{"id":1020,"date":"2011-03-18T17:32:00","date_gmt":"2011-03-18T17:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=1020"},"modified":"2011-03-18T17:32:00","modified_gmt":"2011-03-18T17:32:00","slug":"o-rio-a-espera-de-mudanca-a-cidade-na-cabeca-dos-seus-criadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1020","title":{"rendered":"O Rio \u00e0 espera de mudan\u00e7a &#8211; A cidade na cabe\u00e7a dos seus criadores"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #454545; font-family: Georgia, 'Times New Roman', Times, serif; line-height: 21px;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-size: x-small;\">T\u00e1 l\u00e1 no <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/Mundo\/reportagem-a-cidade-na-cabeca-dos-seus-criadores_1485547?all=1\">site do jornal P\u00fablico<\/a>.<\/span><\/span><br \/><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #454545; font-family: Georgia, 'Times New Roman', Times, serif; font-size: 16px; line-height: 21px;\">Ruy Castro, escritor. Lia Rodrigues, core\u00f3grafa. Raul Mour\u00e3o e Ernesto Neto, artistas pl\u00e1sticos. Enrique Diaz, encenador. BNeg\u00e3o, m\u00fasico. O que o Rio de Janeiro \u00e9, e pode vir a ser, s\u00e3o todas as cidades que eles t\u00eam na cabe\u00e7a.<\/span><br \/><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #454545; font-family: Georgia, 'Times New Roman', Times, serif; font-size: 16px; line-height: 21px;\"><br \/><\/span><\/p>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-TRP9Q2cXgZ8\/TYOWecAXtbI\/AAAAAAAADvk\/tltkJznHJGg\/s1600\/Captura+de+tela+2011-03-18+a%25CC%2580s+2.28.54+PM.png\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"250\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-TRP9Q2cXgZ8\/TYOWecAXtbI\/AAAAAAAADvk\/tltkJznHJGg\/s400\/Captura+de+tela+2011-03-18+a%25CC%2580s+2.28.54+PM.png\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<p><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #454545; font-family: Georgia, 'Times New Roman', Times, serif; font-size: 16px; line-height: 21px;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #222222; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 12px; line-height: 18px;\"><br \/><\/span><\/span><br \/><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #454545; font-family: Georgia, 'Times New Roman', Times, serif; font-size: 16px; line-height: 21px;\"><span class=\"Apple-style-span\" style=\"color: #222222; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 12px; line-height: 18px;\">Ser\u00e1 a grande cidade do s\u00e9culo XXI? Vai acabar num grande McDonald&#8221;s? Estava decadente e renascer\u00e1? Mudar\u00e1 por dentro ou s\u00f3 na fachada? E ser\u00e1 que precisa de mudar? Na f\u00e9 e na d\u00favida, o que se segue \u00e9 o debate amoroso de seis criadores brasileiros com a cidade onde vivem, a prop\u00f3sito do que deve e n\u00e3o deve ser diferente no Rio de Janeiro, a tr\u00eas anos do Mundial de Futebol e a cinco das olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, Ruy Castro, 63 anos. Os leitores podem encontr\u00e1-lo num livro publicado pela Cotovia, Rio de Janeiro. Mas no Brasil h\u00e1 muito mais livros cariocas pela sua m\u00e3o, da bossa nova ao Flamengo, de Garrincha a Nelson Rodrigues. Ruy Castro \u00e9 um cronista da cidade.<\/p>\n<p>E n\u00e3o est\u00e1 zangado.<\/p>\n<p>Se lhe perguntarmos &#8211; por escrito, a seu pedido &#8211; qual o estado de esp\u00edrito face \u00e0s mudan\u00e7as que se anunciam, a resposta ser\u00e1: &#8220;O melhor poss\u00edvel.&#8221; E a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 esta: &#8220;O Rio tem levado os \u00faltimos 50 anos sendo roubado, perseguido e, de modo geral, passado para tr\u00e1s por Bras\u00edlia. Nunca recebeu as devidas compensa\u00e7\u00f5es quando deixou de ser a capital federal (fun\u00e7\u00e3o que, com diversos nomes, exerceu por quase 300 anos). Veja o que aconteceu com Bona, por exemplo &#8211; foi capital por cerca de 30 anos e, quando esta voltou a ser Berlim, est\u00e1 recebendo benef\u00edcios at\u00e9 hoje. O Rio, n\u00e3o, foi s\u00f3 espoliado. E tudo que era federal e n\u00e3o p\u00f4de ser transportado para Bras\u00edlia foi simplesmente abandonado pelo poder federal: a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Col\u00e9gio Pedro II, in\u00fameros hospitais (at\u00e9 ent\u00e3o refer\u00eancias mundiais), a Biblioteca Nacional, o Observat\u00f3rio Nacional, o Parque Nacional da Tijuca, at\u00e9 o Cristo Redentor!