{"id":102,"date":"2008-10-02T19:14:00","date_gmt":"2008-10-02T19:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/blog\/?p=102"},"modified":"2008-10-02T19:14:00","modified_gmt":"2008-10-02T19:14:00","slug":"olho-e-ouvido-em-uma-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=102","title":{"rendered":"Olho e Ouvido Em Uma Cidade"},"content":{"rendered":"<p><a onblur=\"try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}\" href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SOUg9j5ElcI\/AAAAAAAABKA\/KcDbffU0Pd0\/s1600-h\/roda_londres.jpg\"><img style=\"cursor: pointer;\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_YCtMPf2Ld4Q\/SOUg9j5ElcI\/AAAAAAAABKA\/KcDbffU0Pd0\/s400\/roda_londres.jpg\" alt=\"\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5252640782376277442\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>O camarada Bernardo Mortimer esteve em Londres e publicou esse texto l\u00e1 no  <a href=\"http:\/\/www.sobremusica.com.br\/\">SOBREMUSICA<\/a>.<\/p>\n<p>Londres \u00e9 a nova Meca. E n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de hype, ou de \u00faltima moda. Pelas ruas, parques, mercados e museus da cidade, percebe-se que ali um projeto de integra\u00e7\u00e3o criativa vem dando certo. Tudo est\u00e1 em obras, esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 passam horas ou fins-de-semana sem funcionar, estruturas de pr\u00e9dio sobem em todos os bairros, homens de capacete da constru\u00e7\u00e3o civil falam ao celular na cal\u00e7ada, buracos atrapalham o tr\u00e2nsito cercados por sinaliza\u00e7\u00f5es, mas nada disso atrapalha viver o que ela oferece. 2012 se aproxima, e as Olimp\u00edadas na cidade tem a miss\u00e3o de estar \u00e0 altura do sucesso de Pequim.<br \/>Tudo come\u00e7ou h\u00e1 onze anos, quando o novo trabalhismo de Tony Blair tinha vencido o thatcherismo e prometia uma nova era para os brit\u00e2nicos. Um congressista homossexual chamado Chris Smith foi nomeado ministro de Cultura, Turismo e Esportes. Bom recado para os conversadores. A partir dele, uma nova diretriz para a chamada economia criativa foi implantada, e acabou abrangendo quest\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 de cultura, turismo ou esporte, mas de integra\u00e7\u00e3o\/imigra\u00e7\u00e3o e de renova\u00e7\u00e3o urbana.<br \/>Smith defendia que o incentivo \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de locais de produ\u00e7\u00e3o cultural em \u00e1reas desvalorizadas das cidades atra\u00eda movimenta\u00e7\u00e3o e atividades econ\u00f4micas relacionadas. A isso, chamou de clusters. Ateli\u00eas, por exemplo, em um bairro considerado marginal atrairiam restaurantes diferentes, casas de estudantes, bares\/pubs, palcos para m\u00fasica, est\u00fadios de design, movimenta\u00e7\u00e3o, enfim. Era mais barato do que incentivar a instala\u00e7\u00e3o de uma grande empresa, ou de uma f\u00e1brica: a estrat\u00e9gia usada nos bairros pobres de Nova Iorque, na \u00e9poca do Toler\u00e2ncia Zero. E desencava um processo de revitaliza\u00e7\u00e3o mais org\u00e2nico, de certa forma regulado pelo mercado, a partir de um primeiro empurr\u00e3o do governo. Aconteceu com ateli\u00eas de artistas pl\u00e1sticos, mas tamb\u00e9m com produtoras de v\u00eddeo, com feiras de produtos diferenciados (comida de delicatessen, antiguidades, moda). Londres, como maior cidade brit\u00e2nica, foi a que mais aproveitou a id\u00e9ia.