{"id":2543,"date":"2013-09-25T23:03:06","date_gmt":"2013-09-25T23:03:06","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=2543"},"modified":"2013-10-03T19:38:54","modified_gmt":"2013-10-03T19:38:54","slug":"gpny-1-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2543","title":{"rendered":"GP\/NY #2"},"content":{"rendered":"<p>Gustavo Prado come\u00e7ou a colaborar com o b\u00aeog quando eu estava fazendo a mudan\u00e7a do Blogspot para WordPress. A mudan\u00e7a demorou 6 meses e o b\u00aeog ficou fora de a\u00e7\u00e3o. Nesse periodo ele me mandou um monte de posts que n\u00e3o foram ao ar. Agora resolvi subir tudo ao mesmo tempo apesar das exposi\u00e7\u00f5es comentadas n\u00e3o estarem mais em cartaz. Uma pena termos perdido o calor da hora mas espero que voc\u00eas apreciem os textos do nosso correspondente no Brooklyn. Segue o texto sobre a exposi\u00e7\u00e3o de Cindy Sherman no MoMA. J\u00e1 j\u00e1 coloco mais e mais. Para ver todas as colunas do Gustavo basta clicar GP\/NY na aba das categorias a\u00ed ao lado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image1.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2583\" alt=\"image1\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image1.png\" width=\"480\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image1.png 480w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image1-300x215.png 300w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>A retrospectiva de Cindy Sherman no MoMA<\/strong><\/p>\n<p>Poucos s\u00e3o os artistas de quem podemos dizer que transformaram ou influenciaram de forma t\u00e3o decisiva o debate sobre arte contempor\u00e2nea quanto Cindy Sherman. Ela \u00e9 ao mesmo tempo causa e efeito da preponder\u00e2ncia de Nova York sobre o mundo da arte. Se a rela\u00e7\u00e3o entre Eduard Manet e Paris constitui uma das principais raz\u00f5es para o nascimento da modernidade, talvez um dia tamb\u00e9m seja poss\u00edvel compreender como a p\u00f3s-modernidade tem tanto Nova York quanto Cindy Sherman como grandes simbolos. Seu trabalho \u00e9 herdeiro direto de alguns dos temas que foram formulados nos anos setenta, mas que devem sua internacionaliza\u00e7\u00e3o e predomin\u00e2ncia \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de Sherman. S\u00e3o alguns dos mais not\u00e1veis: a apropria\u00e7\u00e3o, utilizada em seu trabalho como uma lente de aumento capaz de observar nossa Cultura e os pap\u00e9is que nela foram \u201cdeixados\u201d para as mulheres; o uso do corpo como importante suporte para arte no questionamento de estere\u00f3tipos e fronteiras entre diferentes meios; o privil\u00e9gio do conte\u00fado sobre o meio; o engrandecimento do papel do artista, que se torna tanto sujeito quanto objeto, num esfor\u00e7o muito mais complexo que o mero autorretrato; a explora\u00e7\u00e3o e teste da ideia de uma identidade un\u00edvoca e coerente, o interesse pela fotografia, a submiss\u00e3o de sua linguagem ao uso como ferramenta e registro de uma performance; e a hist\u00f3ria da arte como um campo a ser continuamente reinterpretado e re-significado por obras que fazem men\u00e7\u00e3o ao c\u00e2none. Com tantos temas decisivos relacionados \u00e0 sua obra, ela \u00e9 parte de uma grande virada hist\u00f3rica. Enquanto na d\u00e9cada de oitenta o neo-expressionismo tornava homens-pintores famosos e ricos, trabalhos muito mais significativos criaram o que foi provavelmente um dos mais importantes momentos para mulheres na hist\u00f3ria da arte: quando artistas como Diane Arbus, Adrian Piper e Hanna Wilke passaram o bast\u00e3o para Sherman e suas contempor\u00e2neas como Sherrie Levine, Barbara Kruger, Nan Goldin, Jenny Holzer, Kiki Smith, entre outras, que ao extrapolar a ent\u00e3o chamada \u201carte feminista,\u201d colocaram a nova gera\u00e7\u00e3o de mulheres artistas na posi\u00e7\u00e3o de grandes protagonistas da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image2.