&#8221;<\/p>\n<p>Houve motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nisto, aponta Ruy Castro: &#8220;Os ditadores militares (1964-1985) nunca se conformaram com que o Rio fosse o principal reduto da oposi\u00e7\u00e3o no Brasil e, por isso, tentaram esvazi\u00e1-lo de toda a forma, pol\u00edtica e economicamente. Uma maneira de fazer isto se deu em 1975, quando o ditador Ernesto Geisel (1974-1978) promoveu a fus\u00e3o do rico estado da Guanabara (a cidade do Rio de Janeiro) com o pobre estado do Rio sem consultar as popula\u00e7\u00f5es carioca e fluminense. Mas, a provar que o Rio \u00e9 mesmo aben\u00e7oado, apenas dois anos depois descobriu-se petr\u00f3leo no estado do Rio!&#8221;<\/p>\n<p>O que acabou por beneficiar&#8230; os paulistas: &#8220;Uma manobra marota do ent\u00e3o deputado Jos\u00e9 Serra por S\u00e3o Paulo fez com que, na \u00fanica excep\u00e7\u00e3o imposta na Constitui\u00e7\u00e3o, o petr\u00f3leo pagasse impostos no consumo, n\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o &#8211; todos os outros produtos brasileiros beneficiam o produtor, n\u00e3o o consumidor -, e, com isso, o petr\u00f3leo do Rio passou a financiar a prosperidade de S\u00e3o Paulo, onde h\u00e1 o maior consumo. Com tudo isso, \u00e9 f\u00e1cil perceber como o actual surto de realiza\u00e7\u00f5es no Rio (e sua nova afinidade com Bras\u00edlia) \u00e9 motivo de euforia para todo mundo aqui.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 o risco do &#8220;excesso repentino de dinheiro ser usado para projectos menos importantes ou at\u00e9 nocivos&#8221;, mas, se tudo der certo, cr\u00ea Ruy Castro, ser\u00e1 a hora do Rio. &#8220;J\u00e1 est\u00e1 sendo. Nesse ponto n\u00e3o \u00e9 diferente do Brasil. Aqui reagimos por espasmos, por euforias s\u00fabitas, somos ciclot\u00edmicos. Da mesma forma, podemos cair em depress\u00e3o s\u00fabita. Mas muitas medidas que ser\u00e3o ou est\u00e3o sendo tomadas &#8211; a pacifica\u00e7\u00e3o dos morros, a revitaliza\u00e7\u00e3o da zona portu\u00e1ria, o porto de Sepetiba, a volta de muitas ind\u00fastrias, o influxo tur\u00edstico &#8211; dever\u00e3o ter alcance pelos muitos anos a seguir.&#8221;<\/p>\n<p>Resultando em qu\u00ea? &#8220;Na cidade que &#8211; o carioca sabe, mas fora daqui quase ningu\u00e9m acredita &#8211; \u00e9 o melhor lugar do mundo para viver.&#8221;<\/p>\n<p>Em qualquer outro lugar do mundo, o melhor cr\u00edtico \u00e9 sempre local. No Rio, n\u00e3o: carioca ama ser carioca.<\/p>\n<p><b>Favela \u00e9 cidade<\/b><\/p>\n<p>Agora liguemo-nos via Skype \u00e0 mais internacional core\u00f3grafa brasileira, Lia Rodrigues, 55 anos, que calha estar na Holanda. Por correr o mundo n\u00e3o deixa de ter os p\u00e9s fincados no Rio de Janeiro, onde h\u00e1 30 anos escolheu morar, sendo paulista. E morando no Jardim Bot\u00e2nico, em plena Zona Sul, fincou os p\u00e9s na Mar\u00e9, uma das maiores favelas da Zona Norte, onde desenvolve um projecto com a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental REDES.&#8221;N\u00e3o separo a favela da cidade&#8221;, diz Lia. &#8220;E isso \u00e9 essencial: quando a gente consegue enxergar a favela como parte do todo. Quem mora l\u00e1 tem todos os direitos, inclusive de decidir o que fazer com o seu pr\u00f3prio bairro. E eles sabem o qu\u00ea. Pensa-se sempre na favela como o lugar da falta, mas \u00e9 um lugar rico, de pessoas, de projectos. A REDES mudou o meu jeito de olhar para a cidade.&#8221;<\/p>\n<p>Que sejam precisos os Jogos Ol\u00edmpicos para mudar o Rio parece-lhe &#8220;um pensamento do lado avesso&#8221;, mas espera que &#8220;esses eventos possam mudar a forma de pensar a cidade, que \u00e9 complexa, com muitas diferen\u00e7as&#8221;. Durante anos, parte do Rio &#8220;esteve abandonada pelo poder p\u00fablico&#8221; e agora &#8220;n\u00e3o se trata apenas de pacificar, h\u00e1 que entrar com todas as garantias que um cidad\u00e3o deve ter&#8221;.<\/p>\n<p>As UPP &#8211; Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora, que gradualmente est\u00e3o a ocupar os morros, levando \u00e0 sa\u00edda do tr\u00e1fico &#8211; &#8220;s\u00e3o uma estrat\u00e9gia necess\u00e1ria&#8221;, mas apenas &#8220;um primeiro passo&#8221;. &#8220;N\u00e3o pode ficar por a\u00ed. Tem de haver uma mudan\u00e7a radical dentro da pr\u00f3pria pol\u00edcia, porque a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a que afecta tudo. No Brasil, \u00e9 uma doen\u00e7a que atinge quase todos os estratos da pol\u00edtica. N\u00e3o adianta ter uma pacifica\u00e7\u00e3o e mudar de uma fac\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico para a mil\u00edcia.