{"id":1251,"date":"2012-07-13T23:22:27","date_gmt":"2012-07-13T23:22:27","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=1251"},"modified":"2012-07-13T23:22:27","modified_gmt":"2012-07-13T23:22:27","slug":"um-tom-cosmopolita-na-arte-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1251","title":{"rendered":"Um tom cosmopolita na arte brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Peguei l\u00e1 no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.valor.com.br\/cultura\/2562304\/um-tom-cosmopolita-na-arte-brasileira\" target=\"_blank\">site do Valor<\/a>.<\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-UVu6N1p3iEI\/T14pTrSW8mI\/AAAAAAAAECY\/zTmPMcOcYNw\/s1600\/Captura+de+tela+2012-03-12+a%CC%80s+1.49.21+PM.png\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-UVu6N1p3iEI\/T14pTrSW8mI\/AAAAAAAAECY\/zTmPMcOcYNw\/s400\/Captura+de+tela+2012-03-12+a%CC%80s+1.49.21+PM.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"250\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Curador-chefe da Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo, Ivo Mesquita \u00e9 um dos nomes centrais no processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o da arte brasileira. Ao lado de curadores como Paulo Herkenhoff e Adriano Pedrosa, Mesquita faz parte de um grupo que respondeu \u00e0 demanda estrangeira por profissionais latino-americanos no boom desse segmento, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990 &#8211; durante 11 anos, ele foi professor do Bard College (Nova York), no programa de forma\u00e7\u00e3o de curadores. Acompanhando nomes hoje inseridos mundialmente, como Beatriz Milhazes e Iran do Esp\u00edrito Santo, Mesquita passou por algumas das principais institui\u00e7\u00f5es de arte no Brasil, como a Bienal de SP, onde foi curador da 28\u00aa edi\u00e7\u00e3o, e o Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo, onde trabalhou como diretor-art\u00edstico. A experi\u00eancia lhe permite ver, dentro do contexto, a arte brasileira contempor\u00e2nea.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>Em leil\u00f5es internacionais de arte latino-americana n\u00e3o \u00e9 mais raridade ver obras de artistas brasileiros vivos chegarem a US$ 1 milh\u00e3o. At\u00e9 2008, quando Beatriz Milhazes atingiu essa marca, no entanto, isso era impens\u00e1vel. Quais fatores permitiram esse cen\u00e1rio?<\/em><\/div>\n<div><strong>Ivo Mesquita:<\/strong>\u00a0A arte brasileira entrou no mercado internacional com a globaliza\u00e7\u00e3o, mas sob a rubrica &#8220;latino-americana&#8221;. Os estudos culturais, os textos dos cat\u00e1logos de exposi\u00e7\u00f5es dessa \u00e9poca, virada dos 1980 para os 1990, t\u00eam muito disso. Os brasileiros ficavam cabreiros, houve resist\u00eancias a esse discurso que os levou para l\u00e1. Aqui, n\u00e3o \u00e9 algo claro, n\u00e3o nos damos conta de que somos latino-americanos. O Ernesto Neto, por exemplo. O que chamava a aten\u00e7\u00e3o deles eram os cheiros, a sensualidade do Brasil, aquelas coisas f\u00e1licas enormes. Com a Beatriz Milhazes e a Leda Catunda, eram as cores; com o Vik Muniz, o tom ir\u00f4nico. Essa arte ganha legitimidade culturalista, que \u00e9 o tom dos anos 1990. \u00c9 o Brasil brasileiro, inescap\u00e1vel. Os pesquisadores estrangeiros relacionaram essa gera\u00e7\u00e3o com os artistas dos anos 1960 e 1970, H\u00e9lio Oiticica e Lygia Clark, e descobrem nomes consistentes. Reparam que h\u00e1 articula\u00e7\u00f5es com arquitetura, teatro, cinema e m\u00fasica, e ent\u00e3o entende-se que havia algo cosmopolita.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>Mas de onde veio o interesse estrangeiro por essa cultura &#8220;latino-americana&#8221;?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Havia uma demanda. Os EUA sempre querem explicar, colocar todos numa caixinha: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o branco do olho puxado&#8221;, &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o negro do cabelo vermelho&#8221; etc., e n\u00f3s sempre fomos os latino-americanos. Quando voc\u00ea fala &#8220;african american&#8221;, voc\u00ea diz que ele \u00e9 meio americano. Haveria, ent\u00e3o, um &#8220;only american&#8221;. Ent\u00e3o tem essas grada\u00e7\u00f5es. O politicamente correto ensinou a eles que n\u00e3o dava para ficar escutando s\u00f3 o que os professores americanos falavam. \u00c9 quest\u00e3o de geopol\u00edtica, pol\u00edtica cultural. Naquela \u00e9poca, nem se cogitava fazer exposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 com brasileiros. Pareceria extremamente provinciano e politicamente incorreto.