{"id":3564,"date":"2015-03-09T02:46:06","date_gmt":"2015-03-09T02:46:06","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=3564"},"modified":"2015-03-09T02:52:37","modified_gmt":"2015-03-09T02:52:37","slug":"luiz-camillo-osorio-comenta-relacoes-entre-arte-politica-e-mercado-por-marcos-augusto-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3564","title":{"rendered":"Luiz Camillo Osorio comenta rela\u00e7\u00f5es entre arte, pol\u00edtica e mercado, por Marcos Augusto Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"<p>08\/03\/2015 la no caderno ILUSTRISSIMA da Folha SPaulo<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/antonio_manuel.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3565\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/antonio_manuel.jpg\" alt=\"antonio_manuel\" width=\"635\" height=\"759\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/antonio_manuel.jpg 635w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/antonio_manuel-251x300.jpg 251w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/antonio_manuel-600x717.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 635px) 100vw, 635px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Curador da representa\u00e7\u00e3o brasileira na pr\u00f3xima Bienal de Veneza, ao lado de Cau\u00ea Alves, Luiz Camillo Osorio fala sobre os crit\u00e9rios adotados e trata de outros temas da arte contempor\u00e2nea. Ele diz acreditar que as rela\u00e7\u00f5es da arte com a pol\u00edtica s\u00e3o hist\u00f3ricas e inevit\u00e1veis, embora, por si, n\u00e3o sejam garantia de qualidade.<br \/>\n*H\u00e1 seis anos \u00e0 frente do Museu de Arte Moderna do Rio, o carioca Luiz Camillo Osorio \u00e9 o respons\u00e1vel, ao lado do paulista Cau\u00ea Alves, pela curadoria do pavilh\u00e3o brasileiro da pr\u00f3xima Bienal de Veneza, que abre suas portas no dia 9 de maio. A dupla indicou para representar o pa\u00eds um trio formado pelo veterano Antonio Manuel e dois nomes promissores da arte contempor\u00e2nea, Berna Reale e Andr\u00e9 Komatsu. A obra de Manuel engendrou-se no ambiente de alta voltagem cultural e pol\u00edtica das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, quando uma gera\u00e7\u00e3o de artistas se viu diante da urg\u00eancia de adotar estrat\u00e9gias de engajamento e contesta\u00e7\u00e3o que preservassem a pot\u00eancia e a intensidade est\u00e9tica de seus trabalhos. Em di\u00e1logo com essa cena antecedente, Osorio considera que as obras de Reale e Komatsu, cujas trajet\u00f3rias despontam neste s\u00e9culo, &#8220;se precipitam no mundo e n\u00e3o temem a contamina\u00e7\u00e3o com a realidade bruta&#8221;.<br \/>\nDoutor em filosofia e professor da PUC-Rio, o curador fez parte do conselho do MAM paulista e \u00e9 autor de in\u00fameros ensaios e textos cr\u00edticos, al\u00e9m de livros sobre artistas como Fl\u00e1vio de Carvalho e Abraham Palatnik. Em entrevista \u00e0 Folha, ele fala sobre as escolhas para Veneza, a politiza\u00e7\u00e3o da arte, o estatuto da cr\u00edtica e os desafios enfrentados pelos museus e institui\u00e7\u00f5es no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Folha &#8211; Voc\u00ea pode comentar os crit\u00e9rios das escolhas para a representa\u00e7\u00e3o brasileira na pr\u00f3xima Bienal de Veneza?<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Luiz Camillo Osorio<\/strong> &#8211; O primeiro crit\u00e9rio, subjetivo mas relevante, \u00e9 que tanto eu como o Cau\u00ea gostamos muito das obras desses tr\u00eas artistas que escolhemos e temos a convic\u00e7\u00e3o de que far\u00e3o um pavilh\u00e3o potente. \u00c9 bom frisar que n\u00e3o foi nada f\u00e1cil fazer a escolha. Tem muito artista interessante e o espa\u00e7o de Veneza \u00e9 pequeno. Decidimos de in\u00edcio que quer\u00edamos levar um artista j\u00e1 com carreira consolidada e um ou dois outros, mais jovens, de trajet\u00f3ria recente, que pudessem dialogar com ele constituindo uma \u00fanica exposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o duas ou tr\u00eas individuais. O nome do Antonio Manuel veio primeiro.