{"id":2603,"date":"2013-10-17T14:58:16","date_gmt":"2013-10-17T14:58:16","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=2603"},"modified":"2013-11-18T19:14:36","modified_gmt":"2013-11-18T19:14:36","slug":"gpny-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2603","title":{"rendered":"GP\/NY #3"},"content":{"rendered":"<p>Mais uma colabora\u00e7\u00e3o antiga do Gustavo Prado\u00a0que coloco agora no ar apesar da exposi\u00e7\u00e3o do Nick Cave n\u00e3o estar mais em cartaz na galeria\u00a0Mary Boone (10\/9 a 22\/10 de 2011&#8230;). Para ver todas as colunas do Gustavo basta clicar GP\/NY na aba das categorias a\u00ed ao lado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery.jpg\"><img loading=\"lazy\" alt=\"Nick Cave na Mary Boone Gallery\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery.jpg\" width=\"454\" height=\"607\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Seres repletos<\/strong><\/p>\n<p>A entrada da galeria Mary Boone no Chelsea \u00e9 bastante discreta, n\u00e3o h\u00e1 nenhum logo extravagante na fachada, apenas uma porta misteriosa que d\u00e1 para uma pequena recep\u00e7\u00e3o, no fundo da qual, como sempre, uma bela mo\u00e7a, sentada de tr\u00e1s de uma grande mesa com cabelo bem cortado, sorri e espia. No canto mais distante da entrada h\u00e1 uma passagem. Olhando por sua abertura, para a luz que por ela escapa, n\u00e3o h\u00e1 nada que possa te preparar para o que est\u00e1 adiante.<\/p>\n<p>Do outro lado, seres coloridos aguardam, estacionados no centro de uma grande sala. Sua presen\u00e7a e o choque causado pelos objetos e materiais que forjam sua forma e sua pele deixam uma forte impress\u00e3o, mesmo naqueles j\u00e1 acostumados a todo tipo de est\u00e1tuas, roupas, corpos, e estranhos tipos de ornamentos que uma cidade t\u00e3o diversa e pluralista quanto Nova York pode apresentar.<\/p>\n<p>Olhando para sua superf\u00edcie, pode-se notar que estes corpos s\u00e3o constru\u00eddos com o ac\u00famulo de estranhos objets trouv\u00e9, como p\u00e1ssaros entalhados, corujas de porcelana, bichos de pel\u00facia, palha\u00e7os de brinquedo \u2013 com suas cambalhotas mec\u00e2nicas, bonecas vodoo, globos escolares, pe\u00f5es de corda, tape\u00e7arias mexicanas, tapetes de banheiros com super-her\u00f3is e personagens de desenho animado estampados, cata-ventos, cornetas e pirulitos, bandeirolas, sombreiros, macacos de pl\u00e1stico, bules e x\u00edcaras, rodas de carro\u00e7a e lantejoulas, bot\u00f5es, purpurina, flores artificiais etc. E uma explos\u00e3o de detalhes e cores que formam uma estranha prociss\u00e3o, um desfile fantasmag\u00f3rico e fant\u00e1stico paralisado \u00e0 espera dos nossos olhos; uma jun\u00e7\u00e3o obsessiva do infantil com o ritual\u00edstico, capaz de causar vertigem e assombro.<\/p>\n<p>Sua identidade parece ser dada pelo sentido ou mem\u00f3ria do uso passado de todos esses objetos e pelas milhares de associa\u00e7\u00f5es disparadas com a sua justaposi\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m de uma aprecia\u00e7\u00e3o do seu valor escult\u00f3rico intr\u00ednseco, fica a impress\u00e3o de que eles transmitem uma cr\u00edtica subliminar. Afinal, quem mais gostaria de ser definido pelos aparelhos e roupas que carrega? Seu exagero parece criar uma caricatura, como uma carapu\u00e7a que serve.<\/p>\n<p>Outro aspecto desses trabalhos pode ser mais facilmente notado ao tomarmos conhecimento das rela\u00e7\u00f5es do artista com a dan\u00e7a, ou se tivermos a sorte de testemunhar um dos momentos em que passam de esculturas a figurinos, para tomar parte numa de suas performances. Cave escreveu coreografias espec\u00edficas para explorar como alguns deles, cobertos com pelos coloridos, criam efeitos impressionantes ao moverem-se, ou para que produzam sons com seu chacoalhar. Eis a raz\u00e3o para que os trajes\/esculturas recebam o nome de \u201cSoundsuit\u201d.