{"id":1137,"date":"2011-12-19T15:53:00","date_gmt":"2011-12-19T15:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=1137"},"modified":"2012-02-10T13:30:51","modified_gmt":"2012-02-10T13:30:51","slug":"amarecomplexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1137","title":{"rendered":"(A)mar(\u00e9)complexo"},"content":{"rendered":"<div>A exposi\u00e7\u00e3o Travessias &#8211; arte contempor\u00e2nea na Mar\u00e9 (q acabou ontem) saiu no <a href=\"http:\/\/blogues.publico.pt\/atlantico-sul\/\">BLOGUE da Alexandra Lucas Coelho l\u00e1 no P\u00fablico<\/a>.<\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-BSGwX6yPoEg\/Tu9bhYAjWCI\/AAAAAAAAEAo\/PcEtc8znjao\/s1600\/Captura+de+tela+2011-12-19+a%25CC%2580s+1.37.38+PM.png\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-BSGwX6yPoEg\/Tu9bhYAjWCI\/AAAAAAAAEAo\/PcEtc8znjao\/s400\/Captura+de+tela+2011-12-19+a%25CC%2580s+1.37.38+PM.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"362\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>1. Milhares de carros avan\u00e7am pela Avenida Brasil, saindo do Rio. Por cima deles, presa a uma passadeira a\u00e9rea, a legenda: \u201cAmar\u00e9complexo\u201d. Milhares de carros avan\u00e7am pela Avenida Brasil, entrando no Rio. Por cima deles, presa a uma passadeira a\u00e9rea, a legenda: \u201cAmar\u00e9simples\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>2. A Avenida Brasil \u00e9 a grande porta do Rio de Janeiro. Milhares de carros a toda a hora, muitas horas parados. De um lado e do outro, quil\u00f3metros de velhas f\u00e1bricas, armaz\u00e9ns, baldios, favelas. A favela da Mar\u00e9. O complexo de favelas da\u00a0Mar\u00e9.<\/div>\n<div>H\u00e1 n\u00e3o muito tempo a Ba\u00eda da Guanabara vinha at\u00e9 aqui. Muita da terra firme do Rio \u00e9 aterro. A Mar\u00e9 chama-se Mar\u00e9 porque a favela ainda apareceu \u00e0 beira da \u00e1gua, com gente de muitas partes. Segundo o \u00faltimo censo, hoje s\u00e3o 130 mil. Uma mar\u00e9 plana e parda, atravessada por vias r\u00e1pidas de onde n\u00e3o se v\u00eaem caras. Quem vem de carro olha em frente. Mas nas \u00faltimas semanas, ao olhar em frente, v\u00ea a legenda: \u201cAmar\u00e9complexo\u201d, \u201cAmar\u00e9simples\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>3. \u2014 Isso \u00e9 a obra do Marcos Chaves \u2014 diz o meu anfitri\u00e3o, apontando a passadeira a\u00e9rea.<\/div>\n<div>O carro d\u00e1 a volta para sair da avenida e entrar na favela. Logo no primeiro quarteir\u00e3o funciona o Centro de Artes da Mar\u00e9, um armaz\u00e9m onde h\u00e1 tr\u00eas anos a core\u00f3grafa Lia Rodrigues trabalha em parceria com a organiza\u00e7\u00e3o Redes e o Observat\u00f3rio de Favelas.<\/div>\n<div>Mesmo ao lado, h\u00e1 uma antiga f\u00e1brica que o Observat\u00f3rio de Favelas decidiu comprar para um novo projecto art\u00edstico, o Bela Mar\u00e9. E para a estreia, convidou tr\u00eas curadores a organizar uma exposi\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea, Daniela Labra, Lu\u00edsa Duarte e o meu anfitri\u00e3o nesta tarde de chuva, Frederico Coelho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>4. Entre dar aulas de literatura na faculdade (de P\u00earo Vaz de Caminha a Luiz Ruffato), organizar livros (o \u00faltimo, entrevistas de Tom Jobim), fazer argumentos de cinema (\u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, estreado na recente Mostra de S\u00e3o Paulo), escrever ensaios sobre cultura marginal dos anos 60 e 70 (H\u00e9lio Oiticica e por a\u00ed fora), ser\u00a0DJ\u00a0da Festa Phunk (\u201cblack music\u201d e por a\u00ed fora) e jovem pai de duas g\u00e9meas, o Fred faz tantas coisas que esta n\u00e3o \u00e9 a primeira nem ser\u00e1 a \u00faltima vez que abrevio o nome dele numa cr\u00f3nica.