<br \/>\nUm artista indiscut\u00edvel, cujo engajamento pol\u00edtico e qualidade art\u00edstica se mantiveram ao longo dos anos sem nunca cair no ilustrativo. H\u00e1 em sua po\u00e9tica uma articula\u00e7\u00e3o bastante interessante entre corpo e forma ou entre precariedade e rigor.<br \/>\nDo &#8220;Corpobra&#8221; (1970) aos muros (&#8220;Ocupa\u00e7\u00f5es\/Descobrimentos&#8221;, 1998) h\u00e1 uma urg\u00eancia latente que projeta o corpo e rompe com os limites dados. Essa mesma urg\u00eancia, a mesma precariedade e a mesma concretude est\u00e3o presentes, de modos muito distintos, \u00e9 claro, em Berna Reale e Andr\u00e9 Komatsu. S\u00e3o dois artistas cujas obras se precipitam no mundo e n\u00e3o temem a contamina\u00e7\u00e3o com a realidade bruta.<br \/>\nNas duas primeiras salas teremos o filme &#8220;Semi-\u00f3tica&#8221;, do Antonio Manuel (1975), de frente com o v\u00eddeo &#8220;Americano&#8221; (2013), da Berna. Com quase 40 anos entre eles, \u00e9 um mesmo Brasil dos desvalidos que eles revelam e enfrentam e o fazem de modo po\u00e9tico, pondo-se em risco, experimentando com a linguagem e com o pr\u00f3prio corpo. Nas outras duas salas, teremos &#8220;muros&#8221; do Antonio Manuel com uma instala\u00e7\u00e3o menor -&#8220;Nave&#8221;-, realizada no ano passado no MAM-Rio, em que proje\u00e7\u00f5es s\u00e3o desfocadas com uma \u00e1gua que pinga incessantemente dentro de um cub\u00edculo feito de portas. Em frente teremos uma instala\u00e7\u00e3o do Komatsu, &#8220;Status Quo&#8221;, que ser\u00e1 montada pela primeira vez com cercas de arame que comprimem o corpo do visitante. Como diz o t\u00edtulo escolhido para o pavilh\u00e3o: &#8220;\u00c9 Tanta Coisa que N\u00e3o Cabe Aqui&#8221;. A frase, ali\u00e1s, foi apropriada de um dos milhares de cartazes que invadiram as ruas brasileiras nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013.<br \/>\nA arte contempor\u00e2nea parece premida por uma certa vontade de &#8220;participar&#8221;, de &#8220;intervir no mundo&#8221;, de se mostrar &#8220;consciente e pol\u00edtica&#8221;. Os resultados n\u00e3o raro s\u00e3o desastrosos. Estamos vivendo uma \u00e9poca de politizac\u00e3o exacerbada, e muitas vezes ineficaz, produzida para bienais e curadores?<br \/>\nEu diria que essa &#8220;vontade de participar, de intervir no mundo, de se mostrar consciente e pol\u00edtica&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 da arte contempor\u00e2nea, mas de todos n\u00f3s que vivemos em um mundo, no m\u00ednimo, inquietante. A arte n\u00e3o poderia ficar de fora. O que vem se passando no mundo -1989, 2001, 2008, 2012 e aqui 2013, para falar s\u00f3 de datas recent\u00edssimas- leva qualquer um a buscar algum tipo de envolvimento com a realidade. Isso tampouco \u00e9 novo na arte: a arte nos anos 1920\/30 e depois nos anos 1960\/70 tamb\u00e9m foi extremamente politizada. Muitas obras ficaram datadas e outras est\u00e3o entre as mais relevantes no s\u00e9culo 20.