{"id":120,"date":"2008-10-18T17:26:00","date_gmt":"2008-10-18T17:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=120"},"modified":"2008-10-18T17:26:00","modified_gmt":"2008-10-18T17:26:00","slug":"costa-a-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=120","title":{"rendered":"Costa a Costa"},"content":{"rendered":"<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SPoh97rFIwI\/AAAAAAAABYk\/65dMaIsHNRw\/s1600-h\/costa_a_costa.jpg\"><img style=\"cursor:pointer; cursor:hand;\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SPoh97rFIwI\/AAAAAAAABYk\/65dMaIsHNRw\/s400\/costa_a_costa.jpg\" border=\"0\" alt=\"\"id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5258552862782595842\" \/><\/a><\/p>\n<p>Hermano \u00e9 meu mestre. Junto com ele est\u00e3o tamb\u00e9m Mauricio Valladares, Roberto Berliner, Chacal e Vergara. Ele n\u00e3o sabe disso. Eles tamb\u00e9m n\u00e3o. Sou p\u00e9ssimo aluno.  Catei esse texto l\u00e1 no Overmundo. Vou ouvir agora.<\/p>\n<p>Cear\u00e1. O ano \u00e9 2007. Agora. O grupo de hip hop <a href=\"http:\/\/www.costaacostaonline.com\/\">Costa a Costa<\/a> acaba de lan\u00e7ar sua <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mixtape\">mixtape<\/a>, dispon\u00edvel em CD. \u00c9 &#8211; n\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida &#8211; um dos documentos mais contundentes, impressionantes e acachapantes sobre a realidade brasileira contempor\u00e2nea (como se ler jornal n\u00e3o fosse suficiente&#8230;) \u00c9 um <a href=\"http:\/\/cliquemusic.uol.com.br\/artistas\/artistas.asp?Status=DISCO&amp;Nu_Disco=3470\">Sobrevivendo no Inferno<\/a> traduzido para o S\u00e9culo XXI &#8211; e \u00e9 preciso constatar: o inferno piorou muito. L\u00e1 na faixa 21 (s\u00e3o 23 no total), um dos v\u00e1rios interl\u00fadios do disco, o rapper anuncia: &#8220;a prefeita diz que eu t\u00f4 na cidade do sol.&#8221; Uma voz totalmente debochada comenta: &#8220;quem tem boca diz o que quer&#8230;&#8221; Volta o rapper: &#8220;a PM diz que eu t\u00f4 na cidade do p\u00f3.&#8221; O deboche: &#8220;fala o que pode&#8230;&#8221; O rapper novamente: &#8220;os gringo diz que eu t\u00f4 na cidade do sexo&#8221;. A resposta \u00e9 uma gargalhada. &#8220;Eu n\u00e3o queria nada disso.&#8221; Resposta: &#8220;mas \u00e9 o que \u00e9.&#8221; &#8220;Eu s\u00f3 queria fazer disso aqui a cidade da grana \/ Seja bem-vindo \/ Fortaleza, t\u00e1 ligado? \/ Isso aqui \u00e9 dinheiro, sexo, drogas e viol\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p><em>Dinheiro, Sexo, Drogas e Viol\u00eancia<\/em> &#8211; esse \u00e9 o t\u00edtulo da mixtape. O t\u00edtulo \u00e9 repetido dezenas e dezenas de vezes durante os 79 minutos e 57 segundos do CD. Parece um mantra do mal. D\u00e1 um inc\u00f4modo danado ouvi-lo, o tempo todo, sem que ao mesmo tempo surja a voz da raz\u00e3o para repetir tamb\u00e9m: n\u00e3o queremos nada disso (ou o que seria melhor: apontando a solu\u00e7\u00e3o para tudo isso). O in\u00edcio do disco chega a ser ainda mais infernal. Uma voz sintetizada e desacelerada (parece estilo &#8220;<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Chopped_and_screwed\">screwed and chopped<\/a>&#8221; do rap de Houston, Texas) dialoga com um pobre mortal, um guerreiro. A voz: &#8220;eles est\u00e3o ca\u00e7ando voc\u00ea \/ eles est\u00e3o fugindo da luta.