&#8221;<\/p>\n<p><b>O centro do mundo<\/b><\/p>\n<p>O Rio na cabe\u00e7a do artista pl\u00e1stico Raul Mour\u00e3o, 43 anos, ser\u00e1 &#8220;b\u00e1rbaro&#8221;. Fim de tarde no velho Bairro da Lapa. H\u00e1 dez anos que Raul e amigos partilham um pr\u00e9dio dividido em ateliers. &#8220;A Lapa estava voltando a ser ocupada&#8221;, diz ele, que j\u00e1 l\u00e1 ia antes. &#8220;O meu pai me levava no [restaurante] Nova Capela, no Bar Brasil, em frente havia a bo\u00eete de striptease Novo M\u00e9xico, o botequim Arco-\u00cdris&#8230; Era um deserto de gente, escuro. E o Circo Voador [um espa\u00e7o cultural] que ficou fechado anos por causa de uma briga pol\u00edtica! Quando o Circo reabriu [em 2002], coincidiu com o regresso da Lapa.&#8221; Que fora cora\u00e7\u00e3o da bo\u00e9mia nos anos 30, tempo de Madame Sat\u00e3, gangster reconvertido em drag queen, entre chulos, prostitutas e compositores de samba.<\/p>\n<p>A entrada do pr\u00e9dio est\u00e1 cheia de barras de ferro, o material que Raul tem usado para as esculturas a que chama &#8220;cin\u00e9ticas&#8221;, duas ou mais pe\u00e7as em equil\u00edbrio inst\u00e1vel. &#8220;O espectador \u00e9 que bota ela em movimento&#8221;, mostra, empurrando uma suavemente.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m se v\u00eaem vest\u00edgios de uma s\u00e9rie anterior, inspirada pela obsess\u00e3o com a seguran\u00e7a no Rio: grades de janelas. &#8220;Era um coment\u00e1rio sobre o medo, a paran\u00f3ia. Tinha uma conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<p>Carioqu\u00edssimo &#8211; cresceu em Laranjeiras e no Flamengo, viveu em Copacabana, Ipanema, Humait\u00e1, Santa Teresa, Urca e agora no Baixo G\u00e1vea -, Raul transita pela cidade como pelos materiais, com &#8220;liberdade&#8221;. &#8220;Para o bem e para o mal haver\u00e1 mudan\u00e7as, \u00e9 indiscut\u00edvel. Podem ser grandes e belas, ou pequenas. Parece-me que ser\u00e3o grandes e belas.&#8221; Contrariando uma decad\u00eancia? &#8220;A decad\u00eancia \u00e9 a mais pura verdade. Principalmente por maus governantes. O Rio perdeu a capital, teve uma crise de identidade, e, depois da abertura democr\u00e1tica, m\u00e1 gest\u00e3o, conflito de interesses, o estado brigando com o munic\u00edpio, a falta de um projecto. Com a posse do S\u00e9rgio Cabral [actual governador do estado] e do Eduardo Paes [actual prefeito], ambos com contacto f\u00e1cil com o Lula, isso come\u00e7ou a mudar. Esse grupo conquistou as olimp\u00edadas.&#8221;<\/p>\n<p>Deixando para tr\u00e1s a queda face a S\u00e3o Paulo. &#8220;H\u00e1 30 anos, S\u00e3o Paulo era uma cidade caipira [provinciana]. Quando entra em ascend\u00eancia, o Rio come\u00e7a a descer uma ladeira vertiginosa, popula\u00e7\u00e3o crescendo em zonas de protec\u00e7\u00e3o ambiental, transporte p\u00fablico informal na m\u00e3o de mafiosos, degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os&#8230; Para comprar material do atelier, compro em S\u00e3o Paulo!&#8221;Onde tudo parece dispon\u00edvel, e mais barato.<\/p>\n<p>&#8220;Mas no meio desse caos, tem o Carnaval, que \u00e9 uma experi\u00eancia deslumbrante, tem uma grande qualidade de vida, uma vitalidade que compensa. H\u00e1 decad\u00eancia e h\u00e1 uma pot\u00eancia. Duas for\u00e7as que eu espero que se encontrem agora.&#8221;<\/p>\n<p>O momento pol\u00edtico e econ\u00f3mico \u00e9 favor\u00e1vel e o entusiasmo de Raul levanta voo. &#8220;Tem uma sintonia de poderes [municipais, estatais, federais]. Tem um bilion\u00e1rio como o Eike Baptista [o homem mais rico do Brasil], que mora aqui e tem projectos na cidade, como a limpeza da Lagoa, a recupera\u00e7\u00e3o do Hotel Gl\u00f3ria e da Marina, uma escola de Gastronomia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 os projectos de museus. Raul cita o Museu da Imagem e do Som, o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanh\u00e3, todos eles com a Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho por tr\u00e1s, e previstos para 2012.