{"id":155,"date":"2008-12-04T13:15:00","date_gmt":"2008-12-04T13:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=155"},"modified":"2008-12-04T13:15:00","modified_gmt":"2008-12-04T13:15:00","slug":"nina-horta-ts-eliot","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=155","title":{"rendered":"Nina Horta &amp; Ts Eliot"},"content":{"rendered":"<p>Coluna da NINA HORTA na Ilustrada de quinta passada.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico e os comedores<br \/>Coment\u00e1rios a respeito da cr\u00edtica gastron\u00f4mica a partir do livro do poeta anglo-americano T.S. Eliot, &#8220;To Criticize the Critic and Other Writings&#8221;<\/p>\n<p>UMA DAS fun\u00e7\u00f5es do cr\u00edtico \u00e9 ajudar o p\u00fablico de seu tempo a se dar conta de que tem mais afinidade com um &#8220;cozinheiro ou com um tipo de comida&#8221; do que com outros.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico n\u00e3o cria o gosto, mas em qualquer tipo de cr\u00edtica n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o enfatizar sua inclina\u00e7\u00e3o por esse ou por aquele tipo de &#8220;comida&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00f3s, os comedores, por\u00e9m, temos que nos convencer de que as nossas teorias s\u00e3o epifen\u00f4menos de nossos gostos. De vez em quando, se produz uma revolu\u00e7\u00e3o, uma muta\u00e7\u00e3o s\u00fabita na forma ou no conte\u00fado da &#8220;cozinha&#8221;. Logo algumas pessoas descobrem que uma maneira de &#8220;cozinhar&#8221; praticada durante uma ou mais gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o responde aos modos contempor\u00e2neos de pensar, sentir, falar.<\/p>\n<p>Aparece uma nova forma de &#8220;cozinhar&#8221; que se recebe, a princ\u00edpio, com desprezo. Ouvimos dizer que est\u00e3o escarnecendo a tradi\u00e7\u00e3o e que se chegou ao caos.<\/p>\n<p>Passado um certo tempo, fica claro que a nova maneira n\u00e3o \u00e9 destrutiva, mas recreativa. N\u00e3o repudiamos o passado, como querem crer os inimigos obstinados &#8211; e tamb\u00e9m os partid\u00e1rios mais obtusos &#8211; de qualquer movimento &#8220;culin\u00e1rio&#8221;, mas o fato \u00e9 que alargamos nossa concep\u00e7\u00e3o de passado. E, \u00e0 luz do novo, vemos o passado com uma nova conforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na cr\u00edtica em geral, o historiador, o fil\u00f3sofo, o soci\u00f3logo podem desempenhar um papel destacado, mas na cr\u00edtica puramente &#8220;gastron\u00f4mica&#8221; talvez os &#8220;cozinheiros&#8221; que sabem escrever sobre sua pr\u00f3pria arte tenham uma autoridade maior quando refletem sobre sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o e a de outros &#8220;cozinheiros&#8221;. Quanto ao futuro, uma hip\u00f3tese a ser defendida \u00e9 que a progress\u00e3o do conhecimento reflexivo, a extrema percep\u00e7\u00e3o consciente e a &#8220;demasiada&#8221; preocupa\u00e7\u00e3o com as t\u00e9cnicas e &#8220;ingredientes, laborat\u00f3rios, comida molecular, emotiva&#8221; sejam algo que a certa altura tende a se romper, pois submete todos a uma crescente tens\u00e3o contra a qual h\u00e3o de se rebelar a mente e os nervos humanos.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, a elabora\u00e7\u00e3o infinita dos descobrimentos e das inven\u00e7\u00f5es cient\u00edficas &#8220;culin\u00e1rias&#8221; pode chegar a um ponto no qual se produza uma irresist\u00edvel rea\u00e7\u00e3o dos &#8220;comedores&#8221;, que se mostrar\u00e1 disposta a voltar ao inc\u00f4modo do primitivismo para escapar da carga da civiliza\u00e7\u00e3o moderna (comida org\u00e2nica, dietas naturais).<\/p>\n<p>O cr\u00edtico deve atuar como uma esp\u00e9cie de engrenagem que regula o coeficiente da mudan\u00e7a do gosto &#8220;culin\u00e1rio&#8221;. Quando a engrenagem engui\u00e7a, os cr\u00edticos que escrevem as resenhas ficam paralisados no gosto da gera\u00e7\u00e3o precedente e h\u00e1 que desmontar inexoravelmente a m\u00e1quina e tornar a mont\u00e1-la. Quando a engrenagem patina e o cr\u00edtico aceita a novidade como crit\u00e9rio suficiente de excel\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1rio outra vez parar a m\u00e1quina e reajust\u00e1-la.<\/p>\n<p>O defeito das duas posi\u00e7\u00f5es \u00e9 que se provoca uma divis\u00e3o entre aqueles que n\u00e3o v\u00eaem nada bom no novo e os que n\u00e3o v\u00eaem nada bom em tudo que n\u00e3o seja novo. Dessa forma, se enfatiza o classicismo do antigo, a excentricidade moderna e inclusive a charlatanice do novo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o na qual a impostura pode imperar facilmente por certo tempo para alguns &#8220;comedores&#8221; como coisa genu\u00edna -sinal de desintegra\u00e7\u00e3o social e de decad\u00eancia da cr\u00edtica &#8220;culin\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Isso acontece por causa de uma aus\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o freq\u00fcente dos &#8220;cozinheiros&#8221; com seus pares, amigos e outros artistas, e do n\u00famero de &#8220;comedores&#8221; perspicazes, que se situam dentro de um p\u00fablico mais amplo e que tenham sido educados dentro de um gosto cultivado, em paz com a &#8220;culin\u00e1ria&#8221; do passado, mas com disposi\u00e7\u00e3o para aceitar o que h\u00e1 de bom na atual, quando ela se d\u00e1 a conhecer.<\/p>\n<p>(Esses coment\u00e1rios sobre a cr\u00edtica liter\u00e1ria foram tirados do livro de T.S. Eliot, &#8220;To Criticize the Critic and Other Writings&#8221;, e juntados ao l\u00e9u. As palavras entre aspas s\u00e3o as minhas substitui\u00e7\u00f5es. Achei interessante. Seria toda a cr\u00edtica a mesma cr\u00edtica?)<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=155\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coluna da NINA HORTA na Ilustrada de quinta passada. O cr\u00edtico e os comedoresComent\u00e1rios a respeito da cr\u00edtica gastron\u00f4mica a partir do livro do poeta anglo-americano T.S. 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