{"id":3157,"date":"2014-06-15T06:26:13","date_gmt":"2014-06-15T06:26:13","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=3157"},"modified":"2014-06-22T11:41:18","modified_gmt":"2014-06-22T11:41:18","slug":"o-plano-e-o-acaso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3157","title":{"rendered":"O Plano e o Acaso &#8211; Alexandra Lucas Coelho"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-3158\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2-1024x718.png\" alt=\"alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2\" width=\"545\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2-1024x718.png 1024w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2-300x210.png 300w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2-600x421.png 600w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico2.png 1656w\" sizes=\"(max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Eu conheci a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho anos atr\u00e1s no Rio de Janeiro em uma festa. Ela estava de mudan\u00e7a para o Rio, seria em breve a correspondente do jornal O Publico na cidade dita maravilhosa. Conversamos bastante nesse primeiro encontro sobre o Rio, seus artistas e outras muitas coisas. Dias depois ela fez uma longa entrevista\u00a0no meu atelie da Rua Joaquim Silva na Lapa. A mat\u00e9ria saiu <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/mundo\/noticia\/reportagem-a-cidade-na-cabeca-dos-seus-criadores-1485547\">nO P\u00fablico<\/a> e eu <a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1020\">repliquei aqui no blog<\/a>. A partir daquele momento passei a acompanhar a produ\u00e7\u00e3o de Alexandra e me tornei um grande f\u00e3 da jornalista e do seu poderoso texto.<\/p>\n<p>Agora estou c\u00e1 em Lisboa (ela n\u00e3o mora mais no Rio) e ontem pensei que gostaria de encontr\u00e1-la e convid\u00e1-la para a exposi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3xima sexta etc. Pensei tamb\u00e9m em colocar um texto novo dela aqui no blog. Ent\u00e3o mandei-lhe um email as 6 da manh\u00e3 e o email voltou com uma mensagem automatica. Resolvo entrar no Publico para ver se acho algum texto dela mas acabo me perdendo entre as noticias do dia e uma quase xar\u00e1 Alexandra Prado Coelho. Com a\u00a0cabe\u00e7a confusa de sono e jetleg me deparo com uma chamada &#8220;noticias recentes; post de 00h00 intitulado O Plano e o Acaso&#8221;. PQP o que \u00e9 isso? Assustado com a coincid\u00eancia clico e vou cair no texto da Alexandra Lucas Coelho. Parece mentira mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-3159 size-medium\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico-300x218.png\" alt=\"alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico\" width=\"300\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico-300x218.png 300w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico-600x436.png 600w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alexandra_o_plano_e_o_acaso_o_publico.png 778w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Acaso \u00e9 assim &gt; Eu procurando por ela e ela escrevendo um texto com o titulo do meu v\u00eddeo de 2009. Segue o <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/cultura\/noticia\/o-plano--e-o-acaso-1639607\">texto dela<\/a> e o meu v\u00eddeo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\"><strong><span class=\"first\">O PLANO E O ACASO por ALEXANDRA LUCAS COELHO<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"color: #222222;\"><span class=\"first\">1. O plano era dormir no Porto tr\u00eas noites, de quinta a domingo. J\u00e1 chovera e o c\u00e9u amea\u00e7ava mais, talvez at\u00e9 ao fim, ent\u00e3o botas, gabardine, biqu\u00edni. O biqu\u00edni \u00e9 a esperan\u00e7a que ficou na caixa de Pandora, ou s\u00f3 a falta que a \u00e1gua faz. De repente, ao fim de dois meses na minha toca alentejana, vi aquilo que faltava. Lisboa \u00e9 uma cidade flutuante. Em Jerusal\u00e9m, o que falta em \u00e1gua sobra em f\u00e9, salva que o mar est\u00e1 perto. No Rio de Janeiro, a Lagoa estava a duas paragens de autocarro e na chuva era a Amaz\u00f3nia. Em compensa\u00e7\u00e3o, no meu Alentejo sem \u00e1gua n\u00e3o h\u00e1 turismo. Dif\u00edcil ter \u00e1gua e n\u00e3o ter turistas, equa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 nem se p\u00f5e em Lisboa, cada vez mais bonita para quem vem de fora. Idem para o Porto, pelo menos chegando assim na primeira quinta-feira de Junho, em plena tomada espanhola: dava para ver todo o Primavera Sound e ir derrubar a monarquia.