{"id":2962,"date":"2014-03-11T18:55:56","date_gmt":"2014-03-11T18:55:56","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=2962"},"modified":"2014-03-11T18:55:56","modified_gmt":"2014-03-11T18:55:56","slug":"gpny-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2962","title":{"rendered":"GP\/NY #4"},"content":{"rendered":"<p>Mais uma colabora\u00e7\u00e3o antiga do Gustavo Prado que coloco agora no ar s\u00f3 agora. Para ver todas as colunas do Gustavo basta clicar GP\/NY na aba das categorias a\u00ed ao lado.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"545\" height=\"409\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/gRP19r3fNqw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe>)<\/p>\n<p>Alegria!<\/p>\n<p>Ontem Mariana me levou para assistir ao document\u00e1rio de Wim Wenders sobre Pina Bausch, e por mais que eu n\u00e3o saiba avaliar se h\u00e1 nele uma real inova\u00e7\u00e3o sobre a forma de filmar dan\u00e7a, n\u00e3o me lembro de ter jamais assistido um uso t\u00e3o necess\u00e1rio dos recursos 3D em cinema. Perto da forma com que foi usado em Pina, outras aplica\u00e7\u00f5es at\u00e9 aqui, s\u00e3o meras anedotas e adere\u00e7os, um toque mon\u00f3tono, monoc\u00f3rdio, do susto ou da vertigem.<\/p>\n<p>Quero ser capaz de escrever mais para frente algo mais apropriado sobre o filme, que me tocou profundamente, sobretudo, por me fazer compreender um pouco melhor a dimens\u00e3o e a import\u00e2ncia de Pina. Estranha essa sensa\u00e7\u00e3o de querer conversar com algu\u00e9m que n\u00e3o faz parte do seu tempo, tenho que parar de sentir isso, essa semana tentei ligar para o Manet e ningu\u00e9m atendeu, agora fiquei pensando em escrever para Pina, mas h\u00e1 que se ter limite.<\/p>\n<p>Impressiona muito a capacidade dela, de pensar do mais profundamente triste e tr\u00e1gico, ao mais engra\u00e7ado e alegre. \u00c9 bonita a forma com que o filme apresenta o uso que ela faz de seus bailarinos, a capacidade que ela tem de incorporar \u00e0s suas narrativas um pouco das origens, dos sentimentos e da identidade de quem dan\u00e7a para ela. Esse v\u00eddeo que escolhi, \u00e9 um dos exemplos mais bonitos disso no filme. E me fez pensar no sentido de express\u00e3o, que j\u00e1 se tornou h\u00e1 muito tempo um chav\u00e3o, um lugar-comum que \u00e9 usado com tanta banalidade na forma de se abordar uma obra de arte, por ser quase sempre a descri\u00e7\u00e3o de um processo dram\u00e1tico no qual o artista expurga seus sentimentos \u00edntimos pela obra. Eca! Coisa cafona, que todos n\u00f3s j\u00e1 ouvimos tantas vezes, principalmente quando se trata de um solista, de um ator ou de um pintor, que s\u00e3o, supostamente, atividades art\u00edsticas mais vinculadas a um certo sentido de individualidade, de autonomia, e com isso &#8211; de \u201cexpressividade\u201d. Pois bem, no caso desse bailarino, o que poder\u00edamos pregui\u00e7osamente\u00a0chamar da sua forma de expressar uma alegria, \u00e9 colocado com t\u00e3o maior interesse e intelig\u00eancia, num momento valioso do filme, em que passamos a conhecer mais sobre o processo dela.