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2590\" alt=\"image2\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image2.png\" width=\"377\" height=\"540\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image2.png 377w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image2-209x300.png 209w\" sizes=\"(max-width: 377px) 100vw, 377px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Untitled Film Still #27. 1979<\/p>\n<p>Mas, mais do que celebrar a import\u00e2ncia de Cindy Sherman, e especialmente a de sua obra, j\u00e1 laureada com textos de alguns dos mais importantes cr\u00edticos, como Arthur Danto e Rosalind Krauss, devemos assumir o desafio de acrescentar ainda mais. Pois nunca h\u00e1 uma interpreta\u00e7\u00e3o definitiva, sobretudo para trabalhos apontados como capazes de se tornar cl\u00e1ssicos definidores de uma \u00e9poca, como sua emblem\u00e1tica s\u00e9rie \u201cUntitled Films Stills\u201d. A pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssico pressup\u00f5e uma cont\u00ednua atualiza\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o da atualidade e perman\u00eancia da relev\u00e2ncia de uma obra, e n\u00e3o \u00e9 sem ironia que logo uma era que se diz p\u00f3s-hist\u00f3rica produza seus cl\u00e1ssicos, logo uma \u00e9poca que tem no elogio ao ef\u00eamero um de seus tra\u00e7os mais significativos. Por\u00e9m, o mais estranho, \u00e9 que a interpreta\u00e7\u00e3o que tivemos ao nos defrontarmos com o conjunto de trabalhos dispostos em formatos cada vez maiores, at\u00e9 que no final se tornem murais, \u00e9 de que o conjunto dessa retrospectiva montada no MoMA \u00e9 como uma pe\u00e7a. Ou seja, que \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma analogia entre o percurso do espectador pelas salas da exposi\u00e7\u00e3o com o que vive a plateia de um teatro, mais precisamente, uma analogia entre o que a trag\u00e9dia quer ser para seu p\u00fablico. Pois, mais do que mera compara\u00e7\u00e3o entre a performance da artista diante da c\u00e2mera fotogr\u00e1fica e o trabalho do ator, nos cabe buscar ir mais longe e sugerir que o papel ocupado por Cindy Sherman em grande parte de suas personagens \u00e9 o do her\u00f3i tr\u00e1gico. E, ao apontar para esse tra\u00e7o fundamental de sua obra, n\u00e3o podemos evitar o uso dos termos e ideias de Arist\u00f3teles descritos em sua Po\u00e9tica, um livro crucial para o nascimento do pensamento cr\u00edtico sobre arte. Mesmo que isso soe um tanto estranho e anacr\u00f4nico, a refer\u00eancia a um texto t\u00e3o associado a antigos academicismos e dogmas art\u00edsticos nos deve ser permitido. Pois, numa era p\u00f3s-hist\u00f3rica, na qual artistas como Sherman conquistam a liberdade de acessar o passado e recorrer a obras e ideias t\u00e3o antigas para, transformando-as, tamb\u00e9m alterar os arca\u00edsmos que cercam os pap\u00e9is femininos, por que a Po\u00e9tica n\u00e3o poderia vir ao nosso aux\u00edlio e lan\u00e7ar luz sobre obras contempor\u00e2neas? Por que nos abster de ampliar a compreens\u00e3o de ambos, obras e texto, nesta conflu\u00eancia ou colis\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image3.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2589\" alt=\"image3\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image3.png\" width=\"517\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image3.png 517w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image3-300x236.png 300w\" sizes=\"(max-width: 517px) 100vw, 517px\" \/><\/a> Untitled Film Still #12. 