<br \/>Ao tratar a arte, a contracultura e a boemia como parte de um sistema interessante de ind\u00fastria criativa, meio formal e meio informal, e incentivar tais pr\u00e1ticas, o governo p\u00f4de criar renda e regularizar uma fatia da popula\u00e7\u00e3o ativa para arrecadar mais em impostos, diretos ou indiretos. Ao reconhecer a produ\u00e7\u00e3o marginal como uma atividade cultural e econ\u00f4mica, revitalizou regi\u00f5es urbanas e integrou segmentos da sociedade estigmatizados. Bairros que ningu\u00e9m mais freq\u00fcentava passaram a ser um segredo cada vez mais dif\u00edcil de gaurdar para a divers\u00e3o e o consumo \u2013 e o objetivo era bem esse.<br \/>Na outra ponta do processo, os im\u00f3veis passaram a ter um pre\u00e7o melhor. Ir \u00e0 feira de moda do bairro indiano, mesmo que sem encontrar um s\u00f3 sarong, virou uma desculpa para um almo\u00e7o em um restaurante de curry que s\u00f3 seria freq\u00fcentado por imigrantes.<br \/>Quem pensa que o ministro da Cultura de Mr Blair foi apenas um entusiasta de uma suposta baixa cultura, no entanto, se engana. Foi Smith quem aprovou uma lei que instituiu a gratuidade a uma s\u00e9rie de museus. Visit\u00e1-los \u00e9 uma atra\u00e7\u00e3o para turistas \u2013 que trazem dinheiro para o pa\u00eds \u2013 e para brit\u00e2nicos \u2013 que ganham em qualidade de vida ao conhecerem a express\u00e3o de outras \u00e9pocas ou outros povos. Portanto, deve ser facilitado. A manuten\u00e7\u00e3o deve se dar por outros meios, que incluem doa\u00e7\u00f5es, clubes de vantagens, e exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, que a\u00ed sim s\u00e3o cobradas. Nem hoje, mais de dez anos depois, o racioc\u00ednio \u00e9 consagrado no mundo. Mas tomado o exemplo londrino, nada deu mais certo na parceria Turismo-Cultura (n\u00e3o \u00e0 toa assuntos de um mesmo minist\u00e9rio).<br \/>\u00c9 evidente que junto com tantas id\u00e9ias de reforma da din\u00e2mica da cidade, o transporte e o policiamento eram pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Medo ou inseguran\u00e7a n\u00e3o combinam com desenvolvimento econ\u00f4mico, com gente andando na rua (ainda mais se o clima \u00e9 o que \u00e9), com curiosidade de conhecer novidade.<br \/>Passada mais de uma d\u00e9cada, e o Novo Trabalhismo ingl\u00eas vive a mesma crise de popularidade por que passa a terceira via no mundo inteiro. Um apoio \u00e0 uma guerra mal justificada no Iraque e uma crise no sistema financeiro e banc\u00e1rio mundial s\u00e3o os dois principais motivos para o momento ruim politicamente, junto com decis\u00f5es erradas no campo de impostos e na falta de novas id\u00e9ias t\u00e3o boas quanto \u00e0s de 97 (Smith deixou o governo no fim do primeiro mandato de Blair). Fora a falta de carisma de Gordon Brown, mesmo comparado ao cansado Blair dos \u00faltimos anos.<br \/>Ainda assim, as marcas da novidade ainda est\u00e3o na cidade. \u00c9 s\u00f3 passar o olho nos infinitos jornais gratuitos e vagabundos distribu\u00eddos no metr\u00f4 que largaram a fam\u00edlia real para acompanhar o que menos importa em jovens milion\u00e1rias como Kate Perry, Amy Winehouse e Lilly Allen. Ou observar os outdoors de bancos multinacionais com sorrisos de clientes africanos, coreanos e brasileiros. Ou passar por uma exposi\u00e7\u00e3o de projetos finais de uma escola de design, na porta de um festival de m\u00fasica na feira, onde os sobrenomes indicam que mais da metade dos estudantes n\u00e3o nasceu em territ\u00f3rio brit\u00e2nico. Goste ou n\u00e3o, tudo \u00e9 parte de uma cadeia produtiva recente e que ocupa boa parte da sociedade que \u00e9 produtora, jornalista, cozinheira, designer, artista, escritora, costureira, estilista, etc.