<\/p>\n<p>H\u00e1 o projecto da Casa Daros. &#8220;\u00c9 uma funda\u00e7\u00e3o privada su\u00ed\u00e7a, que tem a maior colec\u00e7\u00e3o de arte latino-americana fora da Am\u00e9rica Latina. Eles querem uma cidade aqui e escolheram o Rio, compraram um palacete em Botafogo. Ent\u00e3o vamos ter um novo espa\u00e7o de arte a s\u00e9rio, com or\u00e7amento e resid\u00eancias.&#8221;<\/p>\n<p>Se a isto se juntar a Cidade da M\u00fasica, ambicioso edif\u00edcio abandonado na Barra da Tijuca, &#8220;a cidade ter\u00e1 cinco novos espa\u00e7os culturais&#8221;, destaca Raul. &#8220;Imagina cinco novos espa\u00e7os em Lisboa! Agora soma isso ao que Eike quer fazer, \u00e0s reformas da olimp\u00edada, \u00e0s coisas da Copa [de Futebol]&#8230; E a Faculdade de Arquitectura de Columbia quer abrir um escrit\u00f3rio aqui&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>As obras da Cidade da M\u00fasica inacabadas na anterior gest\u00e3o municipal custaram &#8220;mais de meio bilh\u00e3o de reais&#8221;, disse ao P2 Victor de Martino, assessor da prefeitura do Rio. A actual gest\u00e3o garante que vai acab\u00e1-las em breve: &#8220;O arquitecto franc\u00eas Christian de Portzamparc veio ao Rio para definir os detalhes finais com o secret\u00e1rio de Cultura, Emilio Kalil, que disse que as obras estar\u00e3o conclu\u00eddas em Julho.&#8221;<\/p>\n<p>A prefeitura tamb\u00e9m vai pagar um quinto da primeira feira de arte contempor\u00e2nea, a ArtRio. Confirmada para entre 7 e 11 de Setembro, nos armaz\u00e9ns do porto, contar\u00e1 com um milh\u00e3o de reais municipais (430 mil euros) e cinco milh\u00f5es privados (2,15 milh\u00f5es de euros), e das 77 inscri\u00e7\u00f5es 28 v\u00eam de outros pa\u00edses, incluindo Portugal.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 Lapa. Raul recosta-se e acautela: &#8220;A mudan\u00e7a pode ser desastrosa, se ficar na m\u00e3o errada, dos tecnocratas. A cultura tem de ter um papel estrat\u00e9gico na constru\u00e7\u00e3o da nova cidade. Os pol\u00edticos andam de carro blindado pedindo para abrir o tr\u00e2nsito, mas quem vive a cidade somos n\u00f3s, e o Rio tem uma hist\u00f3ria de arte fant\u00e1stica, na m\u00fasica, no cinema, na literatura, nas artes pl\u00e1sticas. A cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o sofreu essa decad\u00eancia, \u00e9 fant\u00e1stica, de deixar voc\u00ea embasbacado!&#8221;<\/p>\n<p>Todos os dias tem exemplos. &#8220;Ainda ontem eu estava numa laje da Pra\u00e7a Tiradentes [centro hist\u00f3rico] ao entardecer, e tinha uma dupla nova de m\u00fasica pop. O centro estava muito abandonado, e ainda est\u00e1. Mas agora num condom\u00ednio da Lapa [perto do centro] em tr\u00eas dias venderam 700 apartamentos!&#8221;<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outras cidades, diz Raul, o Rio pode crescer em bairros tradicionais. &#8220;Na zona portu\u00e1ria, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, Gamboa, Santo Cristo e Sa\u00fade. A pr\u00f3pria Lapa. O Est\u00e1cio [entre o centro e o Maracan\u00e3]&#8230; S\u00e3o Paulo pode melhorar, mas n\u00e3o pode mudar de cara. O Rio pode. Pode ficar cafona [piroso], demasiado para turistas, tem sempre esse risco, e perder identidade. Mas o meu lado optimista acha que vai ser b\u00e1rbaro.&#8221;<\/p>\n<p>E a\u00ed vai o carioqu\u00edssimo, descolando, numa corte \u00e0 cidade: &#8220;O Rio \u00e9 mulher, completamente. Mulher linda, maravilhosa, tem de cuidar direitinho&#8230;&#8221;Mas quando aterra, olha em volta, acautela de novo: &#8220;Uma coisa \u00e9 eu fazer estas pe\u00e7as, outra \u00e9 elas irem parar a museus. Isto \u00e9 arte, mas n\u00e3o \u00e9 cultura.&#8221; Ou seja, enquanto estiver aqui n\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel aos outros. &#8220;Temos uma produ\u00e7\u00e3o poderosa reconhecida, samba, DJ, escritores. Mas a cultura n\u00e3o chega na casa das pessoas, n\u00e3o \u00e9 um bem, n\u00e3o \u00e9 patrim\u00f3nio. Com o que produz, o Brasil podia ser a capital cultural do planeta!&#8221;<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de origem \u00e9 imenso: &#8220;Aqui se inventou o samba, o chorinho, a bossa nova. Buenos Aires s\u00f3 inventou o tango, Lisboa s\u00f3 inventou o fado&#8230; O Museu da Imagem e do Som vai ter essa dimens\u00e3o important\u00edssima, devolver a cara da cidade.