<\/div>\n<div>Veio do sub\u00farbio para a Zona Sul, o que lhe deu um mundo que falta \u00e0 Zona Sul. Est\u00e1 em casa em toda a parte, e isso tem tudo a ver com arte contempor\u00e2nea na Mar\u00e9. Fazer do fora o dentro, do dentro o fora, de qualquer lugar o centro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>5. A chapinhar na chuva de Ver\u00e3o, chegamos \u00e0 velha f\u00e1brica. \u201cTravessias: Arte na Mar\u00e9\u201d, diz a fachada. \u00c0 entrada, v\u00e1rios monitores de t-shirt amarela, uns de fora, outros da favela. Desde a inaugura\u00e7\u00e3o houve ateliers, debates, visitas de escolas, e as perguntas de quem nunca entrou num espa\u00e7o assim.<\/div>\n<div>\u2014 A primeira pergunta que eles fazem \u00e9: \u201cPaga para entrar?\u201d \u2014 conta Fred. \u2014 E isso diz tudo: \u201cIsso aqui n\u00e3o pode ser de gra\u00e7a para a\u00a0gente.\u201d<\/div>\n<div>Avan\u00e7amos para o centro do armaz\u00e9m, p\u00e9 direito de tr\u00eas andares.<\/div>\n<div>\u2014 Quando a gente chegou, estava atulhado de m\u00e1quinas, de lixo. E n\u00e3o h\u00e1 no Rio de Janeiro um espa\u00e7o desse tamanho a funcionar com arte contempor\u00e2nea.<\/div>\n<div>A um canto, uma projec\u00e7\u00e3o dos Fil\u00e9 de Peixe, um trio que recolhe fragmentos de videoarte, monta uma banca ambulante e vende os\u00a0CD\u2019s a dois ou tr\u00eas reais. Arte a dar a volta \u00e0 pirataria.<\/div>\n<div>Ao centro, uma escultura de Andr\u00e9 Komatsu com tijolos e t\u00e1buas, evocando os materiais e a instabilidade da favela. Ao ver isto, uma moradora viu as velhas barracas da Mar\u00e9 assentes em palafitas, quando por baixo havia\u00a0\u00e1gua.<\/div>\n<div>Ao fundo est\u00e1 a mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 da f\u00e1brica como da inf\u00e2ncia dos cariocas. Porque a f\u00e1brica que aqui existiu entre 1960 e 2000, a Italy, fazia os copos e pratos de papel estampado que todos os cariocas reconhecem de festas, confeitarias e restaurantes. A artista Rochelle Costi ainda achou todo um esp\u00f3lio, ent\u00e3o fez uma parede com fotografias e uma sala com mobiles de copos e pratos.<\/div>\n<div>E mesmo Fred, que tantas vezes j\u00e1 viu isto, ao levantar os olhos para o mobile por cima da nossa cabe\u00e7a v\u00ea pela primeira vez as estampas de S\u00e3o Cosme Dami\u00e3o.<\/div>\n<div>\u2014\u00a0No sub\u00farbio \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o. No dia 27 de Setembro, as fam\u00edlias compram doces e distribuem entre as crian\u00e7as. Um Halloween do Brasil. Na minha inf\u00e2ncia isso era obrigat\u00f3rio porque era o anivers\u00e1rio da minha av\u00f3. Ela tinha sempre uma mesa cheia de doces e convidava as crian\u00e7as da\u00a0rua.<\/div>\n<div>Uma rua em Olaria, do outro lado da Avenida Brasil.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>6. E h\u00e1 uma sala s\u00f3 com cor e som, onde as crian\u00e7as da favela fazem de si pr\u00f3prias a projec\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>E do primeiro andar pende o jardim de cores que s\u00e3o centenas de garrafas de refrigerante cheias de detergente colorido, porque h\u00e1 um morador da favela que as recicla, enche e vende, ent\u00e3o a dupla de artistas Eli Sudbrack\/Christophe Hamaide-Pierson encomendou-lhe centenas, que v\u00e3o rodando, \u00e0 medida que os visitantes trazem uma vazia e levam uma\u00a0cheia.