1978<\/p>\n<p>Vejamos. Para Arist\u00f3teles, a sorte do her\u00f3i tr\u00e1gico deve mudar da alegria \u00e0 mis\u00e9ria, e a raz\u00e3o da queda do her\u00f3i n\u00e3o vem apenas do destino, mas parte dela deve ser culpa sua, fruto de sua liberdade de escolha, consequ\u00eancia de um erro de julgamento ou falha de car\u00e1ter. Tudo deve resultar de sua imperfei\u00e7\u00e3o, tra\u00e7o muito importante, pois \u00e9 justamente o que permite que nos identifiquemos com o her\u00f3i. Se ele fosse perfeito e todo-poderoso, n\u00e3o nos ver\u00edamos sujeitos aos mesmos erros e acontecimentos que recaem sobre ele, sua jornada seria distante demais e a identifica\u00e7\u00e3o muito mais dif\u00edcil. E sem identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o haveria catarse. Sua queda deve servir para tornar a n\u00f3s todos, o p\u00fablico, mais conscientes e atentos \u00e0s escolhas que temos sempre pela frente. O alerta s\u00f3 se torna memor\u00e1vel, e, a experi\u00eancia, cat\u00e1rtica, se a trag\u00e9dia imitar a\u00e7\u00f5es que despertem medo e piedade, para que por fim possamos nos purificar de tais emo\u00e7\u00f5es. Mas de que nos serve, hoje, essa purifica\u00e7\u00e3o? E como uma obra de arte contempor\u00e2nea poderia oper\u00e1-la? Cindy Sherman, desde o in\u00edcio, se refere aos seus personagens como has-beens, mulheres deca\u00eddas, no desespero do momento em que tomam consci\u00eancia do seu desfort\u00fanio. Uma de suas primeiras personagens da \u201cUnited Series\u201d tem uma mala aberta sobre a cama, que parou de preencher com roupas amassadas para chorar compulsivamente. Outra foto mostra uma mo\u00e7a de p\u00e9 na estrada vazia a noite, \u00e0 espera de uma carona. Em mais uma, outra mulher olha fixamente para o telefone, numa imagem de um imenso arca\u00edsmo \u2013 mais uma espera, num rosto que \u00e9 misto de vazio, dor e ansiedade. Elas todas parecem t\u00e3o sozinhas e sofrendo tanto, que n\u00e3o podemos evitar a pergunta sobre quais escolhas ou circunst\u00e2ncias as levaram a esse estado. E mesmo que n\u00e3o a julguemos, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o sentir ao mesmo tempo pena e empatia, ou medo de que sua mis\u00e9ria algum dia possa ser a nossa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image4.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2588\" alt=\"image4\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image4.png\" width=\"450\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image4.png 450w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image4-300x235.png 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Untitled #90. 1981<\/p>\n<p>Em outra s\u00e9rie, \u201cSex Pictures\u201d \u2013 agora dos anos 90 \u2013, a apar\u00eancia \u00e9 t\u00e3o artificialmente encenada, com o uso de prost\u00e9ticos e bonecas m\u00e9dicas, que a nudez, ao inv\u00e9s de excitar, causa repugn\u00e2ncia. Como se nosso pr\u00f3prio impulso de projetar lux\u00faria e desejo se voltasse contra n\u00f3s. Como se a substitui\u00e7\u00e3o de corpos de verdade por objetos t\u00e3o esquem\u00e1ticos nos mostrasse nosso desprezo pela mulher real, que precisa ser esquecida para ser utilizada como mero canal e suporte para uma exper\u00eancia er\u00f3tica. Mais do que o can\u00f4nico embate entre o nu e a nudez, a imagem da artista precisa, nesses trabalhos, desaparecer, num esfor\u00e7o para colocar o nosso olhar e o papel de uma audi\u00eancia \u00e1vida por imagens femininas no centro do palco. O grotesco dos \u00f3rg\u00e3os sexuais, e dos olhos ora reais, oras falsos, que de dentro das m\u00e1scaras nos veem, nos lembram que n\u00f3s tamb\u00e9m podemos nos tornar objetificados. Eles tamb\u00e9m parecem desinteressados da nossa humanidade, e nos percorrem em busca de \u00f3rg\u00e3os e membros tanto quanto os nossos olhos h\u00e1 pouco faziam.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image6.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2586\" alt=\"image6\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image6.png\" width=\"600\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image6.png 600w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image6-300x203.png 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a> Untitled #264. 