<\/span><\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">2. No primeiro concerto do Primavera, bem dia claro, talvez f\u00f4ssemos mais americanos que ib\u00e9ricos. Rodrigo Amarante tocou o seu\u00a0<em>Cavalo\u00a0<\/em>t\u00e3o sorridente como Johnny Guitar, se Johnny Guitar fosse do sert\u00e3o.\u00a0<em>Cavalo<\/em>\u00a0faz-me pensar num Brasil filmado por Nicholas Ray. L\u00e1 para o fim vem, e veio, o meu verso favorito,<em>\u00a0fera dos pal\u00e1cios, peste dos jardins<\/em>, que na boca de um carioca acaba<em>\u00a0j\u00e1rrdjinsshh<\/em>. Era como espalhar pelo Parque da Cidade o que tenho no ouvido h\u00e1 semanas. O plano do Porto come\u00e7ara em Rodrigo Amarante, e o acaso foi ter encontrado na relva o Luca Argel, poeta da Tijuca que eu n\u00e3o via desde a minha casa no Rio de Janeiro, e agora mora no Porto, ali\u00e1s ia lan\u00e7ar um livro no s\u00e1bado.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">3. Ainda quinta, j\u00e1 lua alta, Caetano Veloso e o trio el\u00e9ctrico da Banda C\u00ea soltaram o<em>\u00a0Abra\u00e7a\u00e7o\u00a0<\/em>na encosta do palco principal, \u00e1lbum de uma solid\u00e3o colectiva, atravessado por um arrepio (e o lugar mais frio do Rio \u00e9 o meu quarto). Caetano p\u00f3s-carac\u00f3is, p\u00f3s-tanga, um senhor de cabelo liso, camisa branca, mas pronto a deitar-se no ch\u00e3o, cantar desde que o samba \u00e9 samba:<em>\u00a0Existe algu\u00e9m aqui \/\u00a0<\/em><em>fundo no fundo de voc\u00ea \/ de mim \/ que grita para quem quiser ouvir \/ quando canta assim: \/ eta \/ eta, eta, eta!<\/em>Entrou e saiu amado, uma plateia de barbas e flores como na tropic\u00e1lia, s\u00f3 que j\u00e1 sabendo do que o mundo n\u00e3o foi capaz. N\u00e3o sei se \u00e9 a melhor gera\u00e7\u00e3o de sempre, mas ser\u00e1 a mais bonita, e com certeza a primeira em que um rapaz dorme em casa dos pais com a namorada que antes dele tinha uma namorada.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">4. Sexta de manh\u00e3 era o temporal, rajadas, dil\u00favio. Apanhei o metro, que em Lisboa seria um el\u00e9ctrico, sa\u00ed em S\u00e3o Bento, desci a Rua das Flores, agora sem carros, com caf\u00e9s de degusta\u00e7\u00e3o e gente n\u00f3rdica. Agora, quer dizer, desde a \u00faltima vez que desci a Rua das Flores, ou seja, h\u00e1 anos. Mas, sim, do lado esquerdo de quem desce mantinha-se o alfarrabista do meu plano, como um par\u00eantesis no meio de 2014: silencioso, vazio, numa semiobscuridade em que apenas a primeira sala estava iluminada: nos fundos e escada acima, escada abaixo, luzes apagadas por conten\u00e7\u00e3o. H\u00e1 no Porto antigo algo de lac\u00f3nico que \u00e9 a derradeira eleg\u00e2ncia, no limiar entre a sensatez e o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">5. Os dois livros do meu plano, reservados h\u00e1 um m\u00eas, esperavam intactos, capa de couro carmim, estrofes que talvez ningu\u00e9m tenha folheado desde 1870, tendo em conta que o autor \u00e9 daqueles com que o tempo foi justo, pouco lido ent\u00e3o, agora nada. Mas escada acima, escada abaixo, acesas as luzes \u00e0 vez, havia muito acaso em pequenas pilhas atadas com cordel, autor ou tema manuscritos num cart\u00e3o, sem nenhum p\u00f3.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">6. Desci com uma pilha nova, uns daqui, outros dacol\u00e1, at\u00e9 ao balc\u00e3o. O \u00fanico cliente era um cavalheiro de sobretudo e gravata, cabeleira para tr\u00e1s como no cinema mudo, que cavaqueava com os dois anfitri\u00f5es. Ora um dos acasos que eu trazia vinha de folhas soltas, o que levou um dos anfitri\u00f5es a revelar-se restaurador na hora: pincel e cola branca, cart\u00e3o para nova lombada, forro de papel vegetal. O cavalheiro seguia o acontecimento com o vagar de quem j\u00e1 fintou a morte. Quer ver uma coisa bonita?, perguntou, abrindo uma pasta de couro de onde tirou a carta de um Wellington que falava em Tomaz de Mello Breyner. Ah, o av\u00f4 de Sophia?, perguntei. M\u00e9dico da corte, confirmou ele, e passou a narrar a aut\u00f3psia de D. Carlos depois do regic\u00eddio. Sob as m\u00e3os tinha uma pilha de livros, depreendi que de uma vasta biblioteca, porque me disse que j\u00e1 n\u00e3o comprava nada, apenas vendia quando precisava de dinheiro, e disse-o t\u00e3o naturalmente como os anfitri\u00f5es haviam dito que a luz apagada era por causa da crise. Estava com 85 anos, j\u00e1 ia a prole em n\u00e3o sei quantos bisnetos, s\u00f3 faltava algum interessado em livros.