{"id":2647,"date":"2013-11-08T06:25:32","date_gmt":"2013-11-08T06:25:32","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=2647"},"modified":"2013-11-08T06:25:32","modified_gmt":"2013-11-08T06:25:32","slug":"eduardo-coimbra-_-2-esculturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2647","title":{"rendered":"Eduardo Coimbra _ 2 esculturas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/eduardo_coimbra_convite_cat\u00e1logo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2648\" alt=\"eduardo_coimbra_convite_cat\u00e1logo\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/eduardo_coimbra_convite_cat\u00e1logo.jpg\" width=\"766\" height=\"482\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/eduardo_coimbra_convite_cat\u00e1logo.jpg 766w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/eduardo_coimbra_convite_cat\u00e1logo-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/eduardo_coimbra_convite_cat\u00e1logo-600x377.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 766px) 100vw, 766px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A escultura como abrigo<\/p>\n<p>Felipe Scovino<\/p>\n<p>Sempre interessou a Eduardo Coimbra compreender e alargar os sentidos a respeito do que significa paisagem. De uma maneira on\u00edrica, o artista fez com que c\u00e9u e terra se encontrassem em Nuvem (2008) e, portanto, o que era da ordem do ar e da vis\u00e3o pudesse \u2013 poeticamente \u2013 ser finalmente experienciado tamb\u00e9m atrav\u00e9s do toque. Em Asteroides (1999), uma s\u00e9rie de recortes de uma paisagem torna aparente um quebra-cabe\u00e7a que formalmente alude ao astro que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra. \u00c9 a concep\u00e7\u00e3o de um novo mapeamento sobre o mundo, como se tiv\u00e9ssemos voltado \u00e0 Pangeia: um mundo uno e indivis\u00edvel e que, por isso mesmo, s\u00f3 pode habitar o territ\u00f3rio da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, duas outras obras parecem ter um grau de correspond\u00eancia mais pr\u00f3ximo com 2 Esculturas (2013), a obra que est\u00e1 em quest\u00e3o neste breve ensaio, instalada temporariamente na Pra\u00e7a Tiradentes. S\u00e3o elas: Atrav\u00e9s (2002) e Natureza da Paisagem (2007). Na primeira obra, um projeto ainda n\u00e3o executado, o artista prop\u00f5e a fabrica\u00e7\u00e3o de um morro que seria atravessado por manilhas com uma espessura e altura que permitiriam ao p\u00fablico (um adulto com as costas levemente arqueadas seria um par\u00e2metro) percorrer de ponta a ponta aquela natureza artificial. J\u00e1 Natureza da Paisagem, realizada em 2007 no MAM-RJ e em 2011 no Museu de Arte da Pampulha, consistiu no deslocamento simb\u00f3lico da paisagem externa \u2013 ou melhor, vizinha ao museu \u2013 para dentro da institui\u00e7\u00e3o. Milhares de vasinhos de grama foram introduzidos no cubo branco, n\u00e3o efetivamente como uma situa\u00e7\u00e3o de embate com o cubo branco, mas fundamentalmente como uma situa\u00e7\u00e3o de dobra, no sentido deleuziano do termo, como se nada pudesse separar os dois espa\u00e7os, j\u00e1 que eles seriam \u201cum espa\u00e7o de montagem cont\u00ednua\u201d, constituindo um \u201cdentro\u201d que \u00e9 a \u201cdobra do fora\u201d. As curvaturas da dobra se entrela\u00e7ariam sem conseguirmos distinguir o que estaria fora ou dentro.