1992<\/p>\n<p>Na sala seguinte, um alivio moment\u00e2neo, pois em \u201cFashion Series\u201d, ou \u201cSociety Portraits,\u201d a objetifica\u00e7\u00e3o do corpo \u00e9 algo a ser medido, refinado, pelas pr\u00f3prias personagens, mulheres que, na busca pela beleza e aten\u00e7\u00e3o dela proveniente, parecem explorar os limites da vulgaridade e flertar com o risco de exagerar seus esfor\u00e7os na constru\u00e7\u00e3o de suas imagens. Sherman n\u00e3o esconde suas cirurgias, sua maquiagem pesada. As pr\u00f3teses utilizadas na caracteriza\u00e7\u00e3o apenas refor\u00e7am o exagero que \u00e9 parte de suas pr\u00f3prias personalidades e esfor\u00e7os de projetar imagens mais poderosas, desej\u00e1veis, felizes e jovens. \u00c9 um jogo tr\u00e1gico, pois, quanto mais alta a escalada na busca por padr\u00f5es t\u00e3o artificiais, maior a queda e mais escancarados os \u201cdefeitos\u201d que buscam mascarar. Sua vaidade serve como medida de sua vulnerabilidade. E claro que sentimos piedade por elas, mas qu\u00e3o f\u00e1cil n\u00e3o seria desviar esses olhares afiados sobre nossos pr\u00f3prios esfor\u00e7os por mascarar e esconder nossas falhas? E, mesmo como p\u00fablico, tememos esses mesmos olhos escrutinadores que n\u00e3o conseguimos evitar usar. A identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o veloz que tamb\u00e9m despencamos de cima do deboche para o fundo do desconforto.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image7.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2585\" alt=\"image7\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image7.png\" width=\"390\" height=\"585\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image7.png 390w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image7-199x300.png 199w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Untitled #467. 2008<\/p>\n<p>A escolha por retratar uma mulher em quase todas as obras se coloca como mais do que um desafio a estigmas e estere\u00f3tipos. \u00c9 um esfor\u00e7o por tornar as imita\u00e7\u00f5es verdadeiras, mas n\u00e3o no sentido de tornar sua representa\u00e7\u00e3o real\u00edstica e precisa, j\u00e1 que muitos dos subterf\u00fagios do que est\u00e1 sendo encenado podem ser vistos t\u00e3o claramente. S\u00e3o imita\u00e7\u00f5es verdadeiras na medida em que nos permitem ver a cada retrato n\u00e3o como caricatura, mas como a uma pessoa, e, mesmo que ainda conscientes da imita\u00e7\u00e3o, nos assombramos com sua familiaridade. \u00c9 isso que torna poss\u00edvel a identifica\u00e7\u00e3o, e essa proximidade nos aterroriza a cada sala, at\u00e9 o momento de deixarmos a exposi\u00e7\u00e3o. Sa\u00edmos dela purificados de nossa piedade e nosso medo, mais leves com o sentimento de que nossas mis\u00e9rias e nosso destino n\u00e3o ser\u00e3o t\u00e3o expostos, de que n\u00e3o precisaremos nos colocar diante de t\u00e3o inquisidores olhos, nosso defeitos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvios, nossas dores n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o profundas, nossa auto-engana\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o p\u00fablica. Nos sentimos aliviados pela sensa\u00e7\u00e3o de que estamos salvos uns dos outros, n\u00e3o estamos? E, mesmo dentro da conformidade e prote\u00e7\u00e3o de nossas rotinas, sabemos que, enquanto houver arte e her\u00f3is tr\u00e1gicos, n\u00e3o podemos evitar a consci\u00eancia de nossa fragilidade, n\u00e3o podemos dizer que n\u00e3o fomos avisados. N\u00e3o podemos nos esquecer de aproveitar melhor as horas. Das paredes, as mulheres deca\u00eddas de Sherman observam.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image8.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2584\" alt=\"image8\" src=\"https:\/\/archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image8.png\" width=\"390\" height=\"491\" srcset=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image8.png 390w, https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image8-238x300.png 238w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Untitled #461. 2007-08<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=2543\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Prado come\u00e7ou a colaborar com o b\u00aeog quando eu estava fazendo a mudan\u00e7a do Blogspot para WordPress. 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