&#8221; Resposta: &#8220;vou derrubar esses filha da puta.&#8221; A voz: &#8220;eles querem que voc\u00ea entre no jogo deles \/ n\u00e3o entra! \/ lembra de onde voc\u00ea vem \/ c\u00ea t\u00e1 na rua \/ qual a id\u00e9ia que rola?&#8221; Resposta, como n\u00e3o podia deixar de ser: &#8220;Dinheiro, sexo, drogas e viol\u00eancia em qualquer lugar.&#8221; Voz: &#8220;eles est\u00e3o dizendo que voc\u00ea est\u00e1 errado \/ fala pra eles o que \u00e9 o bagulho.&#8221; Voz repete, martelando, para ficar bem claro: &#8220;Isso aqui \u00e9 dinheiro, sexo, drogas e viol\u00eancia de Costa a Costa!&#8221; Ent\u00e3o algu\u00e9m grita bem alto: mixtape! E come\u00e7a uma mistura poderosa e violenta de hip hop (estilo <a href=\"http:\/\/www.nytimes-institute.com\/article\/features\/BounceMusic_052607\">bounce<\/a> de Nova Orleans, ou <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Crunk\">crunk<\/a> de Atlanta\/Memphis) com brega (Sidney Magal!), salsa, Perez Prado, carimb\u00f3 e <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Reggaeton\">reggaeton<\/a>, quase tudo muito dan\u00e7ante mas sem perder o ar soturno jamais.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o &#8211; acho que assinada pelo grupo todo (n\u00e3o consegui ter acesso \u00e0 ficha t\u00e9cnica &#8211; mas sei que as m\u00fasicas, com as interfer\u00eancias de barulho bom da mixtape, ficaram bem mais interessantes que quando sairam nos outros CDs) &#8211; \u00e9 uma das mais criativas da atual safra musical brasileira, em qualquer estilo. E \u00e9 tamb\u00e9m uma inje\u00e7\u00e3o de energia\/ousadia na sonoridade do hip hop nacional. A mixtape n\u00e3o segue nenhuma regra, n\u00e3o copia <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dr._Dre\">Dr. Dre<\/a> ou <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Timbaland\">Timbaland<\/a>, n\u00e3o tenta soar como um CD qualquer da fam\u00edlia <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Wu-Tang_Clan\">Wu-Tang<\/a>. Fazia falta ouvir algo assim &#8211; t\u00e3o surpreendente &#8211; por aqui. N\u00e3o somente aqui: l\u00e1 tamb\u00e9m. Sempre achei que as experi\u00eancias sonoras do rap eram t\u00e3o radicais politicamente como o seu discurso po\u00e9tico. Mas l\u00e1 no in\u00edcio dos anos 90 perdi um pouco o interesse nos novos lan\u00e7amentos, pois tudo me parecia seguir uma f\u00f3rmula j\u00e1 testada in\u00fameras vezes, sem risco nenhum a n\u00e3o ser o de virar o primeiro lugar nas paradas americanas.<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia: a mixtape do Costa a Costa bateu no meu CD-player no mesmo momento em que estou lendo um livro sensacional, obrigat\u00f3rio para quem se interessa por hip hop (tomara que algum dia ganhe uma tradu\u00e7\u00e3o brasileira). Chama-se <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Third-Coast-OutKast-Timbaland-Southern\/dp\/0306814307\/ref=pd_bbs_sr_1\/002-0682740-0411268?