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">7. Subi pela Rua dos Caldeireiros. Paredes grossas de granito, janelas de guilhotina, a Adega Vila Me\u00e3, s\u00f3 raz\u00f5es para morar no Porto. A constru\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3lida, come-se bem, \u00e9 mais barato. Os estrangeiros devem concordar, porque s\u00f3 me cruzei com estrangeiros at\u00e9 aos Cl\u00e9rigos.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">8. Luca, o amigo carioca, mandara uma mensagem com as coordenadas do lan\u00e7amento. Ent\u00e3o, s\u00e1bado \u00e0 noite, deixei o Parque da Cidade de fitas atadas no pulso como uma presidi\u00e1ria e atravessei a cidade at\u00e9 \u00e0 Rua do Ros\u00e1rio, onde estaria um tal Gato Vadio. Estava mesmo, e com muitos livros de Alberto Pimenta logo \u00e0 entrada. Pimenta, fanzines, combate, uma parede de belas ondas vermelhas, um frasco de belas bolachas de chocolate, q.b. de mesas e sof\u00e1s, ao fundo um jardim, e entre o jardim e as bolachas um rapaz de barba que por acaso entrara porque era amigo da casa, por acaso encontrara Luca que por acaso j\u00e1 conhecia, por acaso ficara para o lan\u00e7amento, por acaso era agricultor biol\u00f3gico, por acaso j\u00e1 ouvira falar no meu amigo agricultor do Alentejo, de onde eu sa\u00edra para por acaso encontrar Luca no concerto do Rodrigo Amarante, que por acaso era o que se ouvia agora no Gato Vadio. H\u00e1 um biof\u00edsico, Stefan Klein, que escreveu um livro sobre o acaso, disse-me este rapaz. De resto, fal\u00e1mos sobre a proximidade entre quem planta e quem come, o cheiro da terra quando n\u00e3o se vive num apartamento, e cal\u00e1mo-nos para ouvir Luca.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">9. Ele sentou-se com uma guitarra el\u00e9ctrica, computador \u00e0 m\u00e3o, um<em>\u00a0link\u00a0<\/em>da Net projectado na parede,<a style=\"color: #d10019;\" href=\"http:\/\/olivrodereclamacoes.tumblr.com\/\"><em>olivrodereclamacoes.tumblr.com<\/em><\/a>: cada filme um poema, cada poema uma can\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o Luca cantava o que tinha escrito e na parede apareciam os filmes feitos para cada texto (uns dele, outros de uma estudante de cinema galega, que tamb\u00e9m mora no Porto). Eu nunca tinha visto um lan\u00e7amento em forma de cinema cantado, concerto filmado, livro de m\u00fasica. Seja como for, \u00e9 para circular pelos becos. Venham da\u00ed, gatos vadios.<\/p>\n<p style=\"color: #222222;\">10. Luca \u00e9 ainda aquele cara de espessa barba ruiva ao centro da roda de samba acabada de nascer na cave do Caf\u00e9 Ceuta. Num dos intervalos, contou-me que caminha no Porto como em cidade pequena, sem quase tomar transporte. Mas tem 26 anos, boa idade para derrubar a monarquia ainda que ela se chame rep\u00fablica brasileira, quer dizer, estar l\u00e1, no olho do cavalo, no transe da rua. Passava da uma da manh\u00e3, noitada de cariocas, baianos, tantos deles m\u00fasicos, uma aniversariante de samba no p\u00e9, dan\u00e7arinos de forr\u00f3, curiosos, p\u00e1ra-quedistas, tudo isso entre o palco e as mesas de snooker, que no Rio se chama sinuca. Era como um bairro extra do Rio ali por cima dos Aliados, de segunda para ter\u00e7a. E ainda aqui estou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/34305985\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/vimeo.com\/34305985\">Plano Acaso<\/a> from <a href=\"http:\/\/vimeo.com\/user9802903\">Raul Mour\u00e3o<\/a> on <a href=\"https:\/\/vimeo.com\">Vimeo<\/a>.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=3157\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu conheci a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho anos atr\u00e1s no Rio de Janeiro em uma festa. 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