{"id":1092,"date":"2011-09-19T15:30:00","date_gmt":"2011-09-19T15:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=1092"},"modified":"2011-09-19T15:30:00","modified_gmt":"2011-09-19T15:30:00","slug":"luisa-duarte-pede-equlibrio-de-forcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1092","title":{"rendered":"Luisa Duarte pede equl\u00edbrio de for\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><\/div>\n<p>Saiu hoje no Segundo Caderno d&#8221;O Globo o texto l\u00facido e certeiro da Luisa Duarte a\u00ed abaixo.<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-7tSDLmHotiM\/TndeXUGeIOI\/AAAAAAAAD0c\/cfke7tLNY1A\/s1600\/barbara+kruger.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"315\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-7tSDLmHotiM\/TndeXUGeIOI\/AAAAAAAAD0c\/cfke7tLNY1A\/s320\/barbara+kruger.jpg\" width=\"320\" \/><\/a><\/div>\n<div><b><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: large;\">Por um equil\u00edbrio de for\u00e7as&nbsp;<\/span><\/b><\/p>\n<div>Em meio ao frenesi da ArtRio, \u00e9 hora de pensar na fragilidade dos outros pontos do circuito&nbsp;<\/div>\n<div><\/div>\n<p>O desejo n\u00e3o \u00e9 fazer o papel de quem vem estragar a festa munida de algum tipo de frustra\u00e7\u00e3o ou recalque. Nem de longe s\u00e3o estes os afetos que mobilizam esse texto. Mas sim uma necessidade de se instaurar um debate em meio ao alarido causado pelo sucesso da feira ArtRio, ocorrida na semana passada. Um \u00eaxito de vendas e de p\u00fablico \u2013 segundo a organiza\u00e7\u00e3o foram negociados em vendas de obras cerca de R$120 milh\u00f5es e mais de 30 mil pessoas estiveram nos armaz\u00e9ns ao longo dos cinco dias de evento.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, fa\u00e7o coro aos que elogiam a feira, estive l\u00e1 e, de fato, parecia muito bem produzida e organizada, bem como acho fundamental que o Rio de Janeiro volte a ter um papel relevante no circuito da arte do pa\u00eds depois de anos e anos eclipsado.<\/p>\n<p>Uma feira \u00e9 um dos vetores de um circuito de arte. O valor cultural e econ\u00f4mico de um trabalho de arte \u00e9 estabelecido por uma esp\u00e9cie de rede que inclui diversos agentes \u2013 galerias, colecionadores, curadores, recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, museus, institui\u00e7\u00f5es, jornalistas, cr\u00edticos. O mercado tem um lugar nessa rede que valida artistas e suas obras, mas em um circuito desequilibrado como o nosso o lugar ocupado pelo mercado est\u00e1, hoje, grande demais. E o problema n\u00e3o est\u00e1 no mercado, este faz cada vez melhor o seu papel. O problema est\u00e1 em outros pontos do circuito. Em um cen\u00e1rio no qual museus e institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o extremamente fr\u00e1geis, no qual acervos e cole\u00e7\u00f5es p\u00fablicas s\u00e3o escassas, no qual o espa\u00e7o para a cr\u00edtica de arte \u00e9 cada vez menor, em um cen\u00e1rio como este \u00e9 preciso parar e pensar quando se testemunha um frenesi como o que se viu durante e ap\u00f3s o sucesso da ArtRio.<\/p>\n<p>Artistas se referindo ao evento como um \u201cmomento m\u00e1gico\u201d&#8230; Menos, menos. Seu sucesso \u00e9 inquestion\u00e1vel e sua exist\u00eancia bem vinda. Mas ser\u00e1 que a mesma elite econ\u00f4mica da cidade e do pa\u00eds que foi at\u00e9 a feira gastar o seu dinheiro tem olhos abertos para as institui\u00e7\u00f5es da sua cidade e do seu pa\u00eds \u2013 como vai o MAM, como vai o MASP? Vejam bem, acho que feira \u00e9 feira, espa\u00e7o n\u00e3o de reflex\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, mas de venda e compra de arte &#8211; mesmo que espa\u00e7os curados como os Solo Projects promovam um respiro \u201creflexivo\u201d. Assim, n\u00e3o reclamo para a feira um papel que n\u00e3o \u00e9 o dela, mas reclamo da sociedade, de n\u00f3s mesmos, dos agentes do circuito e do poder p\u00fablico \u2013 forte aliado da ArtRio \u2013 um olhar mais atento para as fragilidades do circuito como um todo.