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1186873141&amp;sr=1-1\">Third Coast &#8211; Outkast, Timbaland &amp; How Hip-Hop Became A Southern Thing<\/a>, e foi escrito por Roni Sarig. Comprei de olho num cap\u00edtulo sobre o <a href=\"http:\/\/www.stylusmagazine.com\/feature.php?ID=1776\">Miami Bass<\/a>, pois h\u00e1 pouqu\u00edssima coisa s\u00e9ria escrita sobre essa m\u00fasica que \u00e9 a m\u00e3e do funk carioca. Aprendi muito lendo a hist\u00f3ria de como o subgrave conquistou a Fl\u00f3rida. N\u00e3o percebia direito como, nos anos 80, os bailes do Rio eram totalmente atualizados com as novidades de Miami: o disco sa\u00eda l\u00e1 e j\u00e1 era sucesso aqui. Mesmo o <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Two_Live_Crew\">Two Live Crew<\/a> (que no Rio deu at\u00e9 na <a href=\"http:\/\/www.gardenal.org\/trabalhosujo\/2006\/03\/o_elogio_do_feio.html\">Mel\u00f4 da Mulher Feia<\/a>) ficou famoso aqui antes de ser popular por l\u00e1.<\/p>\n<p>Gostei tanto do estilo desse cap\u00edtulo que passei a ler os outros, que mostram como o hip hop atual est\u00e1 dominado por cidades do sul dos Estados Unidos e n\u00e3o por Nova York ou Los Angeles. Os n\u00fameros s\u00e3o avassaladores: em 2006, entre um ter\u00e7o e metade de todas as can\u00e7\u00f5es que entraram para a parada <a href=\"http:\/\/www.billboard.com\/bbcom\/charts\/chart_display.jsp?g=Singles&amp;f=The+Billboard+Hot+100\">Hot 100 da revista Billboard<\/a> (a parada mais importante dos EUA) \u00e9 de bandas do hip hop sulista. N\u00e3o sabia nada disso. N\u00e3o conhecia tamb\u00e9m a hist\u00f3ria do rap de Atlanta, Memphis, Nova Orleans e Houston, as principais cidades produtoras dos novos g\u00eaneros p\u00f3s-<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gangsta_rap\">gangsta<\/a>. Fui escutar\/ver tudo (ainda bem que existe o <a href=\"http:\/\/br.youtube.com\/watch?v=ZXXTsHylvVk\">YouTube<\/a>) e me arrependi do tempo que perdi achando que nada de interessante estava acontecendo naquele mundo.<\/p>\n<p>Mas fiquei mais surpreso de ver outra triste hist\u00f3ria se repetindo em todas as cidades. Grande parte dos mais criativos m\u00fasicos dos v\u00e1rios lugares, alguns muito famosos e milion\u00e1rios, morreu de forma violenta, geralmente v\u00edtima de tiros. Realmente \u00e9 dinheiro, sexo, drogas e viol\u00eancia em todos os guetos. A cr\u00f4nica cruel de uma juventude que teve v\u00e1rios de seus \u00eddolos exterminados por uma guerra urbana\/social absolutamente sanguin\u00e1ria. Parece o <a href=\"http:\/\/www.almanaara.hpg.ig.com.br\/ed2\/pant2.htm\"><em>Uivo<\/em>, do Allen Ginsberg<\/a>, s\u00f3 que encenado por quem estava &#8220;do outro lado&#8221;. Algu\u00e9m se lembra como o poema come\u00e7a? &#8220;Vi os expoentes da minha gera\u00e7\u00e3o da minha gera\u00e7\u00e3o destru\u00eddos pela loucura&#8221;. Mas logo no segundo verso aparecem &#8220;as ruas do bairro negro&#8221; onde esses expoentes iam buscar a &#8220;dose violenta&#8221;. Agora a destrui\u00e7\u00e3o acontece &#8220;nas ruas dos bairro negro&#8221;, entre os expoentes negros, e &#8220;ningu\u00e9m&#8221; ouve falar de suas mortes&#8230; Apesar dos milhares de uivos, alt\u00edssimos, em todos os raps&#8230;<\/p>\n<p>Mas estou me perdendo na geografia? Parece que estou muito longe de Fortaleza&#8230; Na verdade tudo \u00e9 t\u00e3o perto&#8230; Fortaleza \u00e9 a Houston brasileira, misturada com a latinidade de Miami\/Nova Orleans? Para o Costa a Costa, o Nordeste \u00e9 &#8220;o gueto do gueto&#8221;. O discurso moldado nas periferias paulistanas (mesmo todas as g\u00edrias, as centenas de &#8220;t\u00e1 ligado&#8221; ou o firm\u00e3o etc. etc.) chega por l\u00e1 e passa a ter um outro sotaque, ganhando um outro sentido, onde a luta contra a mis\u00e9ria \u00e9 muito mais barra pesada. Qual o sentido do 100% negro em Fortaleza? \u00c9 poss\u00edvel falar de um 100% nordestino? Em cotas para os nordestinos? E os nordestinos ricos, o que fazer com eles, entram para as cotas tamb\u00e9m?