{"id":3315,"date":"2014-09-10T10:36:06","date_gmt":"2014-09-10T10:36:06","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=3315"},"modified":"2014-09-10T10:36:06","modified_gmt":"2014-09-10T10:36:06","slug":"album-postal-e-sampler-vik-muniz-nara-roesler-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3315","title":{"rendered":"\u00e1lbum, postal e sampler &#8211; vik muniz @ nara roesler, rio"},"content":{"rendered":"<p>texto que escrevi para a exposi\u00e7\u00e3o \u00c1lbum, de Vik Muniz que inaugurou ontem na Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/vik_muniz_album_nara_roesler.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3316\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/vik_muniz_album_nara_roesler.jpg\" alt=\"vik_muniz_album_nara_roesler\" width=\"956\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/vik_muniz_album_nara_roesler.jpg 956w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/vik_muniz_album_nara_roesler-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/vik_muniz_album_nara_roesler-600x376.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 956px) 100vw, 956px\" \/><\/a><\/p>\n<address><em>H\u00e1 uma \u00f3tima loja de queijos na First Avenue, \u00e0 qual eu vou com uma frequ\u00eancia razo\u00e1vel, o suficiente para notar que a pessoa atr\u00e1s do balc\u00e3o nunca exp\u00f5e um queijo sem antes cortar um oitavo dele. Quando perguntei por que ele fazia isso, ele respondeu bruscamente: \u201c\u00c9 \u00f3bvio\u2026 Se eu n\u00e3o cortar, ele n\u00e3o se parece um queijo.\u201d\u00a0<\/em><\/address>\n<address><em>Vik Muniz (Extrato do texto \u201cSurface Tension\u201d, originalmente publicado em Parkett, No. 46, 1996)<\/em><\/address>\n<p><strong>Visita ao ateli\u00ea do Brooklyn<\/strong> &#8211; Na antessala do ateli\u00ea, o verso do chassi da Mona Lisa repousa no canto; ao lado, uma pequena foto do pr\u00f3prio Vik sozinho no Louvre segurando o original de Leonardo da Vinci. Sobre um pedestal branco h\u00e1 outra Mona Lisa, a obra chama-se Souvenir Gioconda, do artista italiano Fabio Viale. \u00c9 uma escultura que parece feita de pequenas bolinhas de isopor, mas, na verdade, foi toda esculpida em um \u00fanico bloco de m\u00e1rmore. Passo os olhos pelos livros da enorme estante e separo os que falam sobre a obra de Vik. No pequenino Natura Pictrix \u2013 Interviews and Essays on Photography descubro o texto \u201cMirrors; Or, How to steal a masterpiece\u201d em que Vik descreve uma fila sem fim de pessoas com c\u00e2meras coladas ao rosto, tirando fotos da Mona Lisa de Leonardo. \u201cComo num teste oftalmol\u00f3gico, cada fotografia vai avaliar a rela\u00e7\u00e3o entre o fot\u00f3grafo e o objeto. Centenas de milhares de fotografias s\u00e3o feitas aqui todo o ano e, de fato, o objeto sorri diferentemente em cada uma delas. Por causa do reflexo do vidro protetor, \u00e9 imposs\u00edvel fotografar a Mona Lisa sem se fotografar a si mesmo. Uma impossibilidade que acaba criando a forma mais bizarra de autorretrato.\u201d<\/p>\n<p>Erika abre a porta do ateli\u00ea e me deparo com pilhas de fotos espalhadas pelo ch\u00e3o e sobre as mesas. S\u00e3o milhares de fotos de \u00e1lbuns de fam\u00edlia e cart\u00f5es postais que Vik vem comprando nos \u00faltimos anos em leil\u00f5es online. Um beb\u00ea sorridente, a escola, a sala de aula, uma crian\u00e7a de cal\u00e7a curta, a primeira comunh\u00e3o, o acampamento, a namoradinha, a casa, o carro novo, uma mulher sentada num canh\u00e3o, outra observando a paisagem, um pescador com vara e peixe. Por um instante todas as fam\u00edlias me parecem iguais. Todo \u00e1lbum se parece com o pr\u00f3ximo. O ritmo da vida daquelas pessoas era lento.