&#8221;<\/p>\n<p>A cultura \u00e9 que pode &#8220;redefinir a identidade do Rio&#8221;, ser &#8220;o garante de que o Rio seja o que \u00e9&#8221;, acha Raul. &#8220;A movida de Madrid mudou a cidade tanto ou mais que a olimp\u00edada de Barcelona.&#8221;<\/p>\n<p>Portanto: boa conjuga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, um bilion\u00e1rio, museus, bairros para recuperar, e talvez &#8220;o mais importante: uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica oprimida&#8221;, no sentido de n\u00e3o ter explodido em todas as direc\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, alcan\u00e7ando a gente. &#8220;Uma consequ\u00eancia da decad\u00eancia \u00e9 que as pessoas ficaram nos condom\u00ednios sem usar a cidade, ver o sol, ver a lua, ir na Lapa.&#8221; Ent\u00e3o, &#8220;existe uma poderosa cena art\u00edstica pronta para desabrochar&#8221; e &#8220;o poder p\u00fablico tem de apoi\u00e1-la como nunca antes&#8221;, por exemplo, financiando ingressos. &#8220;Vamos encher os teatros, consumir cultura para valer. A cultura \u00e9 uma economia tamb\u00e9m.&#8221; Mas a grande mudan\u00e7a s\u00f3 vai acontecer se os artistas entenderem que est\u00e1 em curso. &#8220;T\u00eam de se falar loucamente, levar o trabalho para outra escala, dar-lhe uma pot\u00eancia nova.&#8221;<\/p>\n<p><b>Chinelo no p\u00e9<\/b><\/p>\n<p>Existem umas festas no Rio que s\u00e3o &#8220;as festas do Ernesto Neto&#8221;. Um forasteiro pode n\u00e3o ter visto a exposi\u00e7\u00e3o dele na Tate, ou mesmo nunca ter ouvido falar dele, mas vai ouvir falar dele mal pisa no Rio.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, \u00e9 um dos mais bem sucedidos artistas contempor\u00e2neos brasileiros. Para muita gente aqui, \u00e9 esse cara de cal\u00e7\u00e3o e chinelo, a beber &#8220;chopp&#8221; com a mulher e amigos (um alem\u00e3o, dois dinamarqueses, uma mineira, e v\u00e3o acabar todos convidados para casa dele), mais as crian\u00e7as correndo ao redor.<\/p>\n<p>Estamos no Leme, pequeno bairro na ponta norte da ba\u00eda de Copacabana, na esplanada do mais c\u00e9lebre restaurante local, o Fiorentina, que serve quase de terra\u00e7o l\u00e1 de casa, porque Neto mora mesmo aqui por tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Se Raul \u00e9 carioqu\u00edssimo, mas tem cara de podia-ser-europeu, Neto, 46 anos, \u00e9 um todo, fala, cara e carac\u00f3is transpirados: o carioca.<\/p>\n<p>A ideia n\u00e3o \u00e9 falar das suas grandes esculturas-instala\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, sensoriais, que fazem do espectador um agente. Mas h\u00e1 certamente Rio de Janeiro nisso: corpos em pra\u00e7a p\u00fablica, experi\u00eancia de texturas e temperaturas.<\/p>\n<p>Por exemplo, o ch\u00e3o de algod\u00e3o de uma delas, montado no estrangeiro. Quando Neto voltou ao Rio, pisou na praia e percebeu: &#8220;Aquilo n\u00e3o era mais do que a praia, um lugar onde as pessoas se encontram.&#8221;<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a parada dele: &#8220;Criar um ambiente para que as pessoas se encontrem.&#8221; As festas v\u00eam da\u00ed, na verdade desde crian\u00e7a. Muita festa em casa, pai amigo dos sambistas da Portela. &#8220;Sempre gostei de farra e sempre fui muito greg\u00e1rio.&#8221; Ent\u00e3o calha que um dia ia passando com dois amigos por um churrasco entre o cal\u00e7ad\u00e3o e as barracas, no Posto 9 de Ipanema. Quiseram barr\u00e1-los e eles come\u00e7aram a cantar Martinho da Vila. Neto mostra como, cantando: &#8220;Esse churrasco \u00e9 particular&#8230; \/ Esse churrasco \u00e9 particular&#8230;&#8221; Rio e particular n\u00e3o liga bem. &#8220;Depois da gente cantar muito deixaram a gente entrar.&#8221;<\/p>\n<p>E a\u00ed, com amigos, surgiu a ideia de fazer um churrasco no Posto 9, depois do poente, para n\u00e3o incomodar. Ao todo, s\u00f3 num Ver\u00e3o, acabaram por ser dez churrascos. Era 1998. &#8220;Come\u00e7ou essa coisa greg\u00e1ria.&#8221; Entrou coluna de som, virou festa, vieram anivers\u00e1rios e r\u00e9veillons. &#8220;Desde o princ\u00edpio que a gente pensou que n\u00e3o queria fechar o churrasco, porque a praia \u00e9 p\u00fablica. A\u00ed, quando bot\u00e1mos o som, j\u00e1 havia uma multid\u00e3o em volta. Eles sabiam que a festa era de algu\u00e9m. As pessoas normalmente n\u00e3o querem os penetras, mas n\u00f3s queremos atrair outras pessoas. Essa coisa p\u00fablica do Rio, onde as pessoas se misturam sem saber quem \u00e9 quem.