{"id":3185,"date":"2014-07-02T11:09:31","date_gmt":"2014-07-02T11:09:31","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=3185"},"modified":"2014-07-02T11:16:57","modified_gmt":"2014-07-02T11:16:57","slug":"tomba-gigantes-por-alexandra-lucas-coelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3185","title":{"rendered":"TOMBA-GIGANTES por Alexandra Lucas Coelho"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/portugal\/noticia\/tombagigantes-1660451\">Saiu no domingo a coluna TOMBA-GIGANTES da Alexandra Lucas Coelho no jornal O P\u00fablico de LIsboa<\/a> e pela segunda semana seguida ela faz men\u00e7\u00e3o a minha pessoa. Dessa vez cita a frase POESIA COME TUDO que faz parte do livro RUA lan\u00e7ado na livraria Dantes do Leblon junto com uma interven\u00e7\u00e3o na vitrine a convite de Marcos Chaves e Ana Dantes. Na ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do livro\/interven\u00e7\u00e3o RUA a banda Farofa Carioca (de Seu Jorge, Gabriel Moura e cia) se apresentou na pequena cal\u00e7ada em frente a livraria da Dias Ferreira. Segue a coluna Tomba-Gigantes de Alexandra. Vou ver se acho fotos RUA.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/alexandra_tomba_gigantes_publico.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-3186\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/alexandra_tomba_gigantes_publico-1024x593.png\" alt=\"alexandra_tomba_gigantes_publico\" width=\"545\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/alexandra_tomba_gigantes_publico-1024x593.png 1024w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/alexandra_tomba_gigantes_publico-300x173.png 300w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/alexandra_tomba_gigantes_publico-600x347.png 600w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/alexandra_tomba_gigantes_publico.png 1678w\" sizes=\"(max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"color: #222222;\"><span class=\"first\">l\u00e1 no Brasil, o hino nacional brada no campo e na sala, patriotas de vermelho-selec\u00e7\u00e3o, punho no peito, nobre povo. Estamos em Lisboa, a 90 minutos de poemas v\u00e3o suceder 90 minutos do futuro de Portugal, e h\u00e1 quem fique de uma sess\u00e3o para outra, como teriam ficado Ruy Belo, Assis Pacheco &amp; etc de poetas. \u00c9 a chama imensa ou o poema cont\u00ednuo, mas eu saio antes que acabe o hino. A sala foi ficando densa de fumo, amigos foram em busca de ar, e eu vou, com outros, reunir-me a eles.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">2. Caminhamos de Santos ao Cais do Sodr\u00e9, comentando como a sala enchera para ouvir poemas, ficara at\u00e9 dif\u00edcil passar entre as mesas, tanta gente de p\u00e9, quantas pessoas ao todo, 70? Nisto entramos no novo Mercado da Ribeira e 700 pessoas est\u00e3o sentadas no ch\u00e3o, esfuziantes porque Portugal acaba de marcar um golo.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">3. Novo Mercado da Ribeira: n\u00e3o sei se o futuro de Portugal \u00e9 o futebol mas o presente \u00e9 gourmet. Por exemplo, os amigos brasileiros que nos esperavam tinham chegado h\u00e1 uns tr\u00eas dias e aquela era a terceira vez que comiam ali. Eu n\u00e3o estava a par do acontecimento, todas aquelas bancas de chefs. Os chefs s\u00e3o os novos profetas, conciliam em vez de dividir multid\u00f5es no espa\u00e7o e n\u00e3o no tempo, porque a vida do est\u00f4mago \u00e9 instant\u00e2nea e mortal, ao contr\u00e1rio da vida da cabe\u00e7a. A Time Out \u00e9 que fez o novo Mercado da Ribeira, explicou-me uma amiga portuguesa. O futuro da imprensa j\u00e1 \u00e9 gourmet.