{"id":235,"date":"2009-03-30T22:55:00","date_gmt":"2009-03-30T22:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=235"},"modified":"2009-03-30T22:55:00","modified_gmt":"2009-03-30T22:55:00","slug":"paulo-sergio-duarte-disse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=235","title":{"rendered":"Paulo Sergio Duarte disse:"},"content":{"rendered":"<p>Em entrevista no <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/index.cfm?cd_pagina=2720&amp;cd_materia=848\">site do Itau Cultural<\/a><br \/>Por Mariana Sgarioni | Fotos Cia de Foto<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel classificar uma obra de arte? De que maneira essa obra se torna reconhecida? E, afinal de contas, o que pode ser chamado de arte? Por mais que estejam presentes em v\u00e1rias discuss\u00f5es sobre cultura, essas quest\u00f5es dificilmente s\u00e3o respondidas de forma objetiva. &#8220;N\u00e3o espere uma resposta certeira e matem\u00e1tica&#8221;, brinca Paulo Sergio Duarte, curador da exposi\u00e7\u00e3o <em>Rumos Artes Visuais &#8211; Trilhas do Desejo<\/em>, que apresenta, at\u00e9 maio, no Ita\u00fa Cultural, em S\u00e3o Paulo, os artistas premiados na edi\u00e7\u00e3o 2008-2009 do programa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de curador, Duarte \u00e9 cr\u00edtico, professor de hist\u00f3ria da arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro. Desde 1973, vem se debru\u00e7ando em leituras e estudos sobre a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Na \u00e9poca estava radicado em Paris por causa do regime militar brasileiro e escreveu seu primeiro artigo sobre o artista Antonio Dias. A partir da\u00ed, publicou livros, deu aulas, e \u00e9 hoje uma refer\u00eancia no que diz respeito \u00e0 arte brasileira. Neste m\u00eas, lan\u00e7a seu livro, <em>Arte Brasileira Contempor\u00e2nea &#8211; Um Prel\u00fadio<\/em> (Silvia Roesler Edi\u00e7\u00f5es de Arte e Plajap), que vir\u00e1 acompanhado de CD-ROM e DVD dirigido por Murilo Salles. &#8220;Resolvi explicar a arte para meus amigos engenheiros, advogados e m\u00e9dicos&#8221;, diverte-se este bem-humorado paraibano que mora no Rio de Janeiro, referindo-se ao didatismo de sua obra. Com o mesmo bom humor e um caldeir\u00e3o de refer\u00eancias hist\u00f3ricas, Duarte pontua esta entrevista com observa\u00e7\u00f5es como &#8220;a arte deve nos mobilizar, mostrar que somos incompletos, que nos falta alguma coisa. Isso sim \u00e9 arte&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 ser contempor\u00e2neo? Qual \u00e9 o limite da modernidade?<\/strong><br \/>H\u00e1 fatores que indicam que certos limites foram alcan\u00e7ados na modernidade. Do ponto de vista moral e \u00e9tico, h\u00e1 o limite dado por dois fen\u00f4menos hist\u00f3ricos marcantes: o holocausto e as bombas at\u00f4micas sobre Hiroshima e Nagasaki. O holocausto porque nunca antes uma m\u00e1quina do Estado havia sido colocada a servi\u00e7o de uma ideologia que pretendia a pureza \u00e9tnica e que sacrificou 6 milh\u00f5es de pessoas. O outro limite (o das bombas) \u00e9 dado quando os Estados Unidos, a maior democracia do mundo, a mais avan\u00e7ada estrutura pol\u00edtica e econ\u00f4mica, decidem matar dezenas de milhares de civis em poucos segundos para acabar com a Segunda Guerra. No campo da arte, a maturidade da modernidade se d\u00e1 logo no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Vemos tr\u00eas aspectos completamente diferentes. O primeiro \u00e9 dado por um sujeito da raz\u00e3o. Ele atua na arte acreditando fortemente nas conquistas da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica e pensa que isso pode resultar num universo mais harmonioso, numa vida melhor. Esse horizonte \u00e9 marcado pelo movimento <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=termos_texto&amp;cd_verbete=3780\" target=\"_blank\">construtivista<\/a>. Um segundo ponto \u00e9 o sujeito da vontade, que critica esse universo da raz\u00e3o, aponta para a sociedade e mostra que toda a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica n\u00e3o melhoraram a vida. \u00c9 uma forma de romantismo que se manifesta com muita clareza no predom\u00ednio dos valores da exist\u00eancia humana sobre os puramente racionais, e que \u00e9 muito forte no <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=termos_texto&amp;cd_verbete=3784\" target=\"_blank\">expressionismo<\/a> alem\u00e3o. Essa linha \u00e9 bastante clara em todo o s\u00e9culo XX. Um terceiro aspecto, que tem grande for\u00e7a at\u00e9 hoje, \u00e9 o sujeito da cr\u00edtica radical da cultura. Ele aparece na Primeira Guerra, no dada\u00edsmo, que se desdobra no surrealismo. Trata-se de uma clara nega\u00e7\u00e3o de que os valores racionais governam o ser humano. Para essa corrente, somos governados por for\u00e7as interiores \u00e0s quais n\u00e3o temos acesso. \u00c9 o inconsciente, impregnado pela descoberta freudiana. A quest\u00e3o trazida por <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marcel_Duchamp\" target=\"_blank\">Duchamp<\/a> \u00e9 t\u00e3o importante que merece um cap\u00edtulo \u00e0 parte. Embora ele atue na cr\u00edtica radical da cultura, tamb\u00e9m coloca problemas do ponto de vista cognitivo e at\u00e9 epistemol\u00f3gico da arte. Sua contribui\u00e7\u00e3o tem sido subestimada por diversos cr\u00edticos, mas seu valor \u00e9 o de colocar limites no que \u00e9 arte, onde ela termina e onde come\u00e7a o que n\u00e3o \u00e9 arte. \u00c9 preciso uma leitura mais detalhada de Duchamp do que essa que vem sendo feita hoje &#8211; colocam-se as conquistas desse artista de uma forma prosaica, quando n\u00e3o, leviana.<\/p>\n<div style=\"padding-left: 5px; float: right; padding-bottom: 5px;\"><img style=\"border-color: white;\" src=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/bcodeimagens\/imagens_publico\/01330209439P.jpg\" border=\"4\" \/><\/div>\n<p><strong>Como \u00e9 poss\u00edvel estabelecer par\u00e2metros de avalia\u00e7\u00e3o para a arte?<\/strong><br \/>Toda avalia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica foi e vai ser um ju\u00edzo de valor. Se assim \u00e9, ela ser\u00e1 sempre de natureza subjetiva. N\u00e3o existem crit\u00e9rios objetivos, nem houve, nem nunca vai haver, para avaliar uma obra de arte, seja ela qual for. O que existem s\u00e3o consensos, que s\u00e3o estabelecidos por uma coletividade que est\u00e1 de acordo com certos valores. Um exemplo: a <em>Nona<\/em> [sinfonia] de Beethoven. Pode-se tocar essa m\u00fasica no Jap\u00e3o, na \u00c1frica do Sul, no Marrocos, nos Estados Unidos ou no Brasil que sempre vai haver um consenso. Ou seja: grande quantidade de pessoas estar\u00e1 de acordo que aquela m\u00fasica tem valor, agrada, \u00e9 importante. Antes de escutar aquilo, a pessoa era uma. E, depois de escutar, ela virou outra, percebendo ou n\u00e3o essa mudan\u00e7a. O crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 dado, tamb\u00e9m, pela experi\u00eancia da arte. N\u00e3o h\u00e1 outra forma de acesso \u00e0 arte que n\u00e3o seja fruindo a sua experi\u00eancia. Posso ter a experi\u00eancia da queda de um corpo sem me jogar da janela. Mas n\u00e3o posso &#8220;fazer&#8221; a experi\u00eancia de uma m\u00fasica, um poema, um romance, uma pintura, uma instala\u00e7\u00e3o sem ter fruido aquela experi\u00eancia. A descri\u00e7\u00e3o de um poema n\u00e3o \u00e9 o poema. A fotografia de uma pintura n\u00e3o \u00e9 a pintura. A escrita da pauta da m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica. Com base na experi\u00eancia da arte se chega aos consensos. Grande quantidade