&#8221; At\u00e9 certo ponto. Porque, como admite Neto, &#8220;claro que a praia est\u00e1 toda dividida&#8221;, cada posto com as suas tribos, ao ponto do Posto 9 ter hoje v\u00e1rias subdivis\u00f5es: a galera do PT, a galera jovem, a galera pop&#8230; No caso de uma festa, a fronteira natural \u00e9 a m\u00fasica. Como Neto e os amigos n\u00e3o passam funk, provavelmente tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o atrair &#8220;funkeiros&#8221;. O problema \u00e9 que atra\u00edram &#8220;marketeiros&#8221;: h\u00e1 uns anos a prefeitura resolveu fazer a sua pr\u00f3pria festa no Posto 9, cheia de patroc\u00ednios, e com m\u00fasica de bate-estaca, ou seja, tecno. Ent\u00e3o Neto e os amigos mudaram para o Arpoador, a ponta entre Ipanema e Copacabana que tem o melhor p\u00f4r do sol da Zona Sul. A\u00ed est\u00e3o, o \u00faltimo r\u00e9veillon foi l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;A festa da prefeitura deu errado, porque eles s\u00f3 pensaram em marketing&#8221;, resume Neto. &#8220;O que pode destruir o Rio de Janeiro \u00e9 o marketing, porque marketeiro n\u00e3o pensa na felicidade humana, visa o lucro. E existe uma vontade de higieniza\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma vontade de ocidentaliza\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>O que este carioca tem descoberto \u00e9 &#8220;que \u00e9 maravilhoso n\u00e3o ser ocidental&#8221;, e o Brasil tem de entender isso. &#8220;A gente n\u00e3o vai conseguir instalar um sistema pol\u00edtico aqui, se quiser ser como o Ocidente, porque a gente \u00e9 misturada. Acho que o Lula jamais achou que era ocidental e isso fez muito bem para o Brasil. O brasileiro culto tem vontade de ser ocidental, mas quando vai \u00e0 Europa acha aquilo um saco.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Brasil tem de parar de querer ser o que n\u00e3o \u00e9: &#8220;A gente n\u00e3o estuda o \u00edndio, o negro, e isso \u00e9 uma estupidez, est\u00e1 dentro da gente!&#8221; Tal como a separa\u00e7\u00e3o entre arte e p\u00fablico aqui \u00e9 fisicamente menor, acha Neto. &#8220;Num show tem altar e plateia, mas no samba as pessoas dan\u00e7am em volta.&#8221; Tal como na praia &#8220;a festa acontece em torno dela, porque n\u00e3o tem paredes&#8221;.<\/p>\n<p>No Renascimento, o Ocidente racionalizou o mundo, separando pa\u00edses, lembra Neto, e a ci\u00eancia come\u00e7ou a classificar. &#8220;Ent\u00e3o o que \u00e9 ser ocidental? Separar uma coisa da outra, a regra, os apartamentos, uma hora. Claro que isso \u00e9 extremamente produtivo. Claro que o Ocidente \u00e9 fundamental, n\u00e3o significa que n\u00e3o fa\u00e7a parte da gente, mas temos outros temperos.&#8221;<\/p>\n<p>S\u00e3o esses temperos que Neto teme que acabem com a pol\u00edtica chamada Choque de Ordem na praia ou o receio do coco aberto \u00e0 machadinha. &#8220;Aqui em frente [aponta o quiosque] voc\u00ea n\u00e3o toma coco na machadinha. Eles abrem um furo, e voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea a \u00e1gua de coco e n\u00e3o tem a dan\u00e7a do cara abrindo o coco! Ent\u00e3o na hora que voc\u00ea empacotar o coco, entra a Coca-Cola e a Nestl\u00e9!&#8221;<\/p>\n<p>Se &#8220;a corrup\u00e7\u00e3o desaparecer, as mudan\u00e7as podem ser boas&#8221;, admite. &#8220;Mas se forem feitas com a prefeitura dirigindo, corremos o s\u00e9rio risco de virar um McDonalds.&#8221; A n\u00e3o-aposta municipal na cultura at\u00e9 agora \u00e9 um sintoma. Neto espera para ver se esta tend\u00eancia ser\u00e1 invertida pela recente nomea\u00e7\u00e3o para a Secretaria de Cultura de Emilio Kalil, que chega da Bienal de S\u00e3o Paulo com um forte curr\u00edculo. &#8220;\u00c9 uma entrada legal, mas ser\u00e1 que ele vai poder fazer algo? Acho que a prefeitura n\u00e3o compreendeu a import\u00e2ncia cultural do Rio de Janeiro. O que gera riqueza \u00e9 a cultura.&#8221;<\/p>\n<p><b>A arte da rua<\/b><\/p>\n<p>Filho de paraguaio e paulista, nascido no Peru, o encenador Enrique Diaz, 43 anos, viveu quase sempre no Rio, onde hoje dirige a Cia dos Atores. E isso significou viver na pele a queda da cidade.