<br \/>\n\u00c9 claro que a dimens\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 garantia alguma de boa arte e que h\u00e1 artistas que produzem grandes obras sem qualquer interesse em pol\u00edtica. A pol\u00edtica da arte n\u00e3o passa, necessariamente, pela inten\u00e7\u00e3o do artista. Os resultados frequentemente desastrosos a que voc\u00ea se refere n\u00e3o me parecem ter a ver com isso, com a vontade pol\u00edtica, mas sim com a quantidade superlativa de exposi\u00e7\u00f5es, galerias, museus, centros culturais, bienais, feiras e mais feiras. A quantidade n\u00e3o \u00e9 inimiga da qualidade, todavia a qualidade \u00e9 sempre rara. A inefic\u00e1cia \u00e9 algo a ser matizado nesse contexto. A temporalidade da arte \u00e9 diferente da pol\u00edtica e ela atua abrindo novas formas de perceber, falar e compreender a realidade. Ela opera neste registro virtual em que a linguagem e a subjetividade se reinventam na configura\u00e7\u00e3o de novas possibilidades de ser que n\u00e3o necessariamente se atualizam no presente. Neste aspecto, a imagina\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 algo da maior relev\u00e2ncia.<br \/>\nComo diziam os rom\u00e2nticos, \u00e9 a rainha das faculdades. A arte e a imagina\u00e7\u00e3o est\u00e3o sempre irmanadas. E a arte \u00e9 pol\u00edtica justamente nos fazendo imaginar outros mundos poss\u00edveis, nos fazendo desnaturalizar aquilo que a ideologia dominante cristaliza, nos viabilizando outras formas de vida.<\/p>\n<p><strong>Grande parte da cr\u00edtica de arte migrou para a curadoria. Como voc\u00ea v\u00ea o estatuto da cr\u00edtica hoje, seja a da imprensa, das revistas especializadas e da academia?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um problema complicado. A cr\u00edtica na imprensa retraiu-se, principalmente em fun\u00e7\u00e3o da retra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria imprensa. Ter um jornal no Rio e dois em S\u00e3o Paulo mostra que o jornal impresso tem um campo de a\u00e7\u00e3o reduzido.<br \/>\nQuando o S\u00e1bato Magaldi fazia cr\u00edtica de teatro no Rio, em 1950, havia mais de dez jornais na cidade e, naquele ano, ele fez quase uma cr\u00edtica por dia, sendo que alguns espet\u00e1culos recebiam cr\u00edtica ao longo de v\u00e1rios dias seguidos, analisando m\u00faltiplos aspectos da mesma pe\u00e7a. At\u00e9 no dia seguinte a final da Copa, entre Brasil e Uruguai, saiu uma cr\u00edtica dele! Ou seja, o jornal cumpria um papel na forma\u00e7\u00e3o de um debate p\u00fablico. Hoje os tr\u00eas jornais principais mant\u00eam suas colunas de cr\u00edtica, com profissionais da maior compet\u00eancia, mas ela acontece apenas uma vez por semana e tem um lugar meio lateral nos cadernos de cultura. Suplementos como a &#8220;Ilustr\u00edssima&#8221; resistem heroicamente, mas gostaria de saber com que reverbera\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nInfelizmente, estamos premidos pelos afazeres e as pessoas n\u00e3o disp\u00f5em de tempo para parar e ler algo mais reflexivo. A cr\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o do entretenimento, mas da arte, do que nela \u00e9 pensamento e complexidade, ou seja, com a dimens\u00e3o cr\u00edtica da obra e de sua inser\u00e7\u00e3o no circuito. Somos cotidianamente for\u00e7ados a saber de mil coisas in\u00fateis e desestimulados a problematizar o que se apresenta. E isso s\u00f3 serve \u00e0 m\u00e1quina do consumo e \u00e0 ang\u00fastia.<br \/>\nQuanto \u00e0 cr\u00edtica ter migrado para a curadoria, pode ser um aspecto interessante, n\u00e3o vejo problema nisso, \u00e9 como se a cr\u00edtica passasse a pensar espacialmente e n\u00e3o verbalmente. As exposi\u00e7\u00f5es de arte est\u00e3o dentro de um circuito complicado, cheio de armadilhas, misturando entretenimento e um mercado poderoso com uma pretens\u00e3o reflexiva e cr\u00edtica constante da arte, com refer\u00eancias filos\u00f3ficas, antropol\u00f3gicas, cient\u00edficas, tudo ao mesmo tempo.