de pessoas percebe que aquela experi\u00eancia \u00e9 importante, que determinada obra \u00e9 melhor que outra. Existe a possibilidade de demonstrar isso como uma equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica? N\u00e3o. Mas temos valores hist\u00f3ricos estabelecidos em padr\u00f5es que dizem que uma obra \u00e9 melhor que outra. S\u00e3o crit\u00e9rios subjetivos armazenados numa experi\u00eancia coletiva. Ent\u00e3o, para estabelecer que um trabalho art\u00edstico \u00e9 melhor ou pior que outro, em primeiro lugar \u00e9 preciso ver a experi\u00eancia coletiva de um consenso que se re\u00fane em torno de determinadas obras. Essa experi\u00eancia da arte s\u00f3 se faz pela repeti\u00e7\u00e3o. Quem vai a uma exposi\u00e7\u00e3o uma vez por ano n\u00e3o entende de arte. Quem l\u00ea um livro de poesia por ano e diz que gosta de poesia n\u00e3o entende desse g\u00eanero. Quem gosta de m\u00fasica e n\u00e3o a escuta todo dia por falta de tempo n\u00e3o tem a experi\u00eancia da m\u00fasica. Pode at\u00e9 gostar, mas n\u00e3o tem a experi\u00eancia. A repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. Os conceitos se formam pela repeti\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. Portanto: n\u00e3o existe crit\u00e9rio objetivo, mas existe a possibilidade de reunir consensos em torno de certas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia o cen\u00e1rio da arte contempor\u00e2nea brasileira e como o pa\u00eds se insere no contexto mundial?<\/strong><br \/>A arte contempor\u00e2nea tem uma hist\u00f3ria e \u00e9 um processo que vem desde cinco d\u00e9cadas. A arte brasileira \u00e9 uma das que t\u00eam mais vitalidade no mundo contempor\u00e2neo. Ela tem o poder de compreender claramente o seu tempo. Isso se d\u00e1 numa experi\u00eancia radical de passagem da modernidade \u00e0 contemporaneidade, materializada na obra de dois artistas: <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=2566&amp;cd_item=3&amp;cd_idioma=28555\" target=\"_blank\">Lygia Clark<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=2020&amp;cd_item=1&amp;cd_idioma=28555\" target=\"_blank\">H\u00e9lio Oiticica<\/a>. H\u00e1 outros desdobramentos positivos nos anos 1970, com obras de <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=556&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Antonio Dias<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=3544&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Waltercio Caldas<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=581&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Cildo Meireles<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=3441&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Tunga<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=870&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Jos\u00e9 Resende<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=579&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Carmela Gross<\/a>. S\u00e3o configura\u00e7\u00f5es muito poderosas do mundo presente. Isso veio alimentando as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, sempre estimuladas por eles, que foram elaborando suas pr\u00f3prias quest\u00f5es. O que dificulta uma maior clareza da for\u00e7a da arte contempor\u00e2nea brasileira \u00e9 o vazio institucional que o pa\u00eds vive. A produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea tem presen\u00e7a rarefeita nos principais museus do Brasil. Coisas est\u00e3o acontecendo, como o Centro de Arte Contempor\u00e2nea de Inhotim (MG), mas ainda falta um peso, uma densidade. No contexto mundial, est\u00e1 come\u00e7ando a haver um reconhecimento, artistas brasileiros est\u00e3o sendo citados em bibliografias internacionais do universo acad\u00eamico. Hoje j\u00e1 