&#8230; Tudo se complica: h\u00e1 a tentativa de transplantar para o Cear\u00e1 a vis\u00e3o do mundo criada no <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cap%C3%A3o_Redondo\">Cap\u00e3o Redondo<\/a>, mas problemas v\u00e3o escapando por todos os lados, e novas possibilidades aparecem: &#8220;Ningu\u00e9m lembrou do Nordeste na fita, e eu t\u00f4 aqui&#8221; (versos de <em>No Melhor Lugar<\/em>). &#8220;Voc\u00ea vem do Nordeste? \/ Voc\u00ea tem a for\u00e7a que eles nunca v\u00e3o ter \/ n\u00e3o espera por ningu\u00e9m \/ quem \u00e9 pra t\u00e1 aqui, j\u00e1 t\u00e1&#8221; (<em>Interl\u00fadio Do Gueto Pro Gueto<\/em>). T\u00f4 aqui para dizer o qu\u00ea? For\u00e7a pra qu\u00ea? Apenas para constatar o fim de tudo?<\/p>\n<p>A capa da mixtape explica: &#8220;faixas extra\u00eddas da vida real dunego de 11\/2006 a 04\/2007&#8221;. Realmente: tudo \u00e9 reportagem da vida cotidiana de quem foi criado no gueto do gueto, e tem que dar um jeito, qualquer jeito, para sobreviver a cada dia. O personagem principal da maioria das letras \u00e9 o &#8220;ca\u00e7ador de grana r\u00e1pida&#8221;, desesperado atr\u00e1s de on\u00e7as (notas de 50 reais), o bandido armado, o jovem cheio de energia que sonha em ter imediatamente, nem que seja por um tempo brev\u00edssimo, o que lhe \u00e9 vendido como o bom da vida. Quase todas as letras s\u00e3o escritas do ponto de vista desse personagem, retrato\/relato do pensamento confuso (como n\u00e3o seria?) desse personagem. \u00c9 &#8220;<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Stream_of_consciousness_writing\">stream of consciousness<\/a>&#8221; de quem n\u00e3o teve escola boa e vive em favela de nova grande cidade nordestina, em \u00e9poca da tal met\u00e1stase: &#8220;eu tamb\u00e9m sonho com a Revolu\u00e7\u00e3o \/ mas hoje eu tenho a cobran\u00e7a, meu irm\u00e3o&#8221; (<em>N\u00e3o \u00e9 F\u00e1cil<\/em>). Ou: &#8220;\u00e0s vezes eu penso em parar com esse bagulho \/ \u00e0s vezes eu penso em virar o Escobar desse bagulho&#8221; (<em>N\u00e3o \u00e9 F\u00e1cil<\/em>). Ou: &#8220;eu n\u00e3o quero cozinhar crack, primo \/ mas eu quero andar de Nike, no style \/ mas eu quero as gata \/ eu quero as n\u00eaga com v\u00e1rias das de dez \/ quem n\u00e3o quer?&#8221; (<em>Necess\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<p>O que resta \u00e9 fatalidade, mas fatalidade descontrolada (se isso \u00e9 poss\u00edvel&#8230;) T\u00e1 tudo dominado, tudo interligado, e todo mundo \u00e9 culpado; ningu\u00e9m escapa. O panorama desenhado pelo conjunto das letras \u00e9 sufocante, d\u00e1 vontade de sair correndo, mas correr para onde? &#8220;Isso n\u00e3o tem a ver com o que voc\u00ea ama \/ tem a ver com o que n\u00e3o se tem quando n\u00e3o se tem grana&#8221; (<em>Necess\u00e1rio<\/em>). Mas se voc\u00ea n\u00e3o tem grana, algu\u00e9m tem: &#8220;qualquer lugar tem lugares pior \/ no melhor lugar, s\u00f3 vai ter lugar pro melhor&#8221; (<em>No Melhor Lugar<\/em>). E \u00e9 \u00f3bvio: o melhor s\u00f3 existe porque tamb\u00e9m existe o pior e vice-versa. O rap de <em>Necess\u00e1rio<\/em> fala do traficante de armas, que vende as armas para quem depois vai matar seus parentes. O neg\u00f3cio \u00e9 todo &#8220;efeito domin\u00f3&#8221;, uma cadeia de problemas: &#8220;a solu\u00e7\u00e3o do seu problema vira um problema para algu\u00e9m e assim vai&#8221; ou &#8220;todo dia tem algu\u00e9m arrumando um problema que vai virar um problema para mim&#8221; (<em>O Mundo \u00e9 Nosso<\/em>).