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea s\u00f3 fazia porque queria fazer, nada te ajudava a vencer a adversidade&#8221;, diz ele, na sua casa das Laranjeiras, num daqueles fins-de-tarde-com-dil\u00favio. &#8220;Havia uma decad\u00eancia no sentido em que era uma cidade muito tur\u00edstica, medi\u00e1tica de um jeito meio bobo. Tudo era turismo, mercado, mass media. Mas a cultura era muito rica, e isso \u00e9 que era louco. A sensa\u00e7\u00e3o de que as coisas se interrompiam por falta de rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, com a universidade, com os media. Parecia que a cidade estava fadada para um pensamento tacanho, mas riqu\u00edssimo de ritmos, hist\u00f3rias, olhares. Tanto que sempre adorei morar no Rio, sempre fui muito feliz aqui.&#8221;No Rio h\u00e1 mundos que n\u00e3o convivem, e, no entanto, o que parecia imut\u00e1vel talvez n\u00e3o seja, cr\u00ea Enrique. &#8220;\u00c9 bom ser c\u00e9ptico, mas \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea n\u00e3o pensar: &#8220;Nossa, tem alguma coisa mudando&#8230;&#8221;&#8221; Por exemplo, as UPP nas favelas. &#8220;Quando come\u00e7ou essa ocupa\u00e7\u00e3o, eu perguntava: &#8220;Que acordo \u00e9 esse? \u00c9 para durar at\u00e9 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, \u00e0 Copa, \u00e0 olimp\u00edada?&#8221; Porque parecia imposs\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Se agora n\u00e3o parece, isso &#8220;deve-se muito ao Governo Lula&#8221;, acredita Enrique. &#8220;H\u00e1 uma auto-estima da classe trabalhadora. E essa \u00e9 uma mudan\u00e7a muito saborosa, um olhar interessante. \u00c9 o come\u00e7o de uma nova conversa.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o o preocupa se o Rio ser\u00e1 a grande capital. &#8220;O Brasil \u00e9 muito mais complexo que o Rio. Minha fam\u00edlia \u00e9 PT, Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, e ver o Brasil de agora \u00e9 uma diferen\u00e7a t\u00e3o grande que a gente come\u00e7a a ter uma felicidade diferente. Isso do Rio ser sempre um glamour, acho uma bobagem. Mas come\u00e7o a sentir a mudan\u00e7a de retina.&#8221;<\/p>\n<p>Que tamb\u00e9m passa por um embri\u00e3o de comunidade batalhando: &#8220;S\u00e3o Paulo criou a Lei do Fomento [fundamental no apoio \u00e0s artes] com uma campanha. No Rio isso \u00e9 inimagin\u00e1vel. Mas existe cada vez mais uma irriga\u00e7\u00e3o nova entre criadores e produtores.&#8221;<\/p>\n<p>Talvez a melhor defesa contra uma &#8220;institucionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;apossamento&#8221; por parte dos poderes municipais. Enrique acha o prefeito Eduardo Paes &#8220;meio Barra Tijuca&#8221; (a faixa de pr\u00e9dios, shoppings e novos-ricos, na parte ocidental do Rio). A ideia de proibir o coco cortado a golpes de machadinha \u00e9 s\u00f3 um exemplo. &#8220;Claro que tem de ter obra e limpeza, mas at\u00e9 onde \u00e9 que o estado auxilia a intelig\u00eancia e at\u00e9 onde \u00e9 que se apossa da cidade, e ela vai sendo loteada? O dilema agora \u00e9 esse: o pessoal que fez a cidade ter de pagar ingresso para a pr\u00f3pria cidade.&#8221;<\/p>\n<p>Exemplo do que o Rio voltou a ser, e ainda bem: carnaval de rua. &#8220;Qualquer lugar cria bloco, voc\u00ea vai e se diverte. \u00c9 uma mudan\u00e7a enorme ter uma cidade que se diverte por oposi\u00e7\u00e3o a uma cidade que consome. E vejo muito mais artistas a quererem trabalhar com a rua.&#8221;<\/p>\n<p><b>Nas traseiras<\/b><\/p>\n<p>BNeg\u00e3o. A 21 de Abril, lisboetas, podeis v\u00ea-lo e ouvi-lo, com DJ Negralha no Clube Ferrovi\u00e1rio de Lisboa, mas neste momento ele est\u00e1 em casa, aqui no Rio, a tomar conta dos dois filhos, enquanto tecla no Skype. Sendo protagonista da cena rap e funk brasileira, n\u00e3o deixa de ser &#8220;um pai activo&#8221;.<\/p>\n<p>O B \u00e9 de Bernardo, 37 anos, nascido e criado nos altos e baixos de Santa Teresa, bem l\u00e1 para cima, \u00e0 beira da favela. Mas parte da sua fam\u00edlia \u00e9 da Baixada Fluminense, e a Baixada \u00e9 mesmo a traseira de tudo.<\/p>\n<p>Por tudo isto, o Rio de Janeiro que BNeg\u00e3o tem na cabe\u00e7a \u00e9 bem diferente do dos artistas que o precedem.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as UPP foram instaladas em outras comunidades, o meu bairro [Santa Teresa] teve um aumento de mais de 600 por cento no \u00edndice de viol\u00eancia.&#8221; Agora, &#8220;mudou completamente&#8221;, porque a UPP tamb\u00e9m chegou l\u00e1. Mas o ponto principal de BNeg\u00e3o \u00e9 este: &#8220;Alguns lugares devem estar um verdadeiro inferno, pois todos [os traficantes que fugiram das favelas ocupadas por UPP] foram para l\u00e1. O que se diz \u00e9 que na Baixada, em S\u00e3o Gon\u00e7alo e na Regi\u00e3o dos Lagos [sub\u00farbios], o bicho &#8220;t\u00e1 pegando [a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 grave].