{"id":3176,"date":"2014-06-22T11:40:21","date_gmt":"2014-06-22T11:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=3176"},"modified":"2014-06-22T11:40:21","modified_gmt":"2014-06-22T11:40:21","slug":"esse-espinho-no-verao-alexandra-lucas-coelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3176","title":{"rendered":"Esse espinho no Ver\u00e3o &#8211; Alexandra Lucas Coelho"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico_espinho.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-3177\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico_espinho-1024x671.png\" alt=\"alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico_espinho\" width=\"545\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico_espinho-1024x671.png 1024w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico_espinho-300x196.png 300w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico_espinho-600x393.png 600w\" sizes=\"(max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na coluna da Alexandra Lucas Coelho que saiu hoje n&#8217;O P\u00fablico ela comenta nosso encontro por acaso da semana passada. Fala tamb\u00e9m do Proximo Futuro, de indiozinhso pelados, javalis africanos,\u00a0Br\u00e1s Cubas, as guerras dos jornalismo de hoje, aranhas e lagartos etc<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>segue o texto:<\/p>\n<p><strong>Esse espinho no Ver\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>1. Escrevo ao lado de uma aranha verde-lima. Est\u00e1 pendurada na ameixoeira \u00e0 sombra da qual escrevo. Primeiro, de cabe\u00e7a para cima, desceu a um palmo do meu ombro. Depois, de cabe\u00e7a para baixo, desatou a subir como um micropolvo, toda cabe\u00e7a e tent\u00e1culos. Eu e uma aranha alpinista nos 35 graus do quintal, nem uma aragem que agite a recta dela. Algu\u00e9m em linha recta nesta casa.<\/p>\n<p>2. Voltar a casa nos 35 graus do Alentejo: passagem entre o sol e o interior de uma bilha. Est\u00e1 tanto calor como h\u00e1 seis meses no Rio de Janeiro, com a diferen\u00e7a de que no Rio as paredes n\u00e3o s\u00e3o passagens secretas. \u00c9 uma diferen\u00e7a decisiva, acho que at\u00e9 acima dos 40 vai ser tranquilo, com excep\u00e7\u00e3o do quintal, no auge da matura\u00e7\u00e3o acelerada. Uma semana fora e j\u00e1 h\u00e1 ameixas do tamanho de ameixas, algumas j\u00e1 rosadas, uma t\u00e3o precoce que caiu roxa no ch\u00e3o. Di\u00f3spiros, s\u00f3 perto do Outono, mas aquilo que era um bot\u00e3o agora \u00e9 um bolbo, verde como a aranha. E o vaso da hortel\u00e3, devastado em ch\u00e1s di\u00e1rios, explodiu numa copa.<\/p>\n<p>3. Um pequeno \u00edndio, totalmente nu, nem tanga nem nada, veio pela selva em S para n\u00e3o pisar as couves, as alfaces, tudo aquilo que os humanos tentam comer antes dos carac\u00f3is. Era o meu vizinho Vasco, que continua com sete anos. J\u00e1 n\u00e3o o via h\u00e1 uma semana, o tempo em que dormi no Porto e as ameixas incharam. At\u00e1mos juntos a rede carioca, o Vasco saltou l\u00e1 para dentro e deu-me as novidades: vinha a\u00ed um porco-espinho africano. Ele tinha apresentado v\u00e1rias hip\u00f3teses aos pais, incluindo um lagarto espinhoso e um porco-espinho africano, e a m\u00e3e, segundo ele, escolhera o porco-espinho africano. Eu n\u00e3o sabia que os porcos-espinhos variavam conforme os continentes e tamb\u00e9m nunca tinha ouvido falar de um lagarto espinhoso. Parece que por baixo dos espinhos tem um sensor de \u00e1gua, ent\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel andar pelas selvas com ele, tipo varinha de vedor, ou o Vasco j\u00e1 estava a falar de outro lagarto e eu confundi, mas definitivamente falou de um lagarto que encontra \u00e1gua. Muita sorte voltar a casa e ter um \u00edndio que multiplica a nossa cabe\u00e7a, g\u00e9nero fiss\u00e3o nuclear. Por baixo desse espinho no Ver\u00e3o haver\u00e1 \u00e1gua, quem sabe afinal n\u00e3o morreremos.<\/p>\n<p>4. \u00c0 noite ficou aquele luar\u00e3o, ter\u00e3o visto, hemisf\u00e9rio norte, hemisf\u00e9rio sul. O meu quintal estava um p\u00e9 c\u00e1, outro l\u00e1, a minha irm\u00e3 em visita sentiu-se no jardim do Cosme Velho onde morei. Trazia-me o seu \u00edndio de dois meses, um budista que olha para o mundo com pernas em flor-de-l\u00f3tus, um bra\u00e7o atr\u00e1s da cabe\u00e7a. Aos dois meses tanto faz se \u00e9 dia ou noite, o tempo \u00e9 um nirvana. O indizionho budista dormia, acordou, comeu, dormiu, nu como um \u00edndio de tanga amarela. Primeira viagem, o Alentejo.<\/p>\n<p>5. O que toca de sinos nesta terra. Uma amiga minhota a quem h\u00e1 tempos falei dos sinos estranhou, se ainda fosse no Minho. Pois o meu Alentejo \u00e9 um lugar em que a CDU tem mais de metade dos votos mas as igrejas fazem campeonatos de sinos. Hoje, que \u00e9 domingo, acordei \u00e0s oito e meia da manh\u00e3 com aquelas badaladas que n\u00e3o s\u00e3o horas, disparam num cont\u00ednuo. Entraram pelo meu sonho, e acordei sem saber se era morto, se era fogo, se era o rei, porque ainda est\u00e1vamos no s\u00e9culo XIX. Essa parte do s\u00e9culo XIX h\u00e1-de ser porque adormeci em cima de Br\u00e1s Cubas, o mais c\u00e9lebre defunto da literatura brasileira.<\/p>\n<p>6. Ora enquanto eu convivia com Br\u00e1s Cubas, a\u00ed pelas quatro e tal da manh\u00e3, um seu compatriota mas nosso contempor\u00e2neo, o artista brasileiro Raul Mour\u00e3o mandou um mail a perguntar por onde andava eu. \u00c0s seis e tal mandou outro mail porque acabara naquele instante de topar com um acaso: a cr\u00f3nica anterior a esta, chamada <i>O Plano e o Acaso<\/i>. Enviava-me em attach um v\u00eddeo seu de 2009, chamado <i>Plano\/Acaso<\/i>. N\u00e3o t\u00ednhamos qualquer contacto h\u00e1 pelo menos um ano, se n\u00e3o dois, e duas horas depois de me escrever aparece-lhe um texto meu com um t\u00edtulo paralelo a uma pe\u00e7a sua. Li os mails depois de acordar com os sinos, e vi o v\u00eddeo, de que nunca nem ouvira falar: uma c\u00e2mara vai descendo de elevador num edif\u00edcio-garagem do Centro do Rio de Janeiro, a luz est\u00e1 do lado direito, cada vez menos, at\u00e9 \u00e0s trevas, mas antes h\u00e1 um momento em que v\u00eam p\u00e1ssaros pousar no parapeito. Quando lerem isto o Raul ter\u00e1 inaugurado uma exposi\u00e7\u00e3o no festival Pr\u00f3ximo Futuro, na Gulbenkian, em Lisboa, fica de convite.<\/p>\n<p>7. Outras duas coisas meio conterr\u00e2neas de Br\u00e1s Cubas ter\u00e3o acabado de passar pela Gulbenkian quando lerem isto: Carmen Miranda pelo Real Combo Lisbonense (RCL) e Ang\u00e9lica Freitas por Ang\u00e9lica Freitas. Esta Carmen\/RCL vai-se fazer \u00e0 estrada, at\u00e9 chegar mesmo a V\u00e1rzea de Ovelha, lugar de onde foi levada com meses, l\u00e1 nas redondezas de Marco de Canaveses, ser\u00e1 quest\u00e3o de estar atento. Quanto a Ang\u00e9lica, que agitou um Rilke Shake na poesia brasileira, ainda estar\u00e1 hoje a ler em Lisboa (Guilherme Cossoul, 19h30).<\/p>\n<p>8. E a Copa? Fiz Porto-Lisboa no dia da estreia. Vi o jogo num sot\u00e3o com feijoada portuguesa, a melhor de que me lembro em anos recentes. A maioria dos comensais eram portugueses, mas havia torcedores de Fran\u00e7a, Per\u00fa, Guatemala, Brasil e Cro\u00e1cia, a brasileira a fazer caipirinhas de tangerina com gengibre, o croata a fazer mexilh\u00f5es ultrapicantes, os melhores de que me lembro, ponto. Sendo que o croata era o homem da casa mais parecido com um brasileiro (ou um paquistan\u00eas, ou um turco, algu\u00e9m escuro). Tamb\u00e9m havia um indiozinho igual ao principezinho e uma banda indie de raparigas no piso de baixo. A \u00fanica portuguesa torcedora pela Cro\u00e1cia indignava-se com o aparente facto de o Brasil ter de ganhar para a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o estalar na rua.<\/p>\n<p>9. A prop\u00f3sito de revolu\u00e7\u00e3o, eu voltara do Porto com a not\u00edcia do despedimento de mais dezenas e dezenas de jornalistas, incluindo o Jo\u00e3o Paulo Baltazar. Somos da mesma turma na faculdade, exactamente da mesma gera\u00e7\u00e3o, aquela em que o jornalismo teve mais meios do que nunca para cobrir uma guerra, e aquela que para fazer jornalismo agora tem de estar em guerra.<\/p>\n<p>10. J\u00e1 n\u00e3o sei da aranha que sobe em linha recta, nem estou j\u00e1 no quintal, quente demais. Hora da sesta para bichos e \u00edndios em geral. \u00c0s 17h30 os sinos dispararam outra vez, por cima de um galo perdido nas horas. Talvez sejam os b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3176\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na coluna da Alexandra Lucas Coelho que saiu hoje n&#8217;O P\u00fablico ela comenta nosso encontro por acaso da semana passada. Fala tamb\u00e9m do Proximo Futuro, de indiozinhso pelados, javalis africanos,\u00a0Br\u00e1s Cubas, as guerras dos jornalismo de hoje, aranhas e lagartos etc &nbsp; segue o texto: Esse espinho no Ver\u00e3o 1. 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