<\/p>\n<p>O ouvinte pode pensar: &#8220;n\u00e3o quero escutar isso, isso \u00e9 apenas a glorifica\u00e7\u00e3o da falta de possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o: acaba na justifica\u00e7\u00e3o complacente da bandidagem.&#8221; A inten\u00e7\u00e3o do Costa a Costa parece ser fazer den\u00fancia: esfregar na cara de todo mundo: olha a que ponto chegamos. O rap quer repetir o tempo todo: para mudar \u00e9 preciso levar tudo isso em considera\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso encarar de frente o emaranhado de problemas brutais, sem ilus\u00f5es, sem dourar nenhuma p\u00edlula. Essa estrat\u00e9gia \u00e9 eficiente? Pode mudar alguma coisa? Ou apenas sucumbe na indigna\u00e7\u00e3o pela indigna\u00e7\u00e3o? As letras s\u00e3o contradit\u00f3rias com rela\u00e7\u00e3o a essa e muitas outras quest\u00f5es (uma hora diz &#8220;n\u00e3o entre no jogo deles!&#8221; para no verso seguinte constatar que n\u00e3o h\u00e1 outro jogo&#8230;) Segundo o personagem que fala na maioria das letras, n\u00e3o d\u00e1 para julgar ningu\u00e9m. Ele nunca ouviu falar em \u00e9tica, nunca sentiu o cheiro de atitude \u00e9tica.<\/p>\n<p>A maneira como percebe a realidade \u00e9 atrav\u00e9s do pior, do muito pior: todos contra todos, no estilo pesadelo de <a href=\"http:\/\/www.mundociencia.com.br\/filosofia\/hobbes.htm\">Thomas Hobbes<\/a>: &#8220;o que fazer, quando seu irm\u00e3o quer fuder voc\u00ea \/ quando o mund\u00e3o quer fuder voc\u00ea \/ quando ningu\u00e9m acredita mais em ningu\u00e9m&#8221; (<em>Justificativa<\/em>). <em>Boa Noite Cinderela<\/em> \u00e9 a narrativa da estrat\u00e9gia de uma prostituta cearense para roubar um gringo: &#8220;ela \u00e9 do gueto, mas mexe bem \/ o que tem de errado? \/ ela usa o que tem \/ ela gosta quando rola os d\u00f3lar \/ ela gosta de coisa boa&#8221;. Aqui tudo fica ainda mais expl\u00edcito, did\u00e1tico: &#8220;a gente n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 crime e futebol \/ a gente quer as j\u00f3ia e o brilho do sol \/ eu n\u00e3o t\u00f4 falando nada complexo \/ eu sou jovem e quero grana e sexo \/ eu t\u00f4 errado, n\u00eaga? \/ eu sou sincero, n\u00eaga \/ eu sei a regra do jogo \/ n\u00e3o sou ot\u00e1rio, n\u00eaga \/ no meio da guerra, o n\u00eago tira uma onda \/ \u00e9 selva, mas tudo pelas on\u00e7a \/ mesmo lutando e com o mundo inteiro contra \/ a gente vai pegando uma grana \/ eu ainda n\u00e3o tenho o carro da propaganda \/ mas eu saio com a gata da escola de samba&#8221; (<em>Ela Mexe<\/em>). E quem, no meio de tanto esc\u00e2ndalo e corrup\u00e7\u00e3o, vai dizer que a regra do jogo da maioria n\u00e3o \u00e9 essa mesmo? Se colocado contra a parede, o rap teria a resposta pronta: &#8220;os filha da puta quer julgar voc\u00ea toda hora \/ eles dizem que n\u00e3o tem justificativa \/ mas eles t\u00eam justificativa pros crimes dele, n\u00e9?