existe um importante acervo brasileiro l\u00e1 fora. A aquisi\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o Adolpho Leirner [pelo Museum of Fine Arts, Houston, Estados Unidos] \u00e9 significativa, e um artista vivo e atuante como Cildo Meireles ter uma exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva na Tate Modern, Londres [encerrada em janeiro], \u00e9 um reconhecimento da contribui\u00e7\u00e3o dessa arte contempor\u00e2nea. Duas obras que est\u00e3o entre as melhores de arte contempor\u00e2nea que vi nos \u00faltimos tempos s\u00e3o de artistas brasileiros: a instala\u00e7\u00e3o de Tunga <em>A Luz de Dois Mundos<\/em>, no Louvre, Paris, em 2005, e <em>Babel<\/em>, de Meireles, na Tate. S\u00e3o obras que representam o melhor que existe em arte e pol\u00edtica nos dias de hoje: n\u00e3o s\u00e3o panflet\u00e1rias, s\u00e3o indiretas, com uma cr\u00edtica contundente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do mundo atual.<\/p>\n<div style=\"padding-right: 5px; float: left; padding-bottom: 5px;\"><img style=\"border-color: white;\" src=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/bcodeimagens\/imagens_publico\/013302094418.jpg\" border=\"4\" \/><\/div>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel identificar alguma particularidade da arte contempor\u00e2nea brasileira no plano global?<\/strong><br \/>Tenho certa dificuldade de indicar tra\u00e7os tipicamente brasileiros na arte mais atual. Existe at\u00e9 um esfor\u00e7o, h\u00e1 gente rastreando isso. Uma das recentes teorias seria a da improvisa\u00e7\u00e3o, a capacidade de improvisar. Mas isso n\u00e3o \u00e9 bem brasileiro, \u00e9 de todo o terceiro mundo. Ocorre em todo lugar, n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade nossa. A &#8220;arte da gambiarra&#8221;, como se diz, \u00e9 apontada como uma caracter\u00edstica nacional. Eu n\u00e3o acho. Os grandes artistas brasileiros, ali\u00e1s, n\u00e3o se caracterizam por essa improvisa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muito c\u00e1lculo, estudo. Creio que \u00e9 brasileiro porque \u00e9 feito aqui, s\u00f3 por isso.<\/p>\n<p>[entenda o que \u00e9 gambiarra lendo o <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/index.cfm?cd_pagina=2720&amp;cd_materia=861\" target=\"_blank\">Gloss\u00e1rio<\/a> realizado pelo cr\u00edtico Guy Amado para esta edi\u00e7\u00e3o]<\/p>\n<p><strong>Qual o caminho que essa arte aponta?<\/strong><br \/>N\u00e3o tenho capacidade para apontar nenhum horizonte. Mas acredito que haja alguns fen\u00f4menos negativos, entre eles a quest\u00e3o do mercado. Quando a arte se torna uma commodity, ela \u00e9 exemplo da mercadoria por excel\u00eancia, passa a se constituir como um atrativo diferente do que era antes, quando era somente uma produ\u00e7\u00e3o de conhecimento que n\u00e3o se podia ter por meio da ci\u00eancia nem da religi\u00e3o. Quando passa a ser um s\u00edmbolo de vigor e poder de um tipo de sociedade, ela vira a mercadoria maior. Em segundo lugar, h\u00e1 uma entrada muito forte do universo da arte na ind\u00fastria do lazer e do entretenimento, coisa que n\u00e3o existia antes. Os museus n\u00e3o eram projetados como s\u00e3o agora: a Tate Modern esperava no primeiro ano de funcionamento 1 milh\u00e3o de visitantes. Teve 5 milh\u00f5es. Quando se chega a esses n\u00fameros, evidentemente a arte passa a ocupar um lugar diferente do que ocupava antes. Isso traz coisas muito positivas e muito negativas. Uma das positivas \u00e9 a dessacraliza\u00e7\u00e3o: vai-se a uma exposi\u00e7\u00e3o como quem liga o r\u00e1dio em casa. O lado negativo \u00e9 que essa massifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica a realiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da arte, que falei anteriormente. O fato de passar em frente da <em><a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mona_Lisa\" target=\"_blank\">Mona Lisa<\/a><\/em> n\u00e3o quer dizer que voc\u00ea a viu. \u00c9 preciso uma retomada da arte como um conhecimento que s\u00f3 ela pode nos dar. N\u00e3o sei onde vai dar isso. Sinto-me t\u00e3o perdido quanto qualquer leigo diante do horizonte contempor\u00e2neo do mundo.