<br \/>\nPodemos ler isso como apelativo, como algo arbitr\u00e1rio e pern\u00f3stico a servi\u00e7o de um circuito comercial dominante, mas tamb\u00e9m podemos olhar os museus e as bienais como lugares institucionais que buscam se redefinir, procurando oferecer ao p\u00fablico experi\u00eancias n\u00e3o convencionais que nos obriguem a parar para lidar com o n\u00e3o evidente, aquilo que o [cr\u00edtico de arte americano] Harold Rosenberg (1906-78) chamava de objeto ansioso.<br \/>\nEu tenho o maior apre\u00e7o por museus, pelos encontros que podem acontecer ali com coisas inesperadas e pela viv\u00eancia sempre desnorteante de uma experi\u00eancia est\u00e9tica. H\u00e1 que se dar este tempo e esta oportunidade a qualquer um que se disponha.<br \/>\nJ\u00e1 a cr\u00edtica universit\u00e1ria tem seu circuito pr\u00f3prio, segue produzindo um material interessante, apesar das press\u00f5es absurdas do sistema acad\u00eamico. Entretanto, ela sofre de um certo isolamento, obrigando o te\u00f3rico e cr\u00edtico a ter uma atua\u00e7\u00e3o combinada com museus e outras institui\u00e7\u00f5es culturais e art\u00edsticas. \u00c9 o meu caso, por exemplo, como de muitos outros.<br \/>\nEu sou da universidade, professor da PUC, e estou atuando como curador no MAM. Outro aspecto que acho que s\u00f3 tende a crescer \u00e9 a cr\u00edtica no espa\u00e7o virtual, nos blogs e sites. \u00c9 natural que haja esse crescimento e que nichos se produzam a partir da\u00ed. O espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 se redefinindo e se fragmentando a partir dessa media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os desafios das institui\u00e7\u00f5es de arte no Brasil? Como poderiam se tornar mais sustent\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p>O principal desafio \u00e9 encontrar sua pr\u00f3pria forma de atua\u00e7\u00e3o. Acho irrealista querermos ser MoMA ou Tate. Temos que ser mais preocupados com a sustentabilidade dos processos, ao mesmo tempo que devemos ter em mente o tipo de atua\u00e7\u00e3o que o museu ou centro cultural deve ter em cada caso. Acho que as coisas est\u00e3o melhores hoje, vejo com bons olhos as mudan\u00e7as no Masp, por exemplo, que quer encontrar uma forma de governan\u00e7a vi\u00e1vel e que esteja \u00e0 altura daquela cole\u00e7\u00e3o. O MAR, no Rio, tamb\u00e9m procura criar a sua especificidade institucional e o IMS mostra que uma institui\u00e7\u00e3o privada com acervo e uma programa\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel ligada a uma empresa ou a um banco pode funcionar sem lei de incentivo.<br \/>\nO mercado de arte est\u00e1 inflacionando os valores de circula\u00e7\u00e3o de obras e de produ\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00f5es, tornando o processo insustent\u00e1vel. Para pedir uma pintura emprestada a qualquer museu, principalmente l\u00e1 fora, paga-se uma fortuna de &#8220;fee&#8221; (taxas), de seguro, de transporte, al\u00e9m do &#8220;courier&#8221;, que muitas vezes quer viajar de classe executiva para a montagem e a desmontagem da mostra. Com dez obras assim, inviabiliza-se uma exposi\u00e7\u00e3o ou ficam os museus \u00e0 merc\u00ea de financiamentos bilion\u00e1rios. Como sair desse impasse? Deve haver uma a\u00e7\u00e3o coordenada pelos museus, criando parcerias e mecanismos de troca entre as institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, \u00e9 um desafio. H\u00e1 que se baratear as coisas, n\u00e3o d\u00e1 para as exposi\u00e7\u00f5es serem or\u00e7adas em R$ 1 milh\u00e3o, R$ 2 milh\u00f5es, e isso ser normal. Baratear n\u00e3o significa piorar a qualidade, n\u00e3o \u00e9 isso, mas racionalizar e coordenar os processos.