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>Em que momento os brasileiros come\u00e7aram a ganhar individualidade dentro desse &#8220;pacote&#8221; latino-americano?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Os EUA continuam tratando o Brasil junto com o M\u00e9xico, a Col\u00f4mbia etc. Mas, do ponto de vista das feiras e do colecionismo, os departamentos de arte latino-americana de museus como MoMa e Tate est\u00e3o comprando mais arte brasileira. Se voc\u00ea olhar nos leil\u00f5es, vai reparar que brasileiros atingem pre\u00e7os cada vez mais altos. V\u00e1rias coisas juntas explicam isso. Tem o momento econ\u00f4mico atual do Brasil, que gera uma curiosidade enorme. Temos uma das produ\u00e7\u00f5es mais cosmopolitas da regi\u00e3o. Os argentinos est\u00e3o juntos com a gente nisso.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>A produ\u00e7\u00e3o brasileira tem, ent\u00e3o, um tra\u00e7o est\u00e9tico espec\u00edfico?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Nossa origem segue o modelo da Academia Imperial de Belas Artes, que \u00e9 francesa. Toda a representa\u00e7\u00e3o do Brasil no s\u00e9culo XIX, feita pelos artistas brasileiros, \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o id\u00edlica, de tradi\u00e7\u00e3o europeia. O modernismo brasileiro fala de forjar nossa identidade. O tema \u00e9 nacional, mas a linguagem n\u00e3o \u00e9. Quando chegam os anos 1950, h\u00e1 uma predisposi\u00e7\u00e3o do Brasil em entrar no processo de desenvolvimento e internacionaliza\u00e7\u00e3o. Nesse contexto se d\u00e1 o surgimento de organiza\u00e7\u00f5es como o MASP, o MAM, a Bienal. \u00c9 nos anos 1950 que h\u00e1 um salto e a arte brasileira ganha singularidade, com os concretos e neoconcretos. Tudo \u00e9 riqu\u00edssimo da\u00ed para frente, com os artistas entrando em outro circuito. Hoje, existem v\u00e1rios polos de produ\u00e7\u00e3o: Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Vit\u00f3ria, Bel\u00e9m. Tudo est\u00e1 mais descentralizado no pa\u00eds, o que \u00e9 positivo.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>Quais s\u00e3o os personagens de destaque nesse longo processo que desembocou na valoriza\u00e7\u00e3o dos contempor\u00e2neos?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0A [francesa] Catherine David, pesquisadora apaixonada pelo Brasil, e Guy Brett [cr\u00edtico e curador brit\u00e2nico que, j\u00e1 nos anos 1960, apoiou nomes como H\u00e9lio Oiticica] foram fundamentais. \u00c9 important\u00edssima tamb\u00e9m a Cole\u00e7\u00e3o Cisneros [da venezuelana Patr\u00edcia de Cisneros, maior colecionadora de arte latino-americana], a partir dos anos 1990. As galerias brasileiras cooperaram, fizeram um bom trabalho de colocar obras em cole\u00e7\u00f5es importantes. N\u00e3o basta vender. \u00c9 necess\u00e1rio fazer parcerias com galerias estrangeiras, divulgar, fazer representa\u00e7\u00f5es. No campo das galerias, esse trabalho foi inaugurado pelo Marcant\u00f4nio Vila\u00e7a (1962-2000). Um terceiro elemento importante foi a Bienal de SP, com seus eternos altos e baixos. Porque a Bienal virou parada obrigat\u00f3ria no circuito. O boom de agora, que j\u00e1 existia l\u00e1 atr\u00e1s, tem a ver com o modo como cada pa\u00eds latino-americano no final dos anos 1980 resolveu seus problemas com suas ditaduras.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>Existe um projeto de pa\u00eds no atual processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o da arte?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Nos anos 1950, mais que uma articula\u00e7\u00e3o geral pol\u00edtica e social no Brasil pelo seu desenvolvimento, havia um &#8220;zeitgeist&#8221; em que todos tinham um projeto de pa\u00eds. Chateaubriand e Ciccillo Matarazzo podiam ter seus defeitos, mas acreditavam que se existissem museus, arte, teatro, m\u00fasica, cinema etc., o pa\u00eds ficaria melhor. Hoje, a despeito de trabalhos maravilhosos pelo Brasil afora na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o profissional, o circuito de artes pl\u00e1sticas est\u00e1 muito marcado pelo business, pelo marketing, pelas agendas, n\u00fameros e metas, muito &#8220;Eu, eu, eu&#8221;. N\u00e3o tem essa coisa de um projeto nacional, de consolida\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>Podemos falar que os resultados foram reflexo direto de iniciativas pontuais?