<\/p>\n<p><strong>Mas existem tend\u00eancias&#8230;<\/strong><br \/>Sim, claro. O que vemos agora, por exemplo, \u00e9 o imp\u00e9rio da imagem. Seja fixa ou em movimento. Da\u00ed o peso enorme da fotografia e do v\u00eddeo na arte contempor\u00e2nea. S\u00e3o ve\u00edculos imag\u00e9ticos que a pessoa olha e se identifica imediatamente. Esse imp\u00e9rio herdado do mundo da publicidade, da ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma tend\u00eancia evidente. Outra coisa que \u00e9 muito clara \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o para o espet\u00e1culo, para o espetacular. N\u00e3o h\u00e1 como deixar de ver certas coisas. O artista cria uma escultura de 15 metros de altura, o p\u00fablico se mobiliza para v\u00ea-la, l\u00f3gico. Uma queda-d&#8217;\u00e1gua numa cabaninha, que se tem de olhar atrav\u00e9s de um orif\u00edcio, \u00e9 uma coisa. Mas uma cachoeira inteira no Rio Hudson, que custou 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares, faz com que seja inevit\u00e1vel que vejam aquilo, vai chamar aten\u00e7\u00e3o. H\u00e1, ainda, uma intelig\u00eancia crom\u00e1tica caracter\u00edstica. O Brasil \u00e9 herdeiro de uma tradi\u00e7\u00e3o recente, mas muito rica, materializada nas obras de <a href=\"http:\/\/www.itaucultural.org.br\/aplicexternas\/enciclopedia_ic\/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&amp;cd_verbete=17&amp;lst_palavras=&amp;cd_idioma=28555&amp;cd_item=3\" target=\"_blank\">Volpi<\/a>, uma grande intelig\u00eancia crom\u00e1tica. As paletas de hoje s\u00e3o mais decididas, cores que vacilam menos. Em compensa\u00e7\u00e3o, perdem em sutilezas e nuances. S\u00e3o cores afirmativas, v\u00eam da experi\u00eancia cotidiana, do monitor da televis\u00e3o, do outdoor publicit\u00e1rio. Isso gera outra percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E a tecnologia, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma tend\u00eancia?<\/strong><br \/>\u00c9 inevit\u00e1vel que um garoto formado no universo digital, que jogue videogame diariamente, ao se tornar artista, transporte essa experi\u00eancia perceptiva para a obra. S\u00e3o experi\u00eancias ac\u00fasticas, sonoras e visuais que ele teve na inf\u00e2ncia. Isso n\u00e3o muda em nada o que temos que exigir de uma obra de arte: de que maneira aquele objeto altera a minha experi\u00eancia depois que eu o experimento. O que aquilo me mobiliza, o que anuncia, o que me falta. Muitas vezes o papel da obra de arte \u00e9 apontar algo que falta em mim mesmo. A obra n\u00e3o vai me preencher, mas apontar que n\u00e3o estou completo, pois sequer eu imaginava que essa experi\u00eancia seria poss\u00edvel. Ou seja, n\u00e3o sou completo como pensava que era. Estou cheio de vazios e a obra est\u00e1 l\u00e1 para mostr\u00e1-los. A gra\u00e7a da arte \u00e9 apontar para nossas incompletudes e isso independe do meio: pode ser uma est\u00e1tua de m\u00e1rmore grega ou um jogo de videogame. Se tiver for\u00e7a po\u00e9tica, a obra vai permitir essa experi\u00eancia.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=235\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista no site do Itau CulturalPor Mariana Sgarioni | Fotos Cia de Foto Como \u00e9 poss\u00edvel classificar uma obra de arte? De que maneira essa obra se torna reconhecida? E, afinal de contas, o que pode ser chamado de arte? 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