<\/div>\n<div>E no p\u00e1tio interno Henrique Oliveira ergueu uma escultura t\u00e3o extraordin\u00e1ria que num primeiro momento podemos ver nela um altar com uma Piet\u00e1, antes de vermos a espuma, o zinco, o gesso, a areia, restos que ele colheu pela favela e com os quais foi moldando a parede, como se a mat\u00e9ria viesse do pr\u00f3prio edif\u00edcio, uma cabe\u00e7a aberta, uma barriga aberta, v\u00edsceras. Ele chama-lhe um abcesso. A chuva j\u00e1 o modificou, e n\u00e3o para. David Cronenberg ia adorar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>7. Quem percorrer listas de exposi\u00e7\u00f5es na imprensa do Rio n\u00e3o achar\u00e1 esta.<\/div>\n<div>\u2014 Porque a gente n\u00e3o est\u00e1 falando de viol\u00eancia, de pobreza, n\u00e3o tem baile funk, n\u00e3o tem capoeira \u2014 comenta Fred, apontando a escultura no p\u00e1tio. \u2014 Mas esse cara n\u00e3o pensou se o pessoal da Mar\u00e9 ia entender. Ele fez o melhor que\u00a0podia.<\/div>\n<div>Tal como Raul Mour\u00e3o, que no armaz\u00e9m ao lado montou tr\u00eas gigantescas esculturas cin\u00e9ticas, aquilo a que ele chama \u201cbalan\u00e7os\u201d, uma estrutura de ferro encaixada noutra, de forma a que uma delas balance.<\/div>\n<div>Fred vai de uma para a outra, empurrando a parte que balan\u00e7a. Todo o armaz\u00e9m parece ficar em movimento.<\/div>\n<div>\u2014\u00a0Obviamente que no dia da inaugura\u00e7\u00e3o dezenas de crian\u00e7as se penduraram aqui.<\/div>\n<div>Mour\u00e3o tem feito muitos \u201cbalan\u00e7os\u201d, mas at\u00e9 agora nenhum com tamanho de avi\u00e3o num hangar. Aqui teve espa\u00e7o, e quem viu\u00a0viu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>8. Ao todo, a exposi\u00e7\u00e3o re\u00fane 17 artistas ou colectivos. Em alguns casos, obras que foram performances, outras que est\u00e3o fora daqui, na rua. O que est\u00e1 na rua sujeita-se a todas as apropria\u00e7\u00f5es. Foi o que aconteceu com a pe\u00e7a de Matheus Rocha Pitta, um velho \u00f4nibus, estacionado aqui em frente. Ele encheu-o com tijolos, areia, objectos inanimados.<\/div>\n<div>\u2014 De noite a galera vem aqui e faz tudo \u2014\u00a0diz Fred, subindo a\u00a0bordo.<\/div>\n<div>Por exemplo fumar \u201ccrack\u201d. No banco do fundo h\u00e1 roupa amarrotada, mochilas velhas, pratas, pap\u00e9is de\u00a0coca.<\/div>\n<div>Estamos na Mar\u00e9, n\u00e3o deix\u00e1mos de estar. A cem metros daqui h\u00e1 uma \u201cboca de fumo\u201d a vender droga, e mais adiante tr\u00e1fico armado. A Mar\u00e9 \u00e9 a pr\u00f3xima na programa\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia carioca. O pr\u00f3prio\u00a0BOPE, que \u00e9 a tropa de elite, vai instalar-se c\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>9. Para voltar \u00e0 cidade, atravessamos a passadeira a\u00e9rea por cima da Avenida Brasil. A legenda continua ali para todos, acima do tr\u00e2nsito entre fora e dentro: \u201cAmar\u00e9complexo\u201d, \u201cAmar\u00e9simples\u201d. Nada \u00e9 nunca uma coisa\u00a0s\u00f3.<\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1137\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A exposi\u00e7\u00e3o Travessias &#8211; arte contempor\u00e2nea na Mar\u00e9 (q acabou ontem) saiu no BLOGUE da Alexandra Lucas Coelho l\u00e1 no P\u00fablico. 1. Milhares de carros avan\u00e7am pela Avenida Brasil, saindo do Rio. Por cima deles, presa a uma passadeira a\u00e9rea, a legenda: \u201cAmar\u00e9complexo\u201d. Milhares de carros avan\u00e7am pela Avenida Brasil, entrando no Rio. 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