<\/p>\n<p>Ele diz que Pina os colocou uma pergunta, sobre como seria um movimento relacionado a alegria, ou \u00e2nimo em movimento, logo em seguida, voc\u00ea ouve ele dizer, num espanhol t\u00e3o bonito, que era uma pergunta linda! E esse \u00e9 o ponto, um dan\u00e7arino trabalha a clareza, gestos largos ou mi\u00fados, que devem dizer tudo, mas n\u00e3o por um desejo indefinido de express\u00e3o, mas como a resposta que encaixa na beleza de uma pergunta. \u00c9 uma d\u00favida, mas ao mesmo tempo um comando e uma dire\u00e7\u00e3o, ela diz \u2013 responda, mas tamb\u00e9m diz \u2013investigue, busque. E tudo isso, mais do que ser desfocado como parte do gesto generalizante que seria chamar a resposta dele de express\u00e3o, tem, na verdade, a ver com escolhas, com afunilar o poss\u00edvel at\u00e9 encontrar o pr\u00f3prio, mais do que o apropriado, o preciso, o que \u00e9 preciso para que seja certo, para que mais do que a beleza da pergunta, seja o assombro da resposta. E com os olhos escancarados nos dizemos baixinho \u2013 sim essa \u00e9 a alegria, eu quero \u00e9 dessa, j\u00e1 que ela pode ser assim!<\/p>\n<p>H\u00e1 naquela alegria, uma inven\u00e7\u00e3o, um jogo novo, pois, \u00e9 claro que n\u00e3o h\u00e1 um mundo de id\u00e9ias em que a forma eterna da alegria esta protegida das sombras da realidade, n\u00e3o \u00e9 nada disso! A alegria vai sendo inventada por todos que foram e ser\u00e3o alegres um dia, por velhos e novos motivos. Aquela alegria \u00e9 uma alegria corpo, uma alegria para m\u00fasculos e m\u00fasica, e s\u00f3 \u00e9 imensa porque \u00e9 dele, e amplia o campo da dan\u00e7a e da alegria por ser uma alegria-dan\u00e7a. Portanto, o que ele trabalha com uma capacidade de s\u00edntese e precis\u00e3o absurdas \u00e9 na transforma\u00e7\u00e3o dessa id\u00e9ia ou desse sentimento em forma, em estrutura, em cad\u00eancia, ritmo, e esses passos que parecem t\u00e3o f\u00e1ceis e intuitivos s\u00f3 o s\u00e3o, gra\u00e7as a muito trabalho.<\/p>\n<p>E para responder a pergunta da alegria \u00e9 preciso tornar o corpo leve e os olhos altos, os passos largos como saltos tolos, tem que ser uma alegria plena de orgulho, de quem encontra um lugar para si no mundo e cabe nele sem quinas ou apertos, \u00e9 alegria de quem n\u00e3o perdeu a inf\u00e2ncia e carrega o menino que \u00e9 si mesmo no colo, coisa de neto gaiato, da bobeira boa que s\u00f3 uma alma quente \u00e9 capaz de sentir. H\u00e1 que se ter ginga, ter a intelig\u00eancia de um Rom\u00e1rio, ser um pouco leviano, muita preocupa\u00e7\u00e3o vira \u00e2ncora e joga pro ch\u00e3o. N\u00e3o! Tem que ser uma alegria que tenha cara de carnaval, tenha brincadeira e deboche, de inicio das f\u00e9rias, de quem corre para mergulhar no mar, de quem acaba de beijar na boca depois de despedir no port\u00e3o quando ainda n\u00e3o se sabe trepar e aquele beijo \u00e9 tudo o que se conhece sobre amar algu\u00e9m. Alegria de ter um filho. De v\u00ea-la saindo do port\u00e3o no aeroporto, de quando a saudade acaba porque j\u00e1 chegou a hora de estar perto. Claro que isso tudo sou eu brincando com texto por n\u00e3o saber brincar com os bra\u00e7os, com as pernas e com o corpo. Tentando dar alegria ao texto, ou inventando dele uma alegria minha.<\/p>\n<p>Mas o ponto \u00e9: &#8211; d\u00e1 para trocar tanta imagina\u00e7\u00e3o e brincadeira, tantas decis\u00f5es que s\u00f3 se tornam resultados, quando o corpo se prepara para ser t\u00e3o imediato, forte e veloz quanto o estalo de uma id\u00e9ia, &#8211; por chamar tudo isso de express\u00e3o? Ah n\u00e3o! A pregui\u00e7a \u00e9 inimiga da inven\u00e7\u00e3o. E chega de pregui\u00e7a, pois se foi poss\u00edvel haver Pina, n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder!<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2962\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma colabora\u00e7\u00e3o antiga do Gustavo Prado que coloco agora no ar s\u00f3 agora. Para ver todas as colunas do Gustavo basta clicar GP\/NY na aba das categorias a\u00ed ao lado. ) Alegria! 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