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Esse processo veio de uma demanda exterior, pois est\u00e1 associada \u00e0 crescente presen\u00e7a de uma popula\u00e7\u00e3o de origem latino-americana na Europa e nos EUA. As primeiras grandes confer\u00eancias sobre essa arte tentavam organizar a hist\u00f3ria, as refer\u00eancias e a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica do continente para constituir programas universit\u00e1rios, de exposi\u00e7\u00f5es, de pesquisas que consolidassem essa categoria. Da\u00ed o crescente n\u00famero de exposi\u00e7\u00f5es e interc\u00e2mbio cultural a partir da segunda metade dos anos 1980, que levaram uma grande quantidade de arte latino-americana para o hemisf\u00e9rio norte. Quase todos esses projetos buscaram recursos e apoio para a participa\u00e7\u00e3o de artistas, obras, curadores ou pesquisadores brasileiros, mas, quando recebiam algum, era algo t\u00edmido do Itamaraty, por exemplo. Nunca houve pol\u00edtica cultural para as artes visuais, preocupada com a divulga\u00e7\u00e3o da arte brasileira no exterior. O Minist\u00e9rio da Cultura s\u00f3 mais recentemente come\u00e7ou a se ocupar do tema, ou melhor, a falar sobre metas, programas etc. At\u00e9 aqui, a pol\u00edtica tem sido local e parece n\u00e3o se dar conta do car\u00e1ter cosmopolita da produ\u00e7\u00e3o brasileira. E agora tem a APEX (Ag\u00eancia Brasileira de Promo\u00e7\u00e3o de Exporta\u00e7\u00f5es e Investimentos) vinculada ao Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>A engrenagem que movimenta o sistema de arte no Brasil ainda precisa passar por aperfei\u00e7oamentos?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Ainda \u00e9 muito pequena a circula\u00e7\u00e3o de artistas estrangeiros nas galerias brasileiras. \u00c9 preciso comprar do estrangeiro. O com\u00e9rcio internacional \u00e9 isso, troca, e n\u00e3o apenas participar das feiras de arte, vendendo seus produtos. Antes do apoio dos minist\u00e9rios da Cultura e de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, as galerias deveriam ser parte da agenda do minist\u00e9rio da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio e ter uma regulamenta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Hoje \u00e9 quase imposs\u00edvel, por conta de taxas e custos, importar uma obra de arte. As galerias se completariam como mediadores na circula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica contempor\u00e2nea, respons\u00e1veis pelo que entra e sai no pa\u00eds. Neste sentido \u00e9 que falo que n\u00e3o existe infraestrutura consolidada por aqui. E seguramente isto faria diferen\u00e7a, j\u00e1 que as cole\u00e7\u00f5es no Brasil tendem a ser muito parecidas, todas t\u00eam mais ou menos os mesmos artistas. \u00c9 um problema de oferta.<\/div>\n<div><strong>Valor:<\/strong>\u00a0<em>A alta demanda por obras de artistas vivos j\u00e1 afeta a qualidade art\u00edstica da produ\u00e7\u00e3o?<\/em><\/div>\n<div><strong>Mesquita:<\/strong>\u00a0Faz parte da profissionaliza\u00e7\u00e3o dos artistas perceber os jogos do mercado. Imagine um artista que, coitado, passou a vida inteira fazendo seu trabalho e, de repente, passa por um boom. Ele tem contas a pagar, fam\u00edlia para cuidar. Os artistas hoje s\u00e3o mais cautelosos, percebem que \u00e9 preciso controlar a sua visibilidade. O excesso pode ser fatal. J\u00e1 vimos acontecer isso.\u00a0<strong>(BYS)<\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>publicado no velho\u00a0<a href=\"http:\/\/www.raulmourao.blogspot.com.br\/\">b\u00aeogspot<\/a>\u00a0em 12\/3\/2012<\/em><\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1251\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peguei l\u00e1 no\u00a0site do Valor. Curador-chefe da Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo, Ivo Mesquita \u00e9 um dos nomes centrais no processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o da arte brasileira. 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