{"id":251,"date":"2009-04-11T11:58:00","date_gmt":"2009-04-11T11:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=251"},"modified":"2009-04-11T11:58:00","modified_gmt":"2009-04-11T11:58:00","slug":"caetano-veloso-disse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=251","title":{"rendered":"Caetano Veloso disse:"},"content":{"rendered":"<p>Caetano subiu ontem uma entrevista com o baterista Marcelo Calado, outra com o baixista Ricardo Dias Gomes e o release do disco novo \u201czii e zie\u201d. Tudo l\u00e1 no <a href=\"http:\/\/www.obraemprogresso.com.br\/\">blog Obra em Progresso<\/a>.<\/p>\n<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SeCS9w5Nf5I\/AAAAAAAABu4\/IPtmAzfeoaE\/s1600-h\/zii_e_zie_caetano.jpg\"><img style=\"cursor: pointer; width: 400px; height: 202px;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SeCS9w5Nf5I\/AAAAAAAABu4\/IPtmAzfeoaE\/s400\/zii_e_zie_caetano.jpg\" alt=\"\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5323416349346463634\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>release:<\/p>\n<p>Um passo a dar com a banda do \u201cC\u00ea\u201d (hoje bandaC\u00ea) e a lembran\u00e7a permanente <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E9OuD6xagLE\">daquele disco de Clementina com Carlos Cacha\u00e7a<\/a>. \u201cIncompatibilidade de g\u00eanios\u201d e \u201cIngenuidade\u201d est\u00e3o em \u201czii e zie\u201d porque s\u00e3o as faixas n\u00facleo daquele disco, as que ficaram sempre acesas na mem\u00f3ria. N\u00e3o tenho um exemplar do disco de Celementina comigo. Talvez um vinil tenha ficado na casa de Ded\u00e9 e hoje Moreno o achasse. Mas nem perguntei a ele. Num dos primeiros ensaios do Obra em Progresso, aquele em que Jaquinho foi o convidado, quis ensaiar \u201cIncompatibilidade\u201d e comentei com Pedro, Ricardo e Marcelo que na minha lembran\u00e7a Clementina cantava em, digamos, d\u00f3 maior, em vez do l\u00e1 menor do Jo\u00e3o Bosco. Tinha na mem\u00f3ria uma harmonia mais convencional quando ouvi a grava\u00e7\u00e3o desse samba com o autor pela primeira vez: a que tinha ouvido antes com Clementina. Achei que Jo\u00e3o Bosco tinha feito uma rearmoniza\u00e7\u00e3o e desejei voltar ao jeito que est\u00e1 no disco dela. Mas n\u00e3o estava certo de que minha lembran\u00e7a n\u00e3o fosse uma ilus\u00e3o. Jaquinho ent\u00e3o disse: \u201cpor que voc\u00ea n\u00e3o faz em d\u00f3 maior, se \u00e9 isso que voc\u00ea est\u00e1 sentindo?\u201d. Tentei achar a grava\u00e7\u00e3o de Clementina ali na hora (Moreno n\u00e3o ia aos ensaios), na internet, mas n\u00e3o achei. Achei uma exuberante e espetacular de Jo\u00e3o Bosco ao vivo no YouTube. Em l\u00e1 menor, claro. Me pergunto se h\u00e1 muita coisa melhor do que aquilo no mundo. Mas minha id\u00e9ia era totalmente oposta \u00e0 daquele tratamento jazz\u00edstico moderno e com um su\u00edngue de samba t\u00e3o profundamente sentido por todos os m\u00fasicos que chega a doer. Voltei para a sala de ensaio com vontade de talvez nem cantar a m\u00fasica. E com a certeza de que, se o fizesse, seria em l\u00e1 menor: o d\u00f3 maior seria bonito numa vers\u00e3o ing\u00eanua que quisesse ser o que Clementina soava pra mim. Na vers\u00e3o simplificada mas nada ing\u00eanua que eu imaginava, o centro tonal em l\u00e1 menor &#8211; e