&#8221;<\/p>\n<p>De que forma? &#8220;O pessoal do tr\u00e1fico recebe os fugitivos, mas n\u00e3o divide os lucros das &#8220;bocas&#8221; [venda de droga]. Da\u00ed, os &#8220;visitantes&#8221; t\u00eam de se virar, assaltando, e fazendo o que mais rolar, nas redondezas de onde est\u00e3o &#8220;acampados&#8221;. Ent\u00e3o, resolve um lugar, e aumenta o caos do(s) outro(s).&#8221;Nos anos 70 e 80, quando a viol\u00eancia se concentrava na Baixada Fluminense, &#8220;ningu\u00e9m, nenhuma autoridade fazia nada por isso&#8221;, lembra Bernardo. &#8220;A viol\u00eancia s\u00f3 come\u00e7ou a ser &#8220;percebida&#8221; pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o quando chegou \u00e0 Zona Sul, que por acaso \u00e9 onde esse pessoal mora, os &#8220;formadores de opini\u00e3o&#8221;. Enquanto n\u00e3o os incomodava a eles, nada acontecia. E corremos o risco disso acontecer de forma mais violenta, novamente, agora.&#8221; De a viol\u00eancia ficar oculta da Zona Sul, das vias de acesso que v\u00eam do aeroporto internacional e que levam a outros estados, enquanto explode nos fundos, nas traseiras, dominadas por tr\u00e1fico e mil\u00edcia.<\/p>\n<p>BNeg\u00e3o n\u00e3o quer dizer com isto que a pol\u00edtica das UPP seja de fachada. &#8220;Sempre h\u00e1 obras e atitudes de fachada por parte de pol\u00edticos, \u00e9 inerente \u00e0 profiss\u00e3o deles, mas acho que n\u00e3o \u00e9 o caso das UPP. O que digo \u00e9 o seguinte: nem 8 nem 80. Nem &#8220;t\u00e1 tudo maravilhoso&#8221;, nem &#8220;s\u00e3o atitudes de fachada&#8221;. O momento agora \u00e9 para observar.&#8221;<\/p>\n<p>O que deve ser feito? &#8220;Se vai fazer esse lance de UPP, teria de ser em todas as comunidades, pois a pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o &#8220;do bem&#8221;. Tem v\u00e1rios policiais-bandidos na institui\u00e7\u00e3o, portanto n\u00e3o \u00e9 um al\u00edvio completo para a popula\u00e7\u00e3o.&#8221; Falta &#8220;acompanhamento&#8221;, das pessoas da comunidade e de fora, &#8220;que as den\u00fancias de abuso sejam apuradas e n\u00e3o arquivadas como \u00e9 o comum&#8221;, &#8220;que as autoridades tomem provid\u00eancias reais&#8221;.<\/p>\n<p>E como v\u00ea o di\u00e1logo entre os v\u00e1rios mundos separados do Rio? Como &#8220;algo pr\u00f3prio do homem&#8221;, n\u00e3o especificamente ocidental. &#8220;O Ocidente faz isso de forma profissional h\u00e1 v\u00e1rios anos, mas se virmos a cultura hindu, com o regime de castas, as \u00e9pocas dos imp\u00e9rios no Jap\u00e3o, na China, at\u00e9 hoje a \u00c1frica e suas tribos se matando, enfim&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o Brasil, e em particular o Rio, pode dar outro exemplo de uma fus\u00e3o? &#8220;Pode e n\u00e3o pode. Mas \u00e9 errado falar: &#8220;O Brasil \u00e9 um pa\u00eds sem racismo&#8221;, porque existe isso tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Como seria a cidade na cabe\u00e7a de BNeg\u00e3o? &#8220;Um Rio onde todos possam ir e vir tranquilamente, sem receio nem dos bandidos, nem da pol\u00edcia. Com cultura para a popula\u00e7\u00e3o, acesso real a escolas p\u00fablicas de e com qualidade, como eram antigamente. Em que o dinheiro dos impostos volte \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em forma de melhorias, porque o que se v\u00ea \u00e9 a gente pagando impostos absurdos, entre as maiores taxas do mundo, e as pessoas morrendo nas filas de hospitais, sem atendimento, as ruas cheias de buracos, e acidentes por causa disso. V\u00e1rios peda\u00e7os do Rio derrubados naquela \u00faltima chuva violenta continuam destru\u00eddos. N\u00e3o na Zona Sul, com certeza&#8230;&#8221;<\/span><\/span><\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=1020\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e1 l\u00e1 no site do jornal P\u00fablico.Ruy Castro, escritor. Lia Rodrigues, core\u00f3grafa. Raul Mour\u00e3o e Ernesto Neto, artistas pl\u00e1sticos. Enrique Diaz, encenador. BNeg\u00e3o, m\u00fasico. O que o Rio de Janeiro \u00e9, e pode vir a ser, s\u00e3o todas as cidades que eles t\u00eam na cabe\u00e7a. Ser\u00e1 a grande cidade do s\u00e9culo XXI? 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