<\/p>\n<p>Algumas das figuras mais interessantes desta exposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o feitas de centenas de pe\u00e7as de madeira, reunidas para criar uma topografia r\u00fastica e org\u00e2nica, como uma armadura natural. Elas t\u00eam, no lugar de seus rostos, grandes cestos, criando aberturas que parecem refor\u00e7ar a impress\u00e3o de que se tratam de criaturas sem alma. Elas trazem a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo e n\u00f3s, quando dela nos aproximamos, podemos ser tragados e despencar para dentro do seu vazio. Elas nos lembram tamb\u00e9m o ex\u00e9rcito chin\u00eas de terracota, como se estivessem \u00e0 espera de alguma coisa que fosse reanim\u00e1-los e traz\u00ea-los de volta \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Ao sairmos da exposi\u00e7\u00e3o, ganhamos a rua com a sensa\u00e7\u00e3o de que vimos contradita uma das ideias mais antigas da metaf\u00edsica, ideia essa desenvolvida por Arist\u00f3teles, que anuncia que todo ser tem uma ess\u00eancia respons\u00e1vel por realizar o que fundamentalmente \u00e9, e que deve ret\u00ea-la por necessidade, pois, sem ela, perderia sua identidade. A essa ess\u00eancia ele op\u00f5e a no\u00e7\u00e3o de acidente, ou as propriedades contingentes de um dado objeto sem as quais ele ainda poderia manter sua identidade. A natureza amb\u00edgua das esculturas\/trajes, seres\/personagens que deixamos pra tr\u00e1s na galeria n\u00e3o parece respeitar essa distin\u00e7\u00e3o, pois sua identidade \u00e9 determinada pelos acidentes que sobre ela se acumulam para constitu\u00ed-la. Elas se apresentam, enfim, como a intrincada narrativa da sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles que nos perdoe, mas com Cave ficamos muito mais pr\u00f3ximos das ideias do poeta franc\u00eas Paul Val\u00e9ry, que nos disse para n\u00e3o buscarmos muito al\u00e9m, pois o que h\u00e1 de mais profundo \u00e9 a pele. \u00c9 dela que extra\u00edmos aqui a experi\u00eancia destas obras, que refletem muito bem a n\u00f3s mesmos e a nossa \u00e9poca com a riqueza e a complexidade de sua superficialidade.<\/p>\n<p>aqui o site da galeria com o press release da exposi\u00e7\u00e3o:\u00a0<a href=\"http:\/\/maryboonegallery.com\/exhibitions\/2011-2012\/Nick-Cave\/index.html\">http:\/\/maryboonegallery.com\/exhibitions\/2011-2012\/Nick-Cave\/index.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-2605\" alt=\"Nick Cave na Mary Boone Gallery2\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery2.jpg\" width=\"340\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery2.jpg 340w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery2-224x300.jpg 224w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-2606\" alt=\"Nick Cave na Mary Boone Gallery3\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery3.jpg\" width=\"340\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery3.jpg 340w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery3-224x300.jpg 224w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery4.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-2607\" alt=\"Nick Cave na Mary Boone Gallery4\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery4.jpg\" width=\"340\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery4.jpg 340w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery4-224x300.jpg 224w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a> <a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery5.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-2608\" alt=\"Nick Cave na Mary Boone Gallery5\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery5.jpg\" width=\"340\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery5.jpg 340w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Nick-Cave-na-Mary-Boone-Gallery5-224x300.jpg 224w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a><\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2603\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma colabora\u00e7\u00e3o antiga do Gustavo Prado\u00a0que coloco agora no ar apesar da exposi\u00e7\u00e3o do Nick Cave n\u00e3o estar mais em cartaz na galeria\u00a0Mary Boone (10\/9 a 22\/10 de 2011&#8230;). 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