&#8221; E acrescenta, filos\u00f3fico, ir\u00f4nico, deixando o interlocutor com cara de tacho: &#8220;eu n\u00e3o t\u00f4 dizendo que t\u00e1 certo ou t\u00e1 errado \/ quem sou eu? \/ eu tenho mais perguntas que respostas &#8221; (<em>Justificativa<\/em>)<\/p>\n<p>S\u00e3o tantos trechos de letras para comentar, que fico submerso aqui nas minhas anota\u00e7\u00f5es. Como j\u00e1 disse: sobre cada tema, h\u00e1 muitos exemplos, v\u00e1rios contradit\u00f3rios entre si. O in\u00edcio de <em>Ela Mexe<\/em> tamb\u00e9m precisa ser citado: &#8220;enchendo de di\u00f3xido, de veneno \/ \u00e9 o novo mil\u00eanio \/ aproveita o fim do oxig\u00eanio \/ t\u00e1 pra acabar essa porra \/ mas at\u00e9 acabar, quero t\u00e1 vivendo legal&#8221;. \u00c9 assim mesmo: &#8220;a vida \u00e9 puta, mas hoje t\u00e1 bom \/ s\u00f3 quero paz e uma grana no banco&#8221;. Porque, o tempo todo, tudo pode ficar pior: &#8220;talvez eu esteja na cela amanh\u00e3&#8221; (<em>N\u00e3o \u00e9 F\u00e1cil<\/em>).<\/p>\n<p>O que mais chama a aten\u00e7\u00e3o na seq\u00fc\u00eancia das m\u00fasicas \u00e9 a briga entre o niilismo dominante das letras e a festa sonora do acompanhamento. <em>Ela Mexe<\/em>, por exemplo, \u00e9 uma inebriante fus\u00e3o de carimb\u00f3 com reggaeton. Mesmo com timbres sinistros, \u00e9 f\u00e1cil dan\u00e7ar. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um clima de baile na <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Baile_da_Ilha_Fiscal\">Ilha Fiscal<\/a>. H\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o afirmativa na programa\u00e7\u00e3o r\u00edtmica. H\u00e1 tamb\u00e9m, por parte da banda, a convic\u00e7\u00e3o de que o hip hop &#8211; mantendo a sua integridade &#8211; tem que se tornar uma ind\u00fastria musical t\u00e3o poderosa quanto o novo forr\u00f3 (Regina Cas\u00e9 aparece na mixtape em trecho sampleado da entrevista com o Costa a Costa no Central da Periferia que fala justamente isso). E al\u00e9m disso, h\u00e1 aquela espantosa alegria de estar vivo, que pode ser encontrada em todos os guetos, nas situa\u00e7\u00f5es mais miser\u00e1veis. Ent\u00e3o no meio de tudo, aparece uma letra como <em>Vive Agora<\/em>&#8230; \u00c9 um manual de auto-ajuda do gueto, uma mistura dos conselhos mais disparatados (o &#8220;bem&#8221; lado a lado com o &#8220;mal&#8221;), de maneira febril e fren\u00e9tica. Alguns trechos, selecionados ao acaso (pois a letra \u00e9 quilom\u00e9trica):<\/p>\n<p>t\u00e1 na merda, luta<br \/>tem um pivete, ama<br \/>tem champanhe, beba<br \/>t\u00e1 no jogo, joga<br \/>quer ser algu\u00e9m, estuda<br \/>t\u00e1 sem nenhum, rouba<br \/>t\u00e1 com a bola, chuta<br \/>ela \u00e9 gostosa, chupa<br \/>o som \u00e9 bom, aumenta<br \/>quer saber qual \u00e9, se envolve<br \/>tem problema, resolve<br \/>se tem um amor, assume<br \/>se decepcionou, dispensa<br \/>c\u00ea quer um amor, procura<br \/>c\u00ea tem um valor, lembra<br \/>te deixou, esquece<br \/>se Deus levou, benze<br \/>se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o parou, ent\u00e3o bola pra frente<br \/>c\u00ea t\u00e1 perdendo, vira<br \/>c\u00ea ainda acredita, insista<br \/>c\u00ea t\u00e1 crescendo, brilha<br \/>c\u00ea curte a vida, vive<br \/>c\u00ea t\u00e1 atrasado, corra<br \/>t\u00e1 tudo errado, mova-se<br \/>c\u00ea foi sincero mas n\u00e3o te levaram a s\u00e9rio, foda-se<\/p>\n<p>Julgar? H\u00e1 coisas ditas neste disco que v\u00e3o no caminho totalmente oposto daquilo que acredito e