os acordes tensos ao seu redor &#8211; era o que se exigia. A batida mon\u00f3tona tinha de o ser tanto quanto a de \u201cPerdeu\u201d, embora um tanto diferente: partindo da id\u00e9ia b\u00e1sica da batida de Bosco. Experimentamos. E a can\u00e7\u00e3o entrou n\u00e3o s\u00f3 no show seguinte como est\u00e1 no disco. Me demoro contando sobre a entrada de \u201cIncompatibilidade de g\u00eanios\u201d (e algo sobre a de \u201cIngenuidade\u201d) em \u201czii e zie\u201d porque acho que isso joga luz sobre todo o sentido do novo disco. Conhecendo o que eu sugeri para \u201cPerdeu\u201d (e o que, juntos, conseguimos com esse transamba), os 3 caras da banda intu\u00edam o que deveria estar em minha cabe\u00e7a como tratamento para \u201cIncompatibilidade\u201d. Mas as mudan\u00e7as por que o projeto de arranjo passou em minha mente eles n\u00e3o acompanharam. Voltei do computador decidido a incluir a m\u00fasica no disco e dizendo que a vers\u00e3o de Jo\u00e3o era humilhante mas que a gente faria um \u201ctransamba\u201d, enquanto ele fazia \u201csamberklee\u201d. A piada era boa e fez rir. N\u00e3o d\u00e1 para competir: nossa vers\u00e3o apenas mostra uma abordagem diferente, que talvez suscite outras interpreta\u00e7\u00f5es desse samba obra-prima. Isso diz muito do que fazemos, neste disco, com o samba em geral.<\/p>\n<p>De \u201cDiferentemete\u201d (a mais velha das can\u00e7\u00f5es do CD) a \u201cLapa\u201d (a mais nova), todas as composi\u00e7\u00f5es nasceram comigo usando batidas de samba no meu viol\u00e3o &#8211; e buscando frases mel\u00f3dicas que evocassem a tradi\u00e7\u00e3o do g\u00eanero. As \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es talvez sejam \u201cPor quem?\u201d e \u201cSem cais\u201d. Digo \u201ctalvez\u201d porque para \u201cPor quem?\u201d sempre imaginei uma bateria dobrando uma transbossanova sobre o tern\u00e1rio \u00e0s avessas do meu viol\u00e3o &#8211; e a balada de \u201cSem cais\u201d j\u00e1 veio \u00e0 mente de Pedro com muito samba dentro. Pode ser que algu\u00e9m ache dif\u00edcil reencontrar isso em \u201cMenina da Ria\u201d ou mesmo em \u201cLob\u00e3o tem raz\u00e3o\u201d. Mas eu digo que, embora em \u201cA cor amarela\u201d haja expl\u00edcitas palmas de samba-de-roda, h\u00e1 mais samba na base daquelas duas can\u00e7\u00f5es (e em \u201cTarado ni Voc\u00ea\u201d) do que no ax\u00e9 light da menina preta. Mantive as minhas batidas de viol\u00e3o do momento da composi\u00e7\u00e3o em todas as grava\u00e7\u00f5es. Sugeri rela\u00e7\u00f5es de contraste ou de distor\u00e7\u00e3o entre elas e a atividade dos outros instrumentistas. Chegamos a coisas muito bonitas e, mesmo para n\u00f3s, intrigantes. <\/p>\n<p>\u201czii e zie\u201d \u00e9 um disco feito com a bandaC\u00ea, concebido para ela. Ela tinha sido concebida para fazer o \u201cC\u00ea\u201d. Por isso h\u00e1 mais unidade na partida do \u201cC\u00ea\u201d do que na chegada, ao passo que h\u00e1 mais unidade na chegada do que na partida do \u201czii e zie\u201d. Para n\u00f3s quatro foi custoso reconhecer essa verdade (que pareceu \u00f3bvia a ouvintes n\u00e3o envolvidos na feitura). \u201cC\u00ea\u201d foi concebido para criar uma banda. Mas foi um disco de letras muito pessoais minhas. Eu olhava para meu entorno pr\u00f3ximo. Em \u201czii