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">4. J\u00e1 multid\u00e3o e poesia s\u00e3o compat\u00edveis mas ass\u00edncronas. Nos raros casos em que a multid\u00e3o vem, o poeta foi. O que define um poeta de multid\u00f5es n\u00e3o \u00e9 ser mau, \u00e9 estar morto. A multid\u00e3o de um poeta acontece no tempo, por ac\u00famulo de um mais um mais um, entregues \u00e0 pr\u00f3pria cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">5. A prop\u00f3sito, entre a sess\u00e3o de poemas e o jogo de Portugal, um velho leitor de Herberto falara-me do novo livro de Herberto, e de manh\u00e3, horas antes dos poemas, outro velho leitor de Herberto, na outra ponta de Lisboa, falara-me do horror \u00e0 idolatria. Comprei o novo livro de Herberto na manh\u00e3 em que saiu, trouxe-o do Porto para o Alentejo para dentro da lareira que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 lareira, mas ainda n\u00e3o o tirei do celofane. Estou \u00e0 espera que assente a poeira da corrida, ou como lhe chamar.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">6. H\u00e1 na idolatria uma puls\u00e3o sacrificial que \u00e9 vit\u00f3ria da morte. O contr\u00e1rio ser\u00e1 a insubordina\u00e7\u00e3o, puls\u00e3o de vida. Sophia de Mello Breyner Andresen tem aquele verso, N\u00e3o servirei senhor que possa morrer. O meu horror \u00e0 idolatria \u00e9 o horror \u00e0 subservi\u00eancia, aos venerados em altar da literatura: n\u00e3o servirei senhor que me possa matar. Id\u00f3latras s\u00e3o tudo o que um aumentador de cabe\u00e7as como Herberto n\u00e3o precisa, pot\u00eancia insubordinada ao tempo, e ao seu derradeiro julgamento.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">7. Entre os poetas da sess\u00e3o pr\u00e9-jogo, n\u00e3o havia vener\u00e1veis. Naquele arco que vai dos gregos a Ad\u00edlia Lopes seriam quase todos p\u00f3s-Ad\u00edlia. Falta de solenidade n\u00e3o \u00e9 falta de ritual, nem de sagrado, como sabe quem tenha vivido a s\u00e9rio um Carnaval. \u00c9 s\u00f3 uma esp\u00e9cie de desassombro, de riso na cara do rei que vai nu. E enquanto os poetas rirem na cara do rei que vai nu ainda c\u00e1 estamos, gl\u00f3bulos brancos, gl\u00f3bulos vermelhos, luta de tit\u00e3s com a morte.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">8. Raul Mour\u00e3o, artista brasileiro que mencionei na semana passada, tem esta frase numa pe\u00e7a: Poesia come tudo. \u00cdndios disseram isso de outra maneira, Oswald de Andrade disse isso de outra maneira, o Brasil diz isso ao mundo embora ou\u00e7a v\u00e1rias outras coisas em outras direc\u00e7\u00f5es. O que o Brasil diz n\u00e3o coincide com o que o Brasil ouve. Pois sim, poesia come tudo, de agri\u00f5es a rilke shakes (para aludir a uma poeta \u201cparente\u201d de Ad\u00edlia Lopes, a brasileira Ang\u00e9lica Freitas que hoje deve ter acordado no Porto, se virem uma ga\u00facha de \u00f3culos vermelhos, \u00e9 ela). Mas onde eu queria chegar era a isto, se a poesia come tudo \u00e9 o tomba-gigantes da morte.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">9. Foi na madrugada desse domingo dos poemas e do jogo de Portugal que morreu o Miguel Gaspar. N\u00e3o trabalhei de perto com ele enquanto editor do Mundo, e na fase em que integrou a direc\u00e7\u00e3o do P\u00daBLICO estivemos em p\u00f3los diferentes. A imagem que guardo \u00e9 bem anterior, a do compincha do jornal rival, quando pass\u00e1mos dias a cobrir a Bienal do Rio de Janeiro, ele para o Di\u00e1rio de Not\u00edcias, eu para o P\u00daBLICO, ele sempre mais r\u00e1pido, eu sempre atrasando o fecho, escrevendo textos lado a lado e divertindo-nos o resto do tempo. Passaram exactamente 15 anos at\u00e9 \u00e0 \u00faltima vez que o Miguel me escreveu no Facebook, j\u00e1 eu estava aqui no Alentejo, uma mensagem compincha como um arco no tempo, por cima de toda a usura. Ele disse que estava feliz e eu sorri.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3185\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saiu no domingo a coluna TOMBA-GIGANTES da Alexandra Lucas Coelho no jornal O P\u00fablico de LIsboa e pela segunda semana seguida ela faz men\u00e7\u00e3o a minha pessoa. 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