<\/p>\n<p><strong>Qual o papel da educa\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0 arte? Estamos longe do ideal? Os tais setores &#8220;educativos&#8221; de museus e institui\u00e7\u00f5es funcionam ou s\u00e3o mais para constar?<\/strong><\/p>\n<p>Dizer que a educa\u00e7\u00e3o tem papel fundamental \u00e9 chover no molhado. Ningu\u00e9m diria que n\u00e3o tem. O problema \u00e9 como fazer para qualificar e democratizar ao mesmo tempo. Quando o Brizola (1922-2004) falava de tempo integral nas escolas -com escolas preparadas para turno \u00fanico- era taxado de populista, demagogo e se dizia que n\u00e3o haveria dinheiro para isso. Tem que ter, h\u00e1 que se tirar de algum lugar. H\u00e1 que se fazer um investimento s\u00e9rio em educa\u00e7\u00e3o, nos programas pedag\u00f3gicos e nas escolas p\u00fablicas. Ensino fundamental e ensino m\u00e9dio deveriam estar sendo articulados pelo governo federal, junto com os Estados e munic\u00edpios.<br \/>\nPor outro lado, n\u00e3o d\u00e1 para negar a crise da educa\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo. N\u00e3o podemos fingir que basta comprar uns computadores, botar nas salas de aula e o problema se resolve. \u00c9 preciso encontrar outras e novas formas de educa\u00e7\u00e3o, sem excluir o bom e velho livro e as aulas presenciais como mecanismos de troca e aprendizado coletivo. As crian\u00e7as hoje aprendem nos seus computadores e celulares, eles s\u00e3o aliados, mas h\u00e1 que se ensinar a pesquisar, a pensar junto ao que se pesquisa, h\u00e1 que se ensinar a problematizar os dados e a se admirar com a beleza e a simplicidade.<br \/>\nA arte e a cultura t\u00eam um papel decisivo a\u00ed. Parte do or\u00e7amento dos museus deveria estar integrado ao financiamento da educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma coisa f\u00e1cil. O MAC de Niter\u00f3i, por exemplo, construiu um espa\u00e7o, desenhado pelo Niemeyer, o &#8220;Maquinho&#8221;, para projetos educativos e sociais dentro da comunidade que fica em frente ao museu. Algo inovador e que at\u00e9 hoje sofre de certa incompreens\u00e3o da prefeitura, que n\u00e3o mant\u00e9m a regularidade do financiamento como deveria. Os pontos de cultura criados pelo ministro Gilberto Gil t\u00eam um papel relevante. \u00c9 algo a ser multiplicado, que pode servir como forma de viabilizar o aprendizado e a cria\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o e a arte. N\u00e3o se pode educar sem estimular a cria\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o se pode criar sem uma base de conhecimentos m\u00ednima, sem um quadro de refer\u00eancias que sirva como par\u00e2metro, mesmo que se transformem os par\u00e2metros depois.<br \/>\nOs museus e centros culturais t\u00eam feito sim um trabalho educativo importante, atuando na maior acessibilidade p\u00fablica destes espa\u00e7os, mas n\u00e3o basta fazer visita guiada, \u00e9 preciso estimular o olhar de cada um, fazer cada um ver que nem tudo se mostra de uma vez, que h\u00e1 algo invis\u00edvel, inapreens\u00edvel, intraduz\u00edvel na experi\u00eancia da arte. H\u00e1 que se estimular a contamina\u00e7\u00e3o de olhares diferentes e de formas de di\u00e1logo novas entre obras de arte e de n\u00e3o arte. Este tamb\u00e9m \u00e9 um papel da curadoria.<\/p>\n<p><strong>A arte \u00e9 necessariamente elitista?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma pergunta capciosa. Necessariamente eu diria que n\u00e3o \u00e9, mas h\u00e1 nela uma opacidade que n\u00e3o a torna acess\u00edvel imediatamente. N\u00e3o adianta explicar arte, n\u00e3o h\u00e1 algo que se resolva no \u00e2mbito da explica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 que se dispor a uma rela\u00e7\u00e3o trabalhosa, mas \u00e9 um trabalho prazeroso, estimulante, jamais penoso e chato.