valorizo. Mas reconhe\u00e7o o desespero (mesmo com o estilo foda-se) e o desamparo (junto \u00e0quilo que movimentos sociais globalizados chamam de <em>empowerment<\/em>&#8230;) com os quais s\u00e3o ditas. Entendo tamb\u00e9m que n\u00e3o representam a vis\u00e3o de mundo do compositor: s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es daquilo que ele v\u00ea o tempo todo, no seu dia a dia, daquilo que ele ouve muita gente falar. E mesmo assim: as m\u00fasicas nem foram feitas para mim, que sou de fora: &#8220;eu fa\u00e7o a rima que o gueto precisa ouvir&#8221; (<em>No Melhor Lugar<\/em>). Eu n\u00e3o estou no gueto. (Essa \u00e9 uma outra novidade na m\u00fasica popular brasileira: agora h\u00e1 uma m\u00fasica que, intencionalmente, n\u00e3o \u00e9 feita para toda a &#8220;na\u00e7\u00e3o&#8221;&#8230;) Mas n\u00e3o posso deixar de perceber que neste disco (nunca houve disco assim&#8230; at\u00e9 bem pouco tempo, a regra do jogo dizia que pessoas como as que formam o Costa a Costa n\u00e3o tinham direito de falar nada, quanto mais lan\u00e7ar um disco&#8230; como diz o rap de <em>Mel e Dend\u00ea Remix<\/em>: &#8220;uns nasce pra fazer regra \/ e n\u00f3s nasce pra quebrar&#8221;) est\u00e1 a mais cruel descri\u00e7\u00e3o de nosso impasse coletivo atual, meio tudo o que a gente n\u00e3o queria que fosse, mas tem que reconhecer que \u00e9, e que s\u00f3 com uma luta enorme vai mudar (eu n\u00e3o perco meu otimismo &#8211; e para saber o que me deixa otimista, basta ler <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/perfis\/colaboracoes_publicadas.php?autor=52\"> muitos de meus outros textos<\/a> aqui no Overmundo). Indignado com esse mundo, eu? Claro. Mas sou tamb\u00e9m como rapper do Costa a Costa neste verso: &#8220;tenho mais perguntas que respostas&#8221;. Depois desta mixtape, minhas perguntas ficaram bem mais longe das respostas. Sou s\u00f3 perplexidade.<br \/><!-- \/div texto-->                                           <\/p>\n<p><span class=\"txt11\"><span class=\"cinza2\">tags:<\/span> <strong> <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/overblog\/noticias.php?municipio=678\">Fortaleza<\/a> <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/overblog\/noticias.php?estado=CE\">CE<\/a>  <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/tag\/musica\">musica<\/a>  <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/tag\/hip-hop\">hip-hop<\/a>  <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/tag\/costa-a-costa\">costa-a-costa<\/a>  <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/tag\/rap\">rap<\/a>  <a href=\"http:\/\/www.overmundo.com.br\/tag\/hermano-vianna\">hermano-vianna<\/a> <\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=120\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hermano \u00e9 meu mestre. Junto com ele est\u00e3o tamb\u00e9m Mauricio Valladares, Roberto Berliner, Chacal e Vergara. Ele n\u00e3o sabe disso. Eles tamb\u00e9m n\u00e3o. Sou p\u00e9ssimo aluno. Catei esse texto l\u00e1 no Overmundo. Vou ouvir agora. Cear\u00e1. O ano \u00e9 2007. Agora. O grupo de hip hop Costa a Costa acaba de lan\u00e7ar sua mixtape, dispon\u00edvel &hellip;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=120\" class=\"more-link\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/120"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}