<\/p>\n<p>Penso na comunica\u00e7\u00e3o entre os homens por meio de imagens e nas ideias de D\u00e9cio Pignatari. No desaparecimento da foto de papel, na desmaterializa\u00e7\u00e3o da imagem e do som. Na minha cole\u00e7\u00e3o de CDs que n\u00e3o tocam mais, lojas de discos desaparecendo pelo planeta, a volta da onda do vinil, o colecionador Zero Freitas e sua obsess\u00e3o. As livrarias fechando suas portas, o fim do livro, do jornal, da revista. As redes sociais. Tudo hoje \u00e9 informa\u00e7\u00e3o digital o tempo todo. Tudo vai desaparecer. Os objetos\/coisas j\u00e1 falam entre si. A vida \u00e9 veloz.<\/p>\n<p>Vik entra pelo Skype e come\u00e7amos uma conversa. As fotos estavam indo para o lixo e, agora, cada uma delas ser\u00e1 digitalizada e catalogada num banco de dados de acordo com suas caracter\u00edsticas e proced\u00eancia. Depois, numa pequena folha de papel, centenas de peda\u00e7os de fotos s\u00e3o colados como num mosaico, reconstruindo as imagens que caminhavam para o desaparecimento. \u00c9 um trabalho manual, Vik gasta quase 30 dias para construir cada imagem, organizando pacientemente \u00e1reas de cor no plano. Nas paredes do ateli\u00ea est\u00e3o as 11 grandes fotos da exposi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o imagens ao mesmo tempo toscas e doces, atraentes e agressivas. \u201cA colagem n\u00e3o \u00e9 impecavelmente realizada, h\u00e1 uma m\u00e3o brasileira por tr\u00e1s, os chineses certamente fariam melhor\u201d, diz Vik. A menina da banda do col\u00e9gio, o bondinho, o homem no camelo, o Coliseu, o casal abra\u00e7ado, duas girafas, a bicicleta nova, o pescador, a mulher no deserto, a Est\u00e1tua da Liberdade, a praia. Tudo est\u00e1 carregado de afeto. O \u00e1lbum e o postal. Dois momentos da hist\u00f3ria da fotografia onde imagens invadiram a vida das pessoas de forma contundente. Num \u00e1lbum, a fam\u00edlia organizava sua hist\u00f3ria, documentava seus momentos, depositava sentimentos. No postal, comunic\u00e1vamos nosso deslocamento no espa\u00e7o (cheguei), a conquista de um territ\u00f3rio (estou aqui) e tamb\u00e9m sentimentos (sinto saudades).<\/p>\n<p>O nascimento da obra de Vik se d\u00e1 simultaneamente \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o do sampler na m\u00fasica pop, eletr\u00f4nica e hip hop dos 80\/90. O sampler \u00e9 um gravador eletr\u00f4nico que armazena trechos de \u00e1udio para serem reproduzidos e\/ou reprocessados, criando novas e complexas melodias, padr\u00f5es r\u00edtmicos ou efeitos. Volto para casa ouvindo Paul\u2019s Boutique dos Beastie Boys, 3 Feet High and Rising do De La Soul e Endtroducing do Dj Shadow (o primeiro disco inteiramente feito com peda\u00e7os de outras m\u00fasicas). Imagens e sons invadem a cabe\u00e7a. As fotos do \u00e1lbum de Vik s\u00e3o quebradas, feitas de pequenas partes. Fragmentos de informa\u00e7\u00e3o vibrando na superf\u00edcie. Colcha de retalhos digitais. Um jogo de cortar e colar em que a leitura da imagem se d\u00e1 por meio da parte e do todo. Cut and paste.<\/p>\n<p>Penso na folha e na floresta. Na conex\u00e3o direta entre a obra de Vik e o pop de Warhol. N\u00e3o h\u00e1 antropofagia no sampler de Vik, ele procura seus iguais no arquivo da cultura, captura e gera um novo elemento no ac\u00famulo das coisas do mundo. Lembro do \u00faltimo encontro com o m\u00e9dico dos meus olhos e ele explicando \u201cquem v\u00ea \u00e9 o c\u00e9rebro, o olho recebe a luz que se transforma em impulso el\u00e9trico, que \u00e9 levado para o c\u00e9rebro pelo nervo \u00f3tico e l\u00e1 vira imagem.\u201d Ao recriar imagens com as quais temos enorme intimidade, Vik nos joga dentro delas. Agora eu tamb\u00e9m sou um peda\u00e7o. Uma pequena parte. Todos somos iguais e diferentes.<\/p>\n<p>Raul Mour\u00e3o, setembro de 2014<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3315\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>texto que escrevi para a exposi\u00e7\u00e3o \u00c1lbum, de Vik Muniz que inaugurou ontem na Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro. 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