{"id":319,"date":"2009-06-01T01:39:00","date_gmt":"2009-06-01T01:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=319"},"modified":"2009-06-01T01:39:00","modified_gmt":"2009-06-01T01:39:00","slug":"o-desejo-do-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=319","title":{"rendered":"O desejo do contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p>Coluna do Antonio Cicero publicada na &#8220;Ilustrada&#8221;, da Folha de S\u00e3o Paulo, s\u00e1bado, 30 de maio. <a href=\"http:\/\/antoniocicero.blogspot.com\/\">Peguei l\u00e1 no excelente blog dele<\/a>. Mais uma assinado RSS &#8211; Google Reader&#8230;<\/p>\n<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SiPEo60itUI\/AAAAAAAAB4w\/HEbymWI5jGA\/s1600-h\/Imagem5.png\"><img style=\"cursor: pointer; width: 355px; height: 400px;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SiPEo60itUI\/AAAAAAAAB4w\/HEbymWI5jGA\/s400\/Imagem5.png\" alt=\"\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5342329790254986562\" border=\"0\" \/><\/a><em><\/em><\/p>\n<p>O FIL\u00d3SOFO Gilles Deleuze diz que &#8220;uma boa maneira de ler, hoje em dia, seria tratar um livro assim como se escuta um disco, assim como se v\u00ea um filme ou um programa de televis\u00e3o, assim como se acolhe uma can\u00e7\u00e3o: qualquer tratamento do livro que exija para ele um respeito, uma aten\u00e7\u00e3o especial, corresponde a outra \u00e9poca e condena definitivamente o livro&#8221;.<\/p>\n<p>Por mim, cada qual que leia o que quiser da maneira que lhe aprouver. Contudo, quando leio, por exemplo, as bobagens ou trivialidades que s\u00e3o cotidianamente escritas sobre Nietzsche por alguns dos seus f\u00e3s, tenho a impress\u00e3o de que hoje praticamente todo o mundo j\u00e1 adotou a maneira de ler recomendada pelo autor de &#8220;Diferen\u00e7a e Repeti\u00e7\u00e3o&#8221;. E ent\u00e3o tendo a achar que Heidegger \u00e9 que estava certo, quando recomendava aos seus alunos que adiassem a leitura de Nietzsche para depois que estudassem Arist\u00f3teles durante uns dez ou 15 anos.<\/p>\n<p>Deleuze jamais concordaria com isso, pois considerava repressiva a hist\u00f3ria da filosofia. Segundo ele, as pessoas n\u00e3o se sentem no direito de pensar antes de terem lido Plat\u00e3o, Descartes, Kant e Heidegger. Talvez. Mas eu diria antes que quem n\u00e3o quer pensar sempre acha uma desculpa para tal. Se, na Fran\u00e7a, \u00e9 a hist\u00f3ria da filosofia, no Brasil \u00e9 a filosofia contempor\u00e2nea que tem esse papel. Tradicionalmente o brasileiro, tendendo a considerar-se atrasado em rela\u00e7\u00e3o ao que se discute no Primeiro Mundo, n\u00e3o se d\u00e1 o direito a pensar antes de estar a par do &#8220;dernier cri&#8221; europeu ou norte-americano. Ora, mal se conhece o &#8220;dernier cri&#8221; e ele j\u00e1 deixou de o ser, de modo que, correndo-se atr\u00e1s do pr\u00f3ximo, deixa-se para pensar por conta pr\u00f3pria mais tarde.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quem s\u00f3 deseja estar &#8220;up to date&#8221; acaba por jamais ler os cl\u00e1ssicos. A leitura dos contempor\u00e2neos toma-lhe todo o tempo. Tal pessoa espera que os autores da moda lhe indiquem quais dos autores do passado ainda devem ser respeitados (por exemplo, Spinoza e Nietzsche) e quais devem ser desprezados (por exemplo, Descartes e Hegel). E, no mais das vezes, como aquilo que os contempor\u00e2neos escrevem sobre os autores que recomendam \u00e9 considerado justamente o supra-sumo destes, torna-se sup\u00e9rflua a leitura dos originais.<\/p>\n<p>Pensemos no significado desse desejo de ser contempor\u00e2neo. &#8220;Contempor\u00e2neo&#8221; quer dizer &#8220;do mesmo tempo&#8221; ou &#8220;do mesmo tempo que&#8221;. Quando dizemos, por exemplo, &#8220;M\u00e1rio e Oswald foram contempor\u00e2neos&#8221;, queremos dizer: &#8220;M\u00e1rio e Oswald foram do mesmo tempo&#8221;; e quando dizemos &#8220;Leonardo foi contempor\u00e2neo de Michelangelo&#8221;, queremos dizer: &#8220;Leonardo foi do mesmo tempo que Michelangelo&#8221;.<\/p>\n<p>Quando, por outro lado, digo que uma coisa ou pessoa \u00e9 contempor\u00e2nea, sem explicitar de qu\u00ea ou de quem, fica sempre impl\u00edcito que essa coisa ou pessoa \u00e9 contempor\u00e2nea de mim, que estou a diz\u00ea-lo. Se digo, por exemplo, &#8220;Giorgio Agamben \u00e9 um fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo&#8221;, quero dizer que ele \u00e9 meu contempor\u00e2neo: o que poderia ser dito pelas palavras &#8220;Giorgio Agamben \u00e9 um fil\u00f3sofo do mesmo tempo que eu&#8221;. Ou seja, o que quer que seja contempor\u00e2neo, sem mais, \u00e9 contempor\u00e2neo de mim (seja quem eu for). \u00c9 claro que, como a contemporaneidade consiste em uma rela\u00e7\u00e3o comutativa, n\u00e3o posso deixar de, reflexivamente, me reconhecer contempor\u00e2neo das coisas ou pessoas que me s\u00e3o contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Isso significa que n\u00e3o tem sentido que eu \u2013 seja quem eu for \u2013 me diga contempor\u00e2neo, sem mais. &#8220;Eu sou contempor\u00e2neo&#8221; significa apenas: &#8220;Eu sou do mesmo tempo que eu&#8221;. Assim tamb\u00e9m, n\u00e3o tem sentido desejar ser contempor\u00e2neo, sem mais, pois &#8220;desejo ser contempor\u00e2neo&#8221; significa apenas: &#8220;Desejo ser do mesmo tempo que eu&#8221;. Finalmente, n\u00e3o tem sentido desejar ser contempor\u00e2neo de alguma coisa ou pessoa contempor\u00e2nea, uma vez que eu j\u00e1 sou, evidentemente, contempor\u00e2neo de quem me \u00e9 contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Assim, o desejo do contempor\u00e2neo n\u00e3o passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal. Quando se manifesta no campo da filosofia, talvez o melhor ant\u00eddoto para ele seja exatamente a leitura cuidadosa dos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>E, de volta a Deleuze, devo dizer que, no lugar de tratar um livro como normalmente se escuta uma can\u00e7\u00e3o, acho mais proveitoso, de vez em quando, escutar algumas can\u00e7\u00f5es com o respeito e a aten\u00e7\u00e3o especial que o bom leitor jamais deixar\u00e1 de dedicar aos bons livros.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=319\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coluna do Antonio Cicero publicada na &#8220;Ilustrada&#8221;, da Folha de S\u00e3o Paulo, s\u00e1bado, 30 de maio. 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