e zie\u201d, as letras olham para mais longe. At\u00e9m-se majoritariamente ao Rio, mas a\u00ed vai a lugares variados: da favela ao Leblon, da Lapa \u00e0 praia; de Chico Alves a Los Hermanos; de an\u00f4nimos t\u00edpicos a celebridades at\u00edpicas, como Kassin, a combina\u00e7\u00f5es inusitadas de personalidades cariocas, como Guinga e Pedro S\u00e1. Mas as letras olham para mais longe de mim tamb\u00e9m: Guant\u00e1namo, grutas do Afeganist\u00e3o, Washington. Voltam os nomes pr\u00f3prios e o tom de coment\u00e1rio dos signos dos tempos que sempre fizeram presen\u00e7a em meu repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Tudo contribuiu para que este viesse a ser um disco mais de banda do que o anterior. Moreno e Daniel Carvalho ficaram mais felizes com o material sonoro que produz\u00edamos. E n\u00f3s nos sent\u00edamos ainda mais relaxados no di\u00e1logo com eles dentro do est\u00fadio. Pedro foi mais um produtor que dirige a feitura da m\u00fasica. Moreno, mais um produtor que dirige a feitura do som. Daniel era respons\u00e1vel pela t\u00e9cnica de capta\u00e7\u00e3o. Moreno tem um ouvido muito fino para grava\u00e7\u00e3o, mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o. Ele ilumina os t\u00e9cnicos. E o tratamento sonoro que ele e Daniel trazem ilumina a m\u00fasica.<\/p>\n<p>\u201czii e zie\u201d \u00e9 um disco muito claro e denso, nascido num ano de chuvas no Rio, um ano de nuvens pesadas e escuras, sem met\u00e1fora. \u00c9 um disco que sa\u00fada a era Fernando Henrique\/Lula e fala de ambi\u00e7\u00f5es de ascen\u00e7\u00e3o do Brasil no cen\u00e1rio mundial num tom de tristeza \u00edntima mitigada. Entro na velhice. Pedro e Moreno est\u00e3o no auge da idade adulta. Marcelo e Ricardo chegam a ela. Somos pessoas de gera\u00e7\u00f5es diferentes partilhando interesses muiscais e humanos semelhantes. E com assustadas expectativas de futuro soando em nossas cordas met\u00e1licas, pl\u00e1sticas, mucosas.<\/p>\n<p>Caetano Veloso.<\/p>\n<p>P.S.: Soube por <a href=\"http:\/\/antoniocicero.blogspot.com\/2007\/10\/francisco-bosco-o-indireto-afetivo-na.html\">Francisco Bosco<\/a> que Jo\u00e3o, pai dele, acaba de gravar \u201cIngenuidade\u201d tamb\u00e9m. Eu gravei sem nem reouvir o disco de Clementina: apenas a lembran\u00e7a do que julguei ter ouvido. Gravei com erros (um deles um tanto s\u00e9rio) na letra. Ou\u00e7am a grava\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o quando sair, para corre\u00e7\u00e3o. Ou voltem, se acharem, \u00e0 de Clementina (simplesmente celestial). \u00c9 um modo de mostrarmos respeito a esse extrapordin\u00e1rio sambista de nome extraordin\u00e1rio: <a href=\"http:\/\/www.dicionariompb.com.br\/verbete.asp?tabela=T_FORM_A&amp;nome=Serafim+Adriano\">Serafim Adriano<\/a> (o anjo imperador, como Francisco e eu dissemos em un\u00edssono ontem na Cinemath\u00e8que, depois do show de <a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/jonassah\">Jonas S\u00e1<\/a>).<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=251\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caetano subiu ontem uma entrevista com o baterista Marcelo Calado, outra com o baixista Ricardo Dias Gomes e o release do disco novo \u201czii e zie\u201d. 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