<br \/>Nas paredes, o grafite \u00e9 presente tanto quanto nos livros de arte que est\u00e3o em lojinhas de museu, de m\u00fasica, de roupa, e at\u00e9 nas livrarias comuns. Banksy, por l\u00e1, \u00e9 best seller. At\u00e9 tour pelas interven\u00e7\u00f5es dele \u00e9 vendido em forma de livro de bolso. A cidade admite o colorido e a contesta\u00e7\u00e3o, em vez de preferir o cinza. Naturalmente, os subprodutos brotam, e \u00e9 molinho encontrar um camel\u00f4 com camisetas, p\u00f4sters, reprodu\u00e7\u00f5es. Admite tamb\u00e9m o estrangeiro, apesar de n\u00e3o afrouxar a entrada dele no aeroporto. A ind\u00fastria criativa n\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m uma ind\u00fastria cultural reciclada, com a m\u00e1quina de reprodutibilidades t\u00e9cnicas ligada na tomada e na caixa registradora.<br \/>Seja l\u00e1 o que vier de resultado nas elei\u00e7\u00f5es que devem tirar o primeiro-ministro Brown do cargo que herdou de Blair, a Londres que receber daqui a quatro anos os Jogos Ol\u00edmpicos \u00e9 uma Londres nova, e nova para muito al\u00e9m do que for aparecer atr\u00e1s dos tapumes de obras. O Reino Unido de Margareth Thatcher era a \u00faltima grande imagem que os estrangeiros, ainda mais os de fora da Europa, tinham do pa\u00eds. E esse Reino Unido hoje \u00e9 s\u00f3 uma refer\u00eancia hist\u00f3rica, que para os menos atentos pode passar batida assim como os estilha\u00e7os de guerra que ainda enfeiam a parede da Tate Britain, na beira do rio T\u00e2misa.<br \/>Ou seja, um projeto de pa\u00eds achou em uma cidade de mais destaque o local para marcar simbolicamente a mudan\u00e7a, e essa conquista vai dar em uma Olimp\u00edada. N\u00e3o \u00e9 um exemplo de para\u00edso, n\u00e3o venham me dizer que ingl\u00eas n\u00e3o fura a fila, que \u00f4nibus n\u00e3o passa o sinal vermelho, que cambistas e falsificadores s\u00e3o uma institui\u00e7\u00e3o da cultura, ou que qualquer casa de show est\u00e1 preocupada com o conforto do p\u00fablico na hora de sair.<br \/>Mas sem querer ser pessimista ou rabugento, o Rio de Janeiro que quer os Jogos de 2016 ainda precisa de muitas mudan\u00e7as de comportamento antes de se sentir mesmo uma cidade pronta para um evento com tanta carga pol\u00edtica e simb\u00f3lica. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de at\u00e9 onde vai o metr\u00f4, ou de como fazer a favela se comportar. \u00c9 isso e mais, \u00e9 criar uma identidade urban\u00edstica para a cidade, que permita a qualquer um circular por aqui sem se perder, sem ter medo, sem dar de cara com um abismo entre pessoas de um mesmo pa\u00eds. Se l\u00e1 fora conseguem algo melhor com pessoas t\u00e3o distantes em l\u00edngua e costumes, a gente precisa conseguir aqui, pelo menos, com quem s\u00f3 fala portugu\u00eas.<\/p>\n<div id=\"wp_fb_like_button\" style=\"margin:5px 0;float:none;height:100px;\"><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/all.js#xfbml=1\"><\/script><fb:like href=\"https:\/\/www.archive.raulmourao.com\/blog\/?p=102\" send=\"false\" layout=\"standard\" width=\"450\" show_faces=\"true\" font=\"arial\" action=\"like\" colorscheme=\"light\"><\/fb:like><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O camarada Bernardo Mortimer esteve em Londres e publicou esse texto l\u00e1 no SOBREMUSICA. Londres \u00e9 a nova Meca. E n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de hype, ou de \u00faltima moda. Pelas ruas, parques, mercados e museus da cidade, percebe-se que ali um projeto de integra\u00e7\u00e3o criativa vem dando certo. 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