<br \/>\nO escritor portugu\u00eas Lobo Antunes faz uma distin\u00e7\u00e3o interessante entre literatura relevante e literatura de entretenimento. Diz que, como as piscinas, tem literatura que d\u00e1 p\u00e9 e outra que exige o esfor\u00e7o do nado para nela ficarmos sem afundar.<br \/>\nA arte sempre exige alguma nata\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode dar p\u00e9. Em suma, se n\u00e3o \u00e9 para todos, \u00e9 para qualquer um que se disponha a ter com ela uma troca criativa.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a produ\u00e7\u00e3o brasileira hoje em rela\u00e7\u00e3o aos principais centros, em termos de qualidade e tamb\u00e9m de valor?<\/strong><\/p>\n<p>Acho, sinceramente, a produ\u00e7\u00e3o brasileira da maior qualidade, n\u00e3o deixa nada a dever a qualquer outro centro. Na verdade, o mundo da arte est\u00e1 completamente globalizado e falar em arte brasileira traz sempre uma pergunta sobre o que seria o brasileiro nesta arte -se tem a ver com passaporte ou pertencimento a um quadro de refer\u00eancia hist\u00f3rico.<br \/>\n\u00c9 interessante como a arte brasileira est\u00e1 influenciando artistas estrangeiros e como h\u00e1 pesquisadores e curadores discutindo arte brasileira. N\u00e3o fico uma semana no MAM sem receber algu\u00e9m de fora interessado na arte brasileira.<br \/>\nVoc\u00ea vai aos principais museus e eles j\u00e1 misturam obras brasileiras em suas exposi\u00e7\u00f5es permanentes. Fora isso, a arte brasileira nos \u00faltimos anos tamb\u00e9m se &#8220;descentralizou&#8221;, aparecendo muitos artistas interessantes fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Peguemos o Jonathas de Andrade, a Berna Reale e o Yuri Firmeza, para falar dos \u00faltimos anos. Cada um vem de um Estado diferente e segue vivendo em cidades do Norte e Nordeste: Recife, Bel\u00e9m e Fortaleza, respectivamente.<br \/>\nDuas institui\u00e7\u00f5es fundamentais surgidas recentemente tamb\u00e9m est\u00e3o fora deste eixo: Inhotim, em Minas, e Funda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo, em Porto Alegre. Isso \u00e9 \u00f3timo para a arte brasileira. Sobre valor de mercado, a\u00ed n\u00e3o tem muito o que discutir -se tem quem pague, tem valor, apesar da instabilidade e da dificuldade de liquidez. A minha sensa\u00e7\u00e3o, entretanto, \u00e9 que os pre\u00e7os est\u00e3o loucos, alt\u00edssimos, insustent\u00e1veis. N\u00e3o s\u00f3 aqui, por toda parte.<\/p>\n<p><strong>MARCOS AUGUSTO GON\u00c7ALVES, 58, \u00e9 editor da &#8220;Ilustr\u00edssima&#8221;, autor de &#8220;P\u00f3s Tudo &#8211; 50 Anos de Cultura na Ilustrada&#8221; (Publifolha) e &#8220;1922 &#8211; A Semana que N\u00e3o Terminou&#8221; (Companhia das Letras).<\/strong><\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3564\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>08\/03\/2015 la no caderno ILUSTRISSIMA da Folha SPaulo Curador da representa\u00e7\u00e3o brasileira na pr\u00f3xima Bienal de Veneza, ao lado de Cau\u00ea Alves, Luiz Camillo Osorio fala sobre os crit\u00e9rios adotados e trata de outros temas da arte contempor\u00e2nea. Ele diz acreditar que as rela\u00e7\u00f5es da arte com a pol\u00edtica s\u00e3o hist\u00f3ricas e inevit\u00e1veis, embora, por &hellip;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3564\" class=\"more-link\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3564"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3564"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3564\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3572,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3564\/revisions\/3572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}