mega-agregadores como os v\u00e1rios PDLs ir\u00e3o ganhar dinheiro comercializando encontrabilidade &#8211; para al\u00e9m das outras qualidades gerativas.<\/p>\n<p>Estas oito qualidades requerem um novo conjunto de compet\u00eancias. O sucesso no mundo das c\u00f3pias gr\u00e1tis n\u00e3o resulta das compet\u00eancias ligadas \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o dado que a Grande Copiadora que Est\u00e1 no C\u00e9u toma conta disso. Do mesmo modo, tamb\u00e9m as compet\u00eancias legais relacionadas com a Propriedade Intelectual e o Copyright j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o muito \u00fateis.<\/p>\n<p>O mesmo se pode dizer a respeito das compet\u00eancias relacionadas com a acumula\u00e7\u00e3o e a escassez. Em alternativa, estes oito novos gerativos exigem uma compreens\u00e3o do modo como a abund\u00e2ncia gera uma mentalidade de partilha, como a generosidade \u00e9 um modelo de neg\u00f3cio, da import\u00e2ncia crescente da promo\u00e7\u00e3o e do est\u00edmulo de qualidades que n\u00e3o podem ser replicadas com um clique de um rato.<br \/>Em suma, nesta economia em rede o dinheiro n\u00e3o segue o percurso das c\u00f3pias mas sim o da aten\u00e7\u00e3o e a aten\u00e7\u00e3o possui os seus pr\u00f3prios caminhos.<\/p>\n<p>Os leitores mais atentos dever\u00e3o ter reparado uma aus\u00eancia not\u00f3ria at\u00e9 aqui. Eu n\u00e3o disse nada a respeito da publicidade.<\/p>\n<p>Os an\u00fancios s\u00e3o vistos por muitos como a solu\u00e7\u00e3o, quase a \u00daNICA solu\u00e7\u00e3o, para o paradoxo do gr\u00e1tis. A maioria das solu\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas para resolver o problema do gr\u00e1tis que eu vi at\u00e9 agora envolvem algum tipo de publicidade. Penso que os an\u00fancios s\u00e3o apenas uma das vias que a aten\u00e7\u00e3o percorre e que a longo prazo eles ser\u00e3o apenas uma parte das novas formas de ganhar dinheiro com a venda gr\u00e1tis de algo.<br \/>Mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Situados debaixo da camada de publicidade fr\u00edvola, estes oito gerativos ir\u00e3o fornecer valor \u00e0s c\u00f3pias gr\u00e1tis ub\u00edquas e transform\u00e1-las em algo que vale a pena anunciar. Estes gerativos aplicam-se n\u00e3o s\u00f3 a todas as c\u00f3pias digitais mas tamb\u00e9m a todo o tipo de c\u00f3pia em que o custo marginal dessa c\u00f3pia se est\u00e1 a aproximar do zero (leiam o meu ensaio A Tecnologia Quer Ser Livre &#8211; Technology Wants to be Free). At\u00e9 mesmo as ind\u00fastrias materiais est\u00e3o a descobrir que os seus custos de duplica\u00e7\u00e3o est\u00e3o a descer para o zero &#8211; de modo que elas tamb\u00e9m ser\u00e3o obrigadas a encarar os seus produtos como se tratando de c\u00f3pias digitais.<\/p>\n<p>Os mapas j\u00e1 atravessaram esse limiar. A engenharia gen\u00e9tica est\u00e1 quase l\u00e1 a chegar. Os gadgets e pequenos dispositivos (como os telem\u00f3veis) est\u00e3o a deslizar nessa direc\u00e7\u00e3o. A ind\u00fastria farmac\u00eautica j\u00e1 chegou a esse ponto mas n\u00e3o quer que ningu\u00e9m o saiba. N\u00e3o custa absolutamente nada fabricar um comprimido. N\u00f3s pagamos pela Autenticidade e Imediaticidade que os medicamentos nos oferecem. Um dia pagaremos pela Personaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>Assegurar a continuidade desses gerativos d\u00e1 muito mais trabalho do que duplicar c\u00f3pias numa f\u00e1brica. Existe ainda muito a aprender. Muito a compreender.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=43\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto abaixo \u00e9 do ex-editor da revista wired, Kevin Kelly, e eu peguei no Diginois do Lucas Santana que por sua vez havia copiado do Trabalho Sujo do Alexandre Matias. Ele foi traduzido para o portugu\u00eas pelo Miguel Caetano no seu site Remixtures.Melhor que gratis- Kevin KellyA internet \u00e9 uma copiadora. 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