{"id":295,"date":"2009-05-12T02:39:00","date_gmt":"2009-05-12T02:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=295"},"modified":"2009-05-12T02:39:00","modified_gmt":"2009-05-12T02:39:00","slug":"zii-e-zie-na-camarilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=295","title":{"rendered":"Zii e Zie na Camarilha"},"content":{"rendered":"<p>Catei esse execelente texto do <span class=\"authordata\"> <span class=\"vcard author\"><a href=\"http:\/\/camarilhadosquatro.wordpress.com\/author\/bernieoak\/\" class=\"url fn\">bernardo<\/a><\/span><\/span> sobre o disco novo do CAetano l\u00e1 no <a href=\"http:\/\/camarilhadosquatro.wordpress.com\/\">Camarilha dos Quatro<\/a>.<br \/><!-- .entry-meta -->     <!-- .entry-head -->        <\/p>\n<div class=\"entry-content\">     <!-- or (function_exists('is_tag') and is_tag()) -->     <\/p>\n<div class=\"snap_preview\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-1816\" title=\"caetano\" src=\"http:\/\/camarilhadosquatro.files.wordpress.com\/2009\/05\/caetano1.jpg?w=300&amp;h=300\" alt=\"caetano\" height=\"300\" width=\"300\" \/><\/p>\n<p>Caetano Veloso \u00e9 um dos mais importantes e produtivos artistas brasileiros em atividade. Cantor, compositor, violonista, poeta e cineasta, foi um dos arquitetos do Tropicalismo, movimento cultural capitaneado por artistas baianos, que mesclou vanguardas do s\u00e9culo XX, cultura pop do Brasil e do mundo e  pol\u00edtica, revigorando a m\u00fasica popular e as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas brasileiras em geral. Entre discos solo, colabora\u00e7\u00f5es, parcerias e m\u00fasica para teatro e cinema, Caetano gravou quarenta e dois \u00e1lbuns, sendo <em>Zii e Zie<\/em> o quadrag\u00e9simo terceiro. (B.O.)<\/p>\n<p>* # *<\/p>\n<p>A julgar pelas cr\u00edticas que li a respeito de <em>Zii e Zie<\/em>, suponho que escrever sobre um novo disco de Caetano Veloso deva ser sempre uma tarefa mais que complicada. Primeiro, em virtude da sensibilidade exagerada que o objeto evoca, pois, para o bem e para o mal, ela prejudica consideravelmente a perspectiva cr\u00edtica. Quem ama n\u00e3o sabe bem porque ama, e se derrama em elogios nem sempre proporcionais \u00e0 obra \u2013 como as compara\u00e7\u00f5es a Los Hermanos. Quem odeia, idem, embora geralmente construa argumentos menos convincentes e deixe transparecer aquela implic\u00e2ncia que a verve ir\u00f4nica e falastrona de Caetano cultivou desde que ele se tornou uma figura p\u00fablica. Resultado: o sumo e o sentido da obra se perdem e a proposta \u00e9 pulverizada pelo olhar ideol\u00f3gico e apaixonado.<\/p>\n<p>Outro \u201cempecilho\u201d \u00e9 o fato de que um dos mais perspicazes cr\u00edticos de Caetano, talvez o melhor, seja ele pr\u00f3prio. Atrav\u00e9s de entrevistas e, mais recentemente, do blog <a href=\"http:\/\/www.obraemprogresso.com.br\/\">Obra em progresso<\/a>, Caetano insinua uma indefect\u00edvel habilidade anal\u00edtica, criando elos entre sua produ\u00e7\u00e3o e reflex\u00f5es sobre a cultura, a pol\u00edtica e as artes, \u00e0 moda de um artista como Godard, por exemplo. No caso de <em>Zii e Zie<\/em>, cuja constru\u00e7\u00e3o esteve atrelada ao blog, esta caracter\u00edstica se intensificou na medida em que ele, com o aux\u00edlio de Hermano Vianna, construiu o conceito do \u00e1lbum \u201c\u00e0s claras\u201d, compartilhado o work in progress com f\u00e3s, amigos e parceiros. A\u00ed eu pergunto: o que escrever depois que Caetano, como quem cria um jogo para desconstru\u00ed-lo frente aos jogadores, afirma que \u201cIncompatibilidade de g\u00eanios\u201d \u00e9 uma influ\u00eancia para a sonoridade do \u00e1lbum, pois sendo um samba \u201clac\u00f4nico\u201d, seco, \u201creduzido ao m\u00ednimo\u201d com sua levada marcada e letra cruel, fornece ao grupo par\u00e2metros para a constru\u00e7\u00e3o musical e conceitual do \u00e1lbum? Afinal, de fato os \u201ctransambas\u201d que comp\u00f5em o disco manifestam um despojamento certeiro, seco mas, ao mesmo tempo, minucioso. A sonoridade, como ele mesmo afirma, mant\u00e9m-se numa freq\u00fc\u00eancia r\u00edtmica calcada nas refer\u00eancias que balizam este \u00e1lbum e o anterior, <em>C\u00ea<\/em>, quando os Pixies foram evocados pelos mesmos motivos. Para onde correr, ap\u00f3s coment\u00e1rios t\u00e3o determinantes e objetivamente cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o a<em> Zii e Zie<\/em>?<\/p>\n<p>Creio que afastando todo o af\u00e3 midi\u00e1tico e toda perspectiva ideol\u00f3gica podemos acessar algo al\u00e9m. Assim, me aterei aqui ao resultado efetivo do \u00e1lbum, elencando os elementos que fazem de <em>Zii e Zie<\/em> um belo disco, ainda que o melhor disco recente de Caetano continue a ser <em>Noites do Norte<\/em>. E a\u00ed, passo \u00e0 primeira observa\u00e7\u00e3o, pois reputo este \u00e1lbum, particularmente na can\u00e7\u00e3o \u201cRock\u2019n\u2019Raul\u201d, como uma guinada em seu modo de compor, bem como em rela\u00e7\u00e3o a um registro sonoro mais seco, que d\u00e1 o tom de <em>C\u00ea<\/em> e de <em>Zii e Zie<\/em>. Caetano busca uma sonoridade \u00e1rida porque suas can\u00e7\u00f5es se tornaram mais \u00e1ridas. Os hai kais da fase final de Leminski, em \u201cDistra\u00eddos venceremos\u201d e \u201cLa vie en close\u201d, que foram preconceituosamente encarados como concess\u00e3o, podem dar um par\u00e2metro para esta \u201caridez\u201d a que me refiro: trata-se do \u201cless is more\u201d de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ludwig_Mies_van_der_Rohe\">van der Rohe<\/a>, fato que na biografia art\u00edstica de Caetano pode ser encarado como uma reorienta\u00e7\u00e3o radical, de uma esp\u00e9cie de barroco-pop para um rock minimalista e \u201cbronzeado\u201d, por assim dizer. \u00c9 claro que a alegria solar de \u201cA cor amarela\u201d pode at\u00e9 evocar \u201cNeide Candolina\u201d em Circulad\u00f4, ou mesmo \u201cMusa h\u00edbrida\u201d em <em>C\u00ea<\/em>, mas da\u00ed \u00e9 preciso lembrar que se h\u00e1 uma guinada, ela se realiza em um contexto j\u00e1 bastante espec\u00edfico, o que implica em eventuais recorr\u00eancias e recontextualiza\u00e7\u00f5es. De um modo geral, suas can\u00e7\u00f5es mais recentes tem revelado uma forma mais ligada ao rock no sentido do refr\u00e3o forte e da estrofe com frases mais curtas (\u201cBase de Guant\u00e1namo\u201d, \u201cMenina da Ria\u201d). Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tem\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7as radicais, mas nota-se em <em>Zii e Zie<\/em> um interesse especial tanto no Rio de Janeiro (\u201cLapa\u201d, \u201cFalso Leblon\u201d), particularmente em seus problemas raciais-culturais, tem\u00e1tica que j\u00e1 estava de alguma forma situada em \u201cO her\u00f3i\u201d e que, segundo o pr\u00f3prio Caetano, habita o <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Musica\/0,,MUL1085253-7085,00-CAETANO+LANCA+NOVO+DISCO+E+FALA+SOBRE+A+VELHICE.html\">t\u00edtulo<\/a>. Percebe-se tamb\u00e9m uma vontade irrefre\u00e1vel de falar sobre, descrever, insinuar id\u00e9ias e impress\u00f5es a respeito das rela\u00e7\u00f5es sexuais, como em \u201cSem Cais\u201d e \u201cTarado ni voc\u00ea\u201d. Sem contar uma ironia e, falando mais claramente, um humor, por vezes jocoso, por vezes terr\u00edvel, como no verso \u201cEcstasy, bala, balada \/ E me chama depois \/ Pra dar uma e dar dois\u201d. A prop\u00f3sito, n\u00e3o conhe\u00e7o poeta contempor\u00e2neo que se aproprie do l\u00e9xico coloquial de forma t\u00e3o interessante quanto Caetano, como no exemplo acima, mas tamb\u00e9m em \u201cPerdeu\u201d, a obra-prima de <em>Zii e Zie<\/em>, a faixa mais comovente e impactante que Caetano comp\u00f4s desde \u201cO estrangeiro\u201d.<\/p>\n<p>O lirismo latente nos arranjos de Jacques Morelembaum se adequava perfeitamente \u00e0s composi\u00e7\u00f5es de <em>Circulad\u00f4<\/em>, <em>Livro<\/em> e \u00e0s reinterpreta\u00e7\u00f5es de <em>Fina Estampa<\/em> e <em>A foreign sound<\/em>, mas em Noites do Norte percebia-se um flagrante descompasso. As refer\u00eancias concretas de \u201cZera reza\u201d, o minimalismo de \u201cCobra coral\u201d e o tema da j\u00e1 citada \u201cRock\u2019n\u2019Raul\u201d pediam uma mudan\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o instrumental, que foi dada por Caetano e por Pedro S\u00e1, guitarrista que surgiu no in\u00edcio da d\u00e9cada de noventa com a banda Mulheres q dizem sim, e que tocava como uma combina\u00e7\u00e3o dos estilos de Lanny Gordin e John Frusciante. Para a Banda C\u00ea, Pedro S\u00e1 convidou Marcelo Callado, do lend\u00e1rio (e intrigante) grupo carioca <a href=\"http:\/\/tramavirtual.uol.com.br\/artista.jsp?id=493\">Carne de segunda<\/a> e Ricardo Dias Gomes, ex-tecladista do n\u00e3o menos lend\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/zumbidomato\">Zumbi do Mato<\/a>. O resultado produzido em C\u00ea e, mais particularmente, em <em>Zii e Zie<\/em> casa perfeitamente com a est\u00e9tica punk das can\u00e7\u00f5es recentes de Caetano. Ressalto a beleza  estranha e sinuosa dos ritmos de Callado, sobretudo nas vers\u00f5es \u201ctransamba\u201d de \u201cIncompatibilidade de g\u00eanios\u201d e \u201cIngenuidade\u201d (do grande compositor da Mocidade Independente, Serafim Adriano), ambas tiradas do \u00e1lbum <em>Clementina de Jesus<\/em>, de 1976, com participa\u00e7\u00e3o de Carlos Cacha\u00e7a. E, claro, Pedro S\u00e1, um guitarrista por vezes frio, tamanha a consci\u00eancia manifesta em sua interven\u00e7\u00f5es e levadas. Pedro S\u00e1 n\u00e3o \u00e9 simplesmente um guitarrista de notas e acordes, mas um compositor de climas que, por acaso, se utiliza da guitarra como instrumento. Destaco o solo de \u201cIncompatibilidade de g\u00eanios\u201d e o fascinante arranjo de guitarras para \u201cPerdeu\u201d.<\/p>\n<p>Se os roqueiros identificar\u00e3o o rock, ou os sambistas o samba; se os saudosistas reclamar\u00e3o um Caetano mais atrelado aos anos setentas ou mesmo a um repert\u00f3rio mais \u201cnacional\u201d, devido \u00e0 presen\u00e7a massiva da guitarra; se torcer\u00e3o o bico por opini\u00f5es e eventuais posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do autor; se detalhes externos \u00e0 obra determinarem o modo como algumas pessoas fru\u00edr\u00e3o o disco\u2026 Tudo isso \u00e9 t\u00e3o previs\u00edvel como inevit\u00e1vel. Eu, por mim, s\u00f3 posso dizer que n\u00e3o h\u00e1 aqui nem um disco de rock, nem um disco de samba, muito menos de um artista decadente em busca de revitaliza\u00e7\u00e3o a qualquer custo. Muito pelo contr\u00e1rio. Pode-se at\u00e9 n\u00e3o admirar o trabalho de Caetano, mas n\u00e3o se pode dizer de modo algum que ele \u00e9 um artista entregue \u00e0 auto-complac\u00eancia, pois o que se ouve em <em>Zii e Zie<\/em> \u00e9 a intrigante continuidade de uma carreira, de um modo de compor e, portanto, de refletir sobre a can\u00e7\u00e3o popular, um trabalho em andamento, vivo, intenso, mas paradoxalmente leve, <em>extremamente<\/em> leve\u2026 A maior testemunha desta leveza talvez esteja concentrada no momentos mais dram\u00e1ticos do \u00e1lbum: na l\u00edrica melancolia de \u201cPerdeu\u201d e no ate\u00edsmo sorridente de \u201cDirerentemente\u201d, onde eventuais pol\u00eamicas s\u00e3o dilu\u00eddas por uma po\u00e9tica do movimento, justamente o elemento mais representativo da obra de Caetano, para al\u00e9m de todo o hype e toda baboseira em torno de sua figura. (Bernardo Oliveira)<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=295\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catei esse execelente texto do bernardo sobre o disco novo do CAetano l\u00e1 no Camarilha dos Quatro. Caetano Veloso \u00e9 um dos mais importantes e produtivos artistas brasileiros em atividade. 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