<\/p>\n<p>E \u00e9 neste ponto que esse pequeno hist\u00f3rico das obras de Coimbra se conecta a 2 Esculturas. Instaladas no Centro do Rio de Janeiro em um momento em que a cidade passa por um grave processo de gentrifica\u00e7\u00e3o, especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, aumentos de alugu\u00e9is e mobilidade geogr\u00e1fica de seus moradores, \u00e9 curiosa a forma como a geometria instalativa do artista ressalta o uso de uma escultura como uma casa-abrigo. Discutindo o lugar de uma pr\u00e1tica social da arte e o que difere, e ao mesmo tempo aproxima, espa\u00e7o p\u00fablico e privado (outro tema recorrente na obra do artista), ao ter o seu volume vazado constantemente preenchido por transeuntes da pra\u00e7a, que investem naquela obra como um espa\u00e7o l\u00fadico, ou moradores de rua, que a utilizam como casa, 2 Esculturas p\u00f5e em quest\u00e3o um modelo de modernidade que, com sua ideologia globalizante e perversa \u2013 vis\u00edvel na redistribui\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do espa\u00e7o e dos poderes pol\u00edtico e econ\u00f4mico \u2013, transmite sinais de colapso, como temos assistido desde junho deste ano no Brasil com as manifesta\u00e7\u00f5es populares. A obra 2 Esculturas nos alerta significativamente que os limites entre p\u00fablico e cidad\u00e3o parecem ter sido borrados. H\u00e1 o tom l\u00fadico na obra, mas fundamentalmente o posicionamento da arte como uma a\u00e7\u00e3o coincidente com a pol\u00edtica. Fa\u00e7o refer\u00eancia a outro momento pol\u00edtico das artes que formalmente encontra uma resson\u00e2ncia com esta obra. Numa atitude ideol\u00f3gica, e at\u00e9 certo ponto ut\u00f3pica, a Bauhaus desejou contaminar o mundo com arte. A geometria, aliada a um processo de industrializa\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o nos meios de consumo, estava contida em produtos que variavam de uma caneta at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma casa. Guardadas as devidas especificidades e propor\u00e7\u00f5es, geometria e pol\u00edtica encontram-se novamente em 2 Esculturas.<\/p>\n<p>As novas configura\u00e7\u00f5es que um pensamento arquitet\u00f4nico, como o da escultura em quest\u00e3o, promove na cidade tamb\u00e9m significam refletir sobre a esfera pol\u00edtica da arte. \u00c9 singular o fato de que as duas esculturas est\u00e3o situadas ao lado de um dos monumentos mais antigos da cidade e o quanto esse embate entre o novo e o antigo, o eterno e o transit\u00f3rio, o opaco e o transl\u00facido repercute na continuidade da revers\u00e3o de um espa\u00e7o que se torna cada mais vez penetr\u00e1vel ou fluido para o p\u00fablico, e envolve uma discuss\u00e3o que passa pelo campo da est\u00e9tica at\u00e9 temas sociais como o acesso livre \u00e0s \u00e1reas p\u00fablicas de lazer, cidadania e o sentido de pertencimento \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Em 2 Esculturas, a paisagem funde-se \u00e0 obra. Todo o entorno \u00e9 ativado pela escultura pelo simples fato de ela ser uma estrutura que \u00e9 atravessada pelo olhar. O seu volume \u00e9 \u201cpreenchido\u201d pelo vazio, que nesse caso \u00e9 o pr\u00f3prio espa\u00e7o de apropria\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. \u00c9 ali que a escultura \u00e9 moldada por a\u00e7\u00f5es t\u00e3o d\u00edspares quanto transformar-se num c\u00f4modo ou servir como um anteparo para brincadeiras. \u00c9 o momento em que o espa\u00e7o social e o pol\u00edtico se fundem ao mesmo tempo em que se revela uma das mais significativas contribui\u00e7\u00f5es que a obra de Coimbra traz para o repert\u00f3rio da arte.<\/p>\n<h6><span style=\"color: #000000;\">A est\u00e1tua equestre de D. Pedro I, instalada na pra\u00e7a em 1862.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"color: #000000;\">Em agosto de 2011, a Pra\u00e7a Tiradentes teve as grades que a cercavam por completo retiradas.<\/span><\/h6>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2647\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escultura como abrigo Felipe Scovino Sempre interessou a Eduardo Coimbra compreender e alargar os sentidos a respeito do que significa paisagem. 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