<\/p>\n<p>No circuito do pa\u00eds, tanto o espa\u00e7o para o exerc\u00edcio da cr\u00edtica \u00e9 escasso, quanto a forma\u00e7\u00e3o de acervos p\u00fablicos \u00e9 fr\u00e1gil. A cr\u00edtica \u00e9 um lugar no qual elementos como aposta e d\u00favida t\u00eam vez. A presen\u00e7a da cr\u00edtica \u00e9 fundamental na constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o p\u00fablico da arte. Na cr\u00edtica existe a chance de se rever o consenso e contribuir para uma hist\u00f3ria da arte que nem sempre coincide com aquela desenhada pelo mercado. J\u00e1 as cole\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de museus e institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o os lugares por excel\u00eancia para se contar uma hist\u00f3ria da arte e, consequentemente, os lugares para uma educa\u00e7\u00e3o do olhar. Sem falar que espa\u00e7os de ponta como um MoMa (Nova York) e uma Tate Modern (Londres) s\u00e3o hoje verdadeiros chamarizes tur\u00edsticos de suas cidades. S\u00f3 que, nestes casos, existe a intelig\u00eancia de se aliar o turismo que rende dinheiro, com um papel consciente de elites econ\u00f4micas que contribuem para a exist\u00eancia daquelas cole\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. No Brasil as elites econ\u00f4micas ainda n\u00e3o t\u00eam essa consci\u00eancia. \u00c9 exemplar o caso do MASP. Na \u00faltima d\u00e9cada o museu chegou a ter a luz cortada por falta de pagamento quando era ent\u00e3o presidido por Julio Neves, por sua vez arquiteto do edif\u00edcio que abrigava a Daslu, o ent\u00e3o maior complexo de vendas de roupas de luxo do pa\u00eds. Proximidade com os donos do dinheiro nunca faltou ao MASP. Mas se pergunte se algu\u00e9m, algum dia, hesitou em gastar R$ 10.000 em uma roupa ou, no lugar disso, contribuir minimamente para o acervo do MASP ou a manuten\u00e7\u00e3o do maior museu da sua cidade e empreender assim um papel de cidad\u00e3o que interv\u00e9m no destino p\u00fablico da arte realizada no pa\u00eds em que vive e no qual crescer\u00e3o os seus filhos?<\/p>\n<p>A maior cole\u00e7\u00e3o de arte construtiva do Brasil, de Adolpho Leirner, foi oferecida mais de uma vez para institui\u00e7\u00f5es brasileiras. Nenhuma delas se interessou ou encontrou condi\u00e7\u00f5es para viabilizar a compra. Resultado, a cole\u00e7\u00e3o encontra-se hoje em uma institui\u00e7\u00e3o norte-americana. O mesmo ocorreu com parte da obra de Helio Oiticica. Esses fatos relatam a nossa pr\u00f3pria incapacidade de preservar e exibir tesouros da nossa cultura. Estes seriam passos fundamentais para a forma\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, de uma cultura, e da gente que aqui vive.<\/p>\n<p>Em um circuito de arte cujas for\u00e7as s\u00e3o t\u00e3o desequilibradas como \u00e9 o caso do Brasil \u00e9 preciso, em meio ao frenesi causado pelo evento ArtRio, recordar a nossa precariedade de fundo. A arte tem, em si mesma, uma capacidade de cr\u00edtica, de ru\u00eddo, de atrito com o mundo \u2013 \u201cI shop therefore I am\u201d, trabalho de Barbara Kruger que ilustra esse texto fala criticamente sobre a arte como mercadoria mimetizando a l\u00f3gica da publicidade. N\u00e3o edulcorar a rela\u00e7\u00e3o entre arte e mundo, n\u00e3o domesticar a arte, \u00e9 tamb\u00e9m o que pode ocorrer quando temos um circuito mais equilibrado. Ou seja, temos em m\u00e3os o desafio de instaurar um contexto no qual o descompasso entre os diversos vetores que constituem o circuito da arte seja menor. Para isso \u00e9 preciso ter olhos abertos para perceber a import\u00e2ncia de uma feira de arte, bem como tamb\u00e9m notar a fragilidade do contexto no qual ela est\u00e1 inserida.<\/p>\n<div><\/div>\n<div><i><b>Luisa Duarte, setembro 2011<\/b><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1092\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saiu hoje no Segundo Caderno d&#8221;O Globo o texto l\u00facido e certeiro da Luisa Duarte a\u00ed abaixo. 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