{"id":356,"date":"2009-06-26T17:50:00","date_gmt":"2009-06-26T17:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=356"},"modified":"2009-06-26T17:50:00","modified_gmt":"2009-06-26T17:50:00","slug":"as-palavra-e-as-coiza-parte-i-paranoia-delirante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=356","title":{"rendered":"As palavra e as coiza \u2013 parte I \u2013 paran\u00f3ia delirante"},"content":{"rendered":"<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SkULPScvdZI\/AAAAAAAAB-M\/AvqFhjzP8wA\/s1600-h\/jornal_atual_capa.jpg\"><img style=\"cursor: pointer; width: 364px; height: 400px;\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SkULPScvdZI\/AAAAAAAAB-M\/AvqFhjzP8wA\/s400\/jornal_atual_capa.jpg\" alt=\"\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5351696089478034834\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Texto que o cr\u00edtico de arte e doutor-professor Felipe Scovino escreveu l\u00e1 para o n\u00famero 1 do ATUAL &#8211; o \u00faltimo jornal da terra.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">As palavra e as coiza \u2013 parte I \u2013 paran\u00f3ia delirante<\/span><br \/>H\u00e1 algum tempo virou lugar comum nos ensaios sobre artes visuais identificar certas po\u00e9ticas como uma \u201csimbiose perfeita entre arte e vida\u201d. Durante alguns anos, acreditei e reproduzi esse discurso. Ele cabia perfeitamente dentro das propostas sensoriais, relacionais, ativadoras de pot\u00eancia e participativas de Lygia Clark, Pape e Oiticica. Aproximar uma proposta fenomenol\u00f3gica e sens\u00edvel como os objetos sensoriais de Clark (formados por elementos cotidianos e org\u00e2nicos como \u00e1gua, pl\u00e1stico, conchas, pedras, etc), por exemplo, do discurso da arte era a proposta mais radical, concisa e perfeita encontrada pela hist\u00f3ria da arte. N\u00e3o quero afirmar que as obras dos artistas citados n\u00e3o teriam essa liga\u00e7\u00e3o com a \u201cvida\u201d. A interroga\u00e7\u00e3o que se faz \u00e9 a seguinte: qual objeto ou manifesta\u00e7\u00e3o de arte n\u00e3o teria essa liga\u00e7\u00e3o com o org\u00e2nico, sens\u00edvel, afinal, com a vida?<br \/>Partindo desse princ\u00edpio, que tipo de vida \u00e9 a sua, meu caro? Ou que tipo de vida voc\u00ea quer ver? A cheia de florzinhas, buc\u00f3lica, colorida e ao mesmo tempo ut\u00f3pica? Ou a real, aquela cheia de problemas, paranoias, suja, gradeada, com o som alto das buzinas, luzes desfocadas, mulher gritando, filho berrando, marido b\u00eabado e contas a pagar? Alerto: n\u00e3o sou beatnik nem muito menos punk ou mesmo f\u00e3 dos filmes do Woody Allen ou Jim Jarmusch. S\u00f3 fiquei mais atento ao trabalho do Raul. Conhece a obra do Raul Mour\u00e3o? N\u00e3o!? Por onde voc\u00ea andou entre 1988 e 2009? Pois \u00e9, eu tamb\u00e9m cheguei meio atrasado mas topei com uma grade do cara h\u00e1 alguns anos. Sua s\u00e9rie de trabalhos que tem as grades como suporte e tema dialogam intensamente com o mobili\u00e1rio urbano brasileiro surgido no final d\u00e9cada de 1980 e consequentemente com os sintomas de medo e viol\u00eancia que assolam a popula\u00e7\u00e3o. Estes trabalhos parecem nos perguntar o que fizemos com o nosso espa\u00e7o urbano e o que nos tornamos. Margeando o coment\u00e1rio de que a arte cada vez mais se infiltra na vida e vice-versa, ampliando e tomando novas dire\u00e7\u00f5es apontadas pelo neoconcretismo, sua obra faz parte de um conjunto de trabalhos que aponta uma desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao outro que tem sido cada vez mais freq\u00fcente nos dias atuais. N\u00e3o estamos mais falando de estranhamento ou diferen\u00e7a, mas p\u00e2nico. Atingimos um grau mais elevado nessa (negativa de uma) rela\u00e7\u00e3o humana. Raul, numa conversa, comentou que n\u00e3o procura mostrar exclusivamente o lado escroto da cidade em sua obra. O fato \u00e9 que vivemos num mundo que se torna cada vez mais violento, individualista, insens\u00edvel, cruel e desumano. N\u00e3o sabemos nem queremos nos relacionar com o outro. Escroto n\u00e3o \u00e9 \u201cum\u201d lado da cidade, mas o mundo em que vivemos e constru\u00edmos. Cercados de orkuts, blogs, facebooks, fotologs e messengers, vivemos num mundo saturado de imagens e cada vez mais solit\u00e1rio. O sexo tende a se tornar virtual e at\u00e9 o boneco de pl\u00e1stico para trepar virou pe\u00e7a de museu. Aquilo que era o c\u00famulo da bizarrice (para alguns) se converteu em saciedade de desejo via c\u00e2mera de v\u00eddeo digital, teclado e fibra \u00f3ptica. S\u00e3o tantas as informa\u00e7\u00f5es, que cada vez ficamos mais perdidos e burros. Nesse contra-senso em que as trocas intelectuais se constitu\u00edram, penso que n\u00e3o \u00e9 mais \u201cfun\u00e7\u00e3o\u201d da arte (se acreditarmos que ela tem fun\u00e7\u00e3o) alertar sobre esse aspecto da contemporaneidade, mas efetivamente tornar-se uma mediadora de experi\u00eancias ou acentuar a sua diferen\u00e7a num ambiente mergulhado em publicidade, MTV e imagens do que dever\u00edamos ser para tornarmo-nos felizes, mais bonitos ou bem-sucedidos. O humor na obra de Mour\u00e3o vem corroer esse conceito de ideias disformes, variando do sarc\u00e1stico (7 artistas, 1995) ao m\u00f3rbido (Mata-mata, 2003), passando pelo bizarro (Surdo-mudo, 1999), o kitsch (Luladegeladeira, 2006), o agressivo (Foda-se, 2002) e o inesperado (Buraco do Vieira, 2001). O humor portanto tamb\u00e9m passa pela biografia de cada trabalho, ou seja, as mem\u00f3rias que ele guarda ou como ele foi gerado. Nessa simbiose de humor e caleidosc\u00f3pio de viol\u00eancia e poesia, a palavra n\u00e3o funciona apenas como t\u00edtulo descritivo da obra em Mour\u00e3o, mas tamb\u00e9m como poesia visual e incorpora\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica de ideias. A palavra em Mour\u00e3o n\u00e3o \u00e9 descart\u00e1vel nem meio para se conhecer o mundo em poucos segundos mas um dado indispens\u00e1vel para mergulhar num intervalo de tempo vari\u00e1vel que permite ao seu leitor\/espectador contemplar uma dimens\u00e3o onde ver o mundo \u00e9 fazer o mundo e n\u00e3o simplesmente apropriar-se daquilo que se v\u00ea. A palavra de Mour\u00e3o \u201cjorra\u201d redes de rela\u00e7\u00f5es com as coisas, estabelece um estranho sistema de trocas, de fus\u00f5es, irrelevantes, qui\u00e7\u00e1, para a experi\u00eancia ordin\u00e1ria, mas que para a experi\u00eancia art\u00edstica constituem, de uma parte, a matriz dos problemas e das solu\u00e7\u00f5es e, de outra, o modo da participa\u00e7\u00e3o e do \u00eaxtase, com o mundo.<\/p>\n<p>Felipe Scovino \u00e9 cr\u00edtico de arte, flamenguista, gosta de noise e acabou de conhecer o f\u00edgado acebolado com jil\u00f3.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=356\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto que o cr\u00edtico de arte e doutor-professor Felipe Scovino escreveu l\u00e1